Metaforicamente falando

Informava a imprensa que algumas deputadas foram alvo de ameaças nas redes sociais. Nada de surpreendente: afinal as redes sociais são, por excelência, o terreno da ameaça e da calúnia. Tal normalização não torna menos tolerável nenhum discurso deste tipo. Duas questões, todavia, se levantam: 1) o que faz da banalidade notícia em alguns casos e, sobretudo, a 2) a natureza adquirida pelas redes sociais.

Em relação à primeira questão, a causa é, como agora se diz, interseccional. Pode fazer-se ameaças a alguns mas não a outros. A indignação de uns perante a ameaça é legítima, ao passo que a de outros é vista como um ato sem cabimento. Estas incongruências são estranhas porque afinal a democracia pressupõe a igualdade de todos perante a lei.

Igualmente estranha é a tolerância perante algumas ameaças. Quando se ameaça grupos inteiros e se ancora a ameaça num qualquer filósofo criteriosamente colhido, a ameaça ganha um estatuto metafórico e como tal deve ser entendida – não como uma ameaça mas como metáfora, uma maneira de dizer. Neste estranho mundo que estamos a criar, a tua ameaça é inaceitável mas a minha ameaça é uma metáfora. Não seria melhor acabar com o doublespeak e tratar tudo como igual? Uma ameaça é uma ameaça é uma ameaça.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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