Num mercado de trabalho cada vez mais marcado pela inteligência artificial, rapidez e transformação constante, Elsa Vila Lobos acredita que as empresas continuam a carregar preconceitos silenciosos em relação à idade.
Durante uma entrevista conduzida pela jornalista Catarina Marques Rodrigues, a People & Culture Director da Job&Talent falou sobre idadismo, conflitos geracionais, inteligência artificial e o valor estratégico dos profissionais mais experientes. E deixou uma constatação clara: apesar do discurso sobre diversidade, continua a existir uma preferência implícita por candidatos mais jovens.
Há uma barreira dos 35 anos, uma barreira mágica.
«Humildade intelectual» será decisiva para continuar empregável
Questionada sobre aquilo que os próprios profissionais com mais de 50 anos devem fazer para se manterem competitivos no mercado de trabalho, Elsa Vila Lobos destacou três fatores essenciais: humildade intelectual, capacidade de aprendizagem e construção de rede.
«Humildade intelectual significa perceber que se calhar vou ser liderada por alguém que é mais novo do que eu. E está tudo bem», afirmou.
A responsável destacou ainda a importância da learnability, a capacidade contínua de aprender e adaptar-se, sobretudo num contexto dominado pela inteligência artificial.
Na Job&Talent, explicou, todas as equipas estão atualmente a receber formação em IA, independentemente da idade ou da função. O objetivo passa por garantir que todos têm as ferramentas necessárias para trabalhar de forma mais eficiente e tirar partido da tecnologia no dia a dia.
E a reação, admite, tem sido surpreendente. Alguns dos colaboradores mais velhos acabaram por demonstrar um entusiasmo inesperado durante as formações, sobretudo quando perceberam o impacto prático da IA nas tarefas mais rotineiras.
Assista ao momento completo:
Elsa Vila Lobos, Catarina Marques Rodrigues – O Poder dos 50+
«As pessoas com mais de 50 anos também têm que ‘ir à box‘»
Com experiência tanto no recrutamento para clientes como na contratação interna da própria Job&Talent, Elsa Vila Lobos reconhece que persistem vários preconceitos associados aos profissionais com mais de 50 anos.
Entre os mais comuns estão as ideias de resistência à mudança, dificuldade em aprender ou menor adaptação à tecnologia. Ainda assim, acredita que o problema não está propriamente na capacidade de aprendizagem, mas sobretudo na mentalidade e na forma como as empresas encaram estas gerações.
Na Job&Talent, explica, a abordagem é diferente. «Nós encaramos os trabalhadores e este tema do mais de cinquenta anos como a Fórmula Um», contou. «É normal os carros irem até ‘à box’ quando estão a fazer uma corrida.»
A metáfora serve para explicar a importância da requalificação contínua ao longo da carreira. «Não é para ficarem encostadas ‘à box’, mas irem ajustar alguma coisa, aprender uma nova skill, e ficarem com maior aderência à pista, à estrada que conhecem há muitos anos.»

Empresas continuam a pedir candidatos mais jovens
Apesar da crescente discussão sobre diversidade geracional, Elsa Vila Lobos admite que algumas empresas continuam a pedir explicitamente perfis mais jovens quando recorrem à Job&Talent. Segundo explicou, existe frequentemente uma preferência implícita por candidatos abaixo dos 35 anos. Perante isso, a equipa procura contrariar esse preconceito através da valorização de outras competências e características relevantes para a função.
Ao mesmo tempo, reconhece que determinadas funções exigem maturidade, experiência e estabilidade emocional, ainda que raramente isso apareça formulado diretamente como um requisito etário.
Gerações mais novas estão a mudar a cultura de trabalho
Ao longo da conversa, Elsa Vila Lobos falou também sobre os conflitos e aprendizagens entre diferentes gerações dentro das empresas. Segundo explicou, uma das maiores transformações atuais está relacionada com a forma como as gerações mais novas encaram o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.
«As pessoas mais velhas estavam habituadas a ficar até mais tarde a trabalhar», recordou. «Hoje em dia, chegando às seis da tarde, seis e meia, e as pessoas vão embora porque têm vida.»
A responsável explicou que as gerações mais velhas começaram também a absorver esta mudança cultural e a rever hábitos antigos ligados à ideia de dedicação permanente ao trabalho. Mas os conflitos existem nos dois sentidos. Enquanto os mais novos procuram rapidez e execução imediata, os profissionais mais experientes tendem a privilegiar análise, contexto e prudência.
«Os jovens querem avançar, querem que a coisa aconteça. As pessoas mais velhas precisam do processo, das etapas, de perceber se têm os dados todos para tomar uma decisão», explicou.

Inteligência artificial aumenta valor das competências humanas
Num momento em que a inteligência artificial está a transformar funções e modelos de trabalho, Elsa Vila Lobos acredita que certas competências humanas se tornarão ainda mais relevantes e, aí, os profissionais mais experientes podem ter uma vantagem importante.
«Fica a sobrar um espaço para competências como o espírito crítico, a resiliência e a capacidade de ter passado por várias coisas ao longo da vida», afirmou. Para a responsável da Job&Talent, essa experiência traz estabilidade emocional e capacidade de lidar com pressão e incerteza.
Ao mesmo tempo, acredita que a aprendizagem deve ser sempre bidirecional. Os profissionais mais experientes podem ensinar muito às gerações mais novas, mas também têm capacidade para aprender com elas, sobretudo na forma como encaram o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
O futuro do trabalho será mais flexível
Já perto do final da entrevista, Elsa Vila Lobos deixou uma última reflexão sobre o futuro do trabalho e os modelos de carreira. Para a responsável, as empresas terão de se adaptar a formatos mais flexíveis e menos lineares, sobretudo à medida que as pessoas trabalham durante mais anos. Consultoria, advisory, outsourcing ou equipas híbridas compostas por profissionais mais novos e mais velhos serão, acredita, cada vez mais comuns.
Porque, no final, conclui, o verdadeiro desafio continua a ser desmontar preconceitos que já não acompanham a realidade do mercado de trabalho.
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