A crise e os méritos e deméritos da Meritocracia

Tenho o privilégio de ser teletrabalhador. Escrevo este artigo no conforto da minha casa, da qual raramente tenho saído. O supermercado dispõe dos bens de que necessito. Lá fora, milhares de pessoas produzem, transportam e entregam mercadorias, atendem ao balcão, trabalham em armazéns, zelam pela segurança dos cidadãos, prestam serviços de limpeza, e asseguram o funcionamento das unidades de saúde e dos portos de mar. Algumas dessas pessoas vivem na corda bamba e são exploradas. O seu trabalho é, todavia, de uma valia incalculável, nem sempre reconhecido. Algumas, parcas em qualificações académicas, são vítimas… de um certo tipo de meritocracia!

O sistema meritocrático tem enormes méritos. Encoraja o esforço e o uso das capacidades individuais. Se bem governado, gera riqueza coletiva. É eticamente superior ao nepotismo, à aristocracia hereditária, ou aos sistemas de castas e linhagens. Mas padece de algumas maleitas. O iníquo acesso a bens e serviços de saúde (e, portanto, à vida) é emblemático. Somos  mais saudáveis e temos vidas mais longas se formos qualificados e tivermos nascido num berço favorável – o que Warren Buffet designa “lotaria ovariana”.

A desigualdade de oportunidades no acesso à educação é outra fragilidade. Aquando da crise financeira em Portugal, estudantes (capazes e esforçados) tiveram que abandonar o ensino superior como consequência do desemprego dos pais. Outros, nada esforçados, por lá continuaram anos a fio – apoiados por famílias e contribuintes. Agora, crianças desprovidas de elementares ferramentas tecnológicas padecem da escassez de oportunidades. O acesso às melhores escolas, a frequência de um programa Erasmus, o ingresso em mestrado ou doutoramento numa universidade prestigiada – eis domínios em que a igualdade de oportunidades é uma miragem para uma quantidade significativa de pessoas.

O contexto em que se nasce afeta a condição em que se vive e morre. O sucesso na vida assenta significativamente em fatores que nada têm a ver com competências ou esforços. Frequentemente, ao avaliarmos o mérito em função dos resultados que cada um alcança, esquecemos que os meios para alcançar esses resultados estão distribuídos iniquamente. Os vencedores congratulam-se  a si próprios, e são felicitados, pelos seus feitos. Os perdedores esforçados mas sem linhas no currículo são apoquentados, ficam ressentidos e tornam-se vítimas da pouca estima social. A iniquidade perpetua-se.

Podemos fechar os olhos a esta realidade e manter o conforto das nossas crenças. Mas, se queremos mais progresso social, necessitamos de repensar as nossas políticas públicas. Conviria que desenvolvêssemos mais consciência cívica dos nossos deveres perante os nossos concidadãos. As empresas podem exercer um papel importante – adotando práticas de compensação justas, facilitando o acesso à formação e à educação dos empregados, apoiando as comunidades em que operam. Os seus líderes, como fazedores de opinião e influenciadores da decisão política, podem contribuir para instituir mais dignidade no trabalho. Dignificar, aqui, significa capacitar as pessoas para sustentarem devidamente a família, acederem a bens de saúde e de educação, e fruírem de estima social.

Algumas pessoas não têm “mérito” no sentido clássico. São, porventura, desprovidas de algumas competências “modernas”. Mas têm a grande capacidade de fazer trabalho que nos permite aceder ao conforto e manter a vida económica a funcionar. Esfalfam-se. Têm direito a vida digna. Importa que os valorizemos mais. Não apenas durante esta crise – mas de ora em diante. Não só com elogios mediáticos – mas também com tratamento digno no trabalho. Não apenas com rosas – mas também com pão. Caso contrário, é possível que o ressentimento se expanda e mais populismos e populistas floresçam.

O tema é política e ideologicamente sensível. Mas importa que nos atenhamos a factos. Para leitores mais céticos, eis uma ironia adicional, extraída de investigação publicada numa prestigiada revista de gestão (Administrative Science Quarterly). Os autores (Emilio Castilla, do MIT, e Stephen Bernard, da Universidade de Indiana) notaram o seguinte: quando convidados a tomar decisões em organizações que enfatizam explicitamente a meritocracia, os gestores são mais enviesados em favor de homens (em desfavor de mulheres com o mesmo desempenho). Discriminam mais, não menos, as mulheres. Dotados da convicção de que, num contexto meritocrático, estão a ser justos, não refletem sobre os seus próprios preconceitos.

Talvez o leitor argumente que estas são contas de outro rosário. Olhe que não.  Algumas narrativas sobre a meritocracia estão envoltas em argumentos pouco meritocráticos. Não temos que enjeitar o sistema meritocrático. Mas podemos melhorá-lo, começando por mudar o modo como o encaramos. Uma teoria errada sobre o movimento dos astros não altera esse movimento. Mas as nossas teorias sobre os humanos, as organizações e o governo da coisa pública afetam as nossas decisões e, logo, a vida das pessoas e das sociedades. Esforcemo-nos, em tempo de crise, por aprimorar essas “teorias”.

[Nota: o artigo foi escrito a 21 de abril.]


Por
 Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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