Miguel Matos, GM da Tabaqueira: “Vemo-nos obrigados a uma gestão do dia-a-dia”

A situação mundial tem sido monitorizada em tempo real pela subsidiária da Philip Morris International em Portugal. E não é para menos, a Tabaqueira é um dos maiores exportadores nacionais – 80% da sua produção vai para mais de 25 países.


Os desafios da operação da Tabaqueira são, quase, ao minuto. Continuar a produzir para garantir não só o abastecimento do mercado nacional, mas principalmente as exportações, e manter viva a rede de empresas que dependem exclusivamente de si, são algumas das batalhas da empresa de tabaco, com marcas como IQOS, Marlboro e Português.

Miguel Matos, general manager da Tabaqueira, explica à Líder que continua a acompanhar o evoluir da situação com a máxima atenção. Para começar foi acionada a equipa de gestão de crise e, posteriormente, delineado o plano de contingência tendo em conta as instruções da DGS e da casa-mãe Philip Morris International.

“As medidas que temos vindo a tomar passam sobretudo por assegurar, em primeiro lugar, a integridade e a saúde de todos os nossos trabalhadores. O capital humano é a nossa principal valia”, garante.

A isto, soma ser um dos maiores empregadores do concelho de Sintra, com quase mil trabalhadores, e exportar aproximadamente 600 milhões de euros, encontrando-se entre as dez maiores empresas exportadoras nacionais. Igualmente importante é o facto de no setor do tabaco existirem muitas PME cuja atividade depende da continuidade da operação da Tabaqueira. E são às centenas, com parceiros, clientes, fornecedores e indivíduos e organizações com quem se relaciona no contexto da atividade.

Entre as mil e uma iniciativas, o general manager exemplifica a “política de portas abertas para evitar a utilização dos puxadores”. De facto, falamos de um setor em que todos os pormenores devem ser tidos em conta e em que não é possível passar 100% da atividade a teletrabalho. Assim, reforçaram-se as rotinas de limpeza, alteraram-se os circuitos de entrada. Pelo meio, houve grandes reajustes no centro médico, no refeitório, na fábrica, nos veículos de transporte dos trabalhadores. E até a criação de um kit de higiene e proteção para colocar nos balcões dos parceiros de retalho, o que permitiu a muitos permanecerem abertos e a outros tantos reabrirem ao público.

“Temos uma estrutura sólida, os melhores colaboradores e uma estratégia com base na ciência, tecnologia e inovação, procurando soluções para sermos cada vez mais sustentáveis”, diz Miguel Matos com alguma confiança. E deixa ainda várias notas de esperança: “Somos um povo de lutadores, e dotados de uma enorme resiliência. Não será um período de isolamento social que irá mudar o nosso ADN. A recuperação económica após esta crise irá trazer inúmeras oportunidades, e teremos de estar preparados para as aproveitar. Acredito que se o fizermos, sairemos ainda mais fortes do que já éramos antes desta pandemia”.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
O mais assustador é o impacto global que está a ter, ultrapassando fronteiras a uma velocidade assustadora, com consequências humanas e económicas nunca vistas nos tempos contemporâneos. As medidas adotadas pelas diversos Governos a nível mundial, com a declaração de “estados de emergência” e quarentenas obrigatórias, assemelham-se a medidas adotadas em tempos de guerra. As consequências a nível económico são ainda imprevisíveis, e as alterações que esta pandemia impôs no funcionamento das empresas, no nosso quotidiano, e o distanciamento social imposto, irão produzir mudanças muito profundas cujo impacto só conseguiremos estimar daqui por uns meses.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
A prioridade foi e tem sido sempre a segurança, prevenção e proteção da saúde das nossas pessoas, mas também da nossa comunidade mais alargada, composta por parceiros, clientes, fornecedores e todas as centenas de indivíduos e organizações com quem nos relacionamos no contexto da nossa atividade. Ativámos imediatamente a nossa equipa de gestão de crise, que é multidisciplinar, e envolve elementos da equipa de gestão e outros responsáveis de departamento. Implementámos desde logo um plano de contingência que teve em linha de conta as recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS), e as normas orientadoras para prevenção da COVID-19, da Philip Morris International (PMI), da qual a Tabaqueira é uma subsidiária.
Este plano de contingência passou pela divulgação e reforço de medidas de proteção individual, implementação de um regime de trabalho remoto para todas as atividades que possam ser desempenhadas à distância, identificação dos trabalhadores pertencentes aos grupos de risco para que os pudéssemos colocar em regime de teletrabalho, e/ou dispensar das suas atividades profissionais até informação em contrário. Conseguimos reduzir assim o número de pessoas nos escritórios, e por essa via a probabilidade de contágios.
Temos também um centro médico nas nossas instalações, e através destes profissionais de saúde, disponibilizámos de imediato uma linha telefónica para esclarecimento de dúvidas e aconselhamento aos nossos trabalhadores. Recentemente, estendemos este serviço para uma outra linha telefónica diária com uma psicóloga disponível por videochamada, para lidar com questões de ansiedade ou isolamento. Eliminámos também as reuniões presenciais, fazemo-las por videoconferência ou conferência telefónica normal, reforçámos as rotinas de limpeza, aumentámos o número e dimensão dos veículos de transporte dos nossos trabalhadores, para que se possam sentar-se em zigue-zague e implementámos uma política de portas abertas para evitar a utilização dos puxadores. No refeitório da empresa, atribuímos áreas específicas onde as diferentes equipas da fábrica se devem sentar, e alterámos o circuito de entrada de pessoas para que tenham de passar obrigatoriamente através de uma zona para lavagem de mãos.
Estas são apenas algumas medidas implementadas de forma transversal a toda a empresa. Existem outras de caráter mais localizado e específico, e que foram sugeridas pelos nossos trabalhadores.

Quais os impactos no negócio?
É muito cedo para antecipar o impacto que esta pandemia terá no nosso negócio. A Tabaqueira é um dos maiores empregadores do Concelho de Sintra, com quase mil trabalhadores, e exporta 80% da sua produção para mais de 25 países – aproximadamente 600 milhões de euros em 2019, encontrando-se entre as dez maiores empresas exportadoras nacionais.
Dito isto, o impacto no nosso negócio irá também depender muito da evolução da conjuntura externa, e dos apoios económicos futuros concedidos às pequenas e médias empresas, algumas delas de natureza familiar, que fazem parte do circuito logístico de distribuição e comércio por retalho de produtos de tabaco.

É possível já começar a desenhar algumas medidas a esse nível?
Continuaremos a acompanhar o evoluir da situação diariamente e com a máxima atenção, cuidando para que as nossas pessoas e a nossa comunidade se mantenham informadas. As medidas que temos vindo a tomar passam sobretudo por assegurar, em primeiro lugar, a integridade e a saúde de todos os nossos trabalhadores. O capital humano é a nossa principal valia. Quanto ao negócio em si, face às incertezas da duração desta crise de saúde pública, vemo-nos obrigados a fazer uma gestão dia-a-dia. Monitorizamos a evolução da situação, bem como o nosso plano de contingência, para analisar em tempo real as novas informações, proceder a análises de risco e decidir medidas e planos de ação, e dar o apoio necessário aos nossos trabalhadores.

Situação complexas em concreto que enfrentam e como pensam atuar?
Para além dos desafios diários que têm que ver com a nossa operação no país, somos um dos maiores exportadores nacionais, o que significa que estamos dependentes do evoluir da situação nos mercados externos para onde exportamos. Vamos atuar com segurança e ponderação, assim como estar atentos e responder de acordo com as circunstâncias e as exigências. No setor onde operamos existem muitas pequenas e médias empresas cuja atividade depende da continuidade da nossa operação, por isso continuaremos a produzir para garantir não só o abastecimento do mercado nacional, mas principalmente as exportações.

Já tinham vivido um desafio destes?
Este desafio é ímpar nos tempos contemporâneos. A PMI é uma empresa multinacional com presença em mais de 180 países e mais de 73 500 trabalhadores. Já atravessou inúmeras crises e recentemente adotou uma nova visão, a de contribuir para substituir os cigarros por produtos sem combustão, que permitem consumir nicotina de forma menos nociva, e por isso são melhores alternativas para os homens e mulheres que continuarão a fumar. Na última década, para a construção de um futuro sem fumo, investiu fortemente em investigação e desenvolvimento tendo contratado mais de 400 cientistas de diversas áreas das ciências da saúde, os quais desenvolveram um programa de avaliação e substanciação científica destes novos produtos que envolve estudos não clínicos e clínicos. Trata-se de um processo de transformação disruptivo, pioneiro e único no setor.
A Tabaqueira, por sua vez, foi adquirida pela PMI em 2001, mas é uma empresa quase centenária, tendo sido fundada em 1927. Viveu também ao longo da sua história tempos difíceis, de guerras e de crises.
Sem dúvida que cada um destes momentos apresentou desafios diferentes, aos quais demos sempre uma resposta segura. Temos uma estrutura sólida, os melhores colaboradores e uma estratégia com base na ciência, tecnologia e inovação, procurando soluções para sermos cada vez mais sustentáveis, o que nos permite encarar o futuro com algum otimismo e confiança na nossa missão, de que continuaremos a transformar o nosso negócio com sentido de responsabilidade, e a pensar nas pessoas e o nosso contributo para um futuro melhor.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Estado assume um papel essencial não apenas durante a gestão desta crise, mas sobretudo na fase posterior à crise. Tem de garantir que existirão os meios e instrumentos adequados para uma recuperação económica tão rápida quanto possível. Se por um lado tem de ter um papel regulador, por outro necessita não só de garantir o bem-estar das pessoas, mas também de se posicionar como o principal apoio dos agentes económicos, tendo fundamentalmente de acionar e implementar medidas de suporte ao tecido empresarial.
É essencial que o Estado garanta que as medidas já comunicadas chegam a todos, às empresas de pequena, média e grande dimensão. Além disso, há que ter a certeza de que qualquer empresário as pode acionar, e que a sua implementação é rápida. Ou seja, o Estado tem de garantir que o apoio chega a quem de direito e na hora certa, para que a economia mantenha a sua dinâmica e a recuperação seja rápida. Além das medidas nacionais que venham a ser tomadas, é da maior importância a coordenação ao nível europeu. Este não é um desafio exclusivamente português: é também europeu e global.

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Acredito que a prioridade de qualquer líder é a proteção das suas pessoas. Neste momento, muitos estão a rever formas e métodos de trabalho, e esta nova realidade a isso nos obriga. É necessário mantermo-nos resilientes e, em alguns casos, repensar novamente o negócio e as formas de satisfazer o consumidor. As cadeias de distribuição são importantes e é necessário repensá-las, mas temos de o fazer com a serenidade e o otimismo possíveis, procurando o equilíbrio difícil de manter na medida do possível a atividade económica, e proteger sempre os nossos trabalhadores e as suas famílias.
Por fim, nestes momentos difíceis temos de ser ainda mais solidários, e ouvir as ideias dos nossos trabalhadores. Por exemplo, na Tabaqueira temos trabalhadores que estão mais disponíveis e que se voluntariaram para adquirir bens essenciais, como por exemplo, géneros alimentícios e medicamentos, para os colegas da fábrica ou outros que têm crianças em casa e que estão por isso menos disponíveis para estas atividades quotidianas.

E aos portugueses em geral?
Em primeiro lugar que sigam as recomendações das autoridades, mantendo-se em casa, e adotando as medidas de proteção individual da Direção-Geral da Saúde.
Em segundo lugar, que se mantenham serenos e prestem atenção apenas a fontes credíveis de informação. As fake news fazem parte do novo normal e apenas acrescentam caos a uma situação de crise que por si só já é caótica.
Por fim, uma palavra de esperança. Portugal tem quase 900 anos de história. Foram os Descobrimentos Portugueses que contribuíram para delinear o mapa mundo. Durante as nossas descobertas contribuímos para os avanços da tecnologia e ciência náutica, fomos os primeiros a desenvolver navios capazes de navegar em segurança em mar aberto no Atlântico. Vencemos inúmeras crises ao longo da nossa história, reerguemos uma cidade após um terramoto catastrófico, sobrevivemos aos impactos de duas guerras mundiais, reconstruímos um país após uma ditadura de 40 anos. Somos um povo de lutadores, e dotados de uma enorme resiliência. Não será um período de isolamento social que irá mudar o nosso ADN. A recuperação económica após esta crise irá trazer inúmeras oportunidades, e teremos de estar preparados para as aproveitar. Acredito que se o fizermos, sairemos ainda mais fortes do que já éramos antes desta pandemia.

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