Ao longo de quatro dias, durante o Festival Espanto, o único evento internacional dedicado à Filosofia em Portugal, Minna Salami, autora e analista feminista nigeriana, foi parte do conjunto de dezenas de filósofos, para além de escritores, pensadores, artistas e especialistas que se reuniram em Cascais para refletir sobre o Desejo, o tema da segunda edição.
Autora e analista feminista nigeriana, finlandesa e sueca, o trabalho de Minna Salami centra-se no conhecimento, no pensamento africano, na filosofia e em novos enquadramentos culturais para uma compreensão global.
‘O Tempo é Poder: Uma Teoria Cronofeminista Do Desejo’ foi o título da sua palestra, parte da programação da edição 2026 do Espanto – Festival Internacional de Filosofia, que aconteceu entre 25 e 28 de junho, em Cascais.
Em conversa com a Líder, partilhou a sua visão sobre o desejo, o conceito cronofeminista e a necessidade de novos formatos de comunicação e diálogo entre as pessoas.
Qual é a importância do desejo nas nossas vidas?
Acho que é realmente importante refletir sobre o desejo; é algo a que dedicamos muito pouca atenção. O desejo molda, na verdade, tudo aquilo que ansiamos. É ele que dá origem às ações que realizamos nas nossas vidas, desde as pequenas coisas do dia-a-dia. Quero comer arroz, não tenho nenhum em casa, esse desejo leva-me a ir à loja, é uma ação, ou a um restaurante. É uma ação que decorre do desejo. Mas isto, claro, estende-se depois a questões mais amplas, sobre com quem escolhemos partilhar as nossas vidas e coisas do género. Além disso, penso que a estrutura política da nossa sociedade se baseia no desejo. Quando olhamos para o mundo em que vivemos, que é um mundo, sem qualquer dúvida, governado por homens, dominado pelos homens. E assim, os desejos que estão representados nas nossas estruturas políticas, nas instituições académicas, nos cuidados de saúde, como em todas as facetas da sociedade, são, na verdade, uma espécie de expressão de um desejo definitivamente coletivo que, na sua maioria, é masculino.
O seu trabalho cruza o feminismo, o pós-colonialismo e a espiritualidade. Acredita que o pensamento ocidental tende a separar a razão, o corpo e a emoção?
Sim, sem dúvida. E penso que isso tem muito a ver com a manutenção de uma determinada estrutura de poder. Porque se dissermos que as emoções estão associadas às mulheres, como quando dizermos: ‘Os homens não choram’, eles pensam e resolvem problemas, o que é, claro, uma grande treta, então também é mais fácil controlá-las. E muitas das instituições ocidentais assentam, mais uma vez, nesta estrutura, pelo que na escola damos prioridade à engenharia, à matemática e às ciências, mas não às humanidades, nem à arte ou à criatividade. Quando, obviamente, estas são muito importantes para o progresso da sociedade.
O pensamento africano é habitualmente incluído em fóruns e diálogos filosóficos?
Não. Quer dizer, não no Ocidente, e se me pedissem para descrever uma forma africana de pensar, eu hesitaria muito em fazê-lo porque é extremamente heterogénea. Existem tantas formas diferentes e contrastantes de pensar em África. A única filosofia de que se associa frequentemente ao pensamento africano é a filosofia Ubuntu. Que significa algo como: «Eu sou porque tu és.» Portanto, é uma filosofia de inter-relação. Mas não é universalmente aplicável a África, porque África é um continente enorme. Mas acho que é isso que não é tido em conta. Sempre que se faz alguma menção ao pensamento africano, este transforma-se num estereótipo.
Ainda estamos presos a modelos de pensamento excessivamente eurocêntricos?
Sim. Acho que uma coisa decorre da outra. Sim, sem dúvida.
O desejo pode ser uma ferramenta para a política e a transformação social?
Acho que o desejo é uma ferramenta muito subvalorizada. Porque, quando olhamos para os movimentos políticos, não falamos de desejo. Falamos de estruturas, instituições e poder. Acho que precisamos de falar mais sobre o desejo. Acho que ele tem muito poder.
Acredita que a filosofia pode transformar a forma como vivemos, ou tornou-se uma ferramenta para interpretar o mundo?
Ambas as coisas. Quer dizer, acho que é precisamente essa a questão. Ajuda-nos a interpretar o mundo para que possamos mudar.

Quando o pensamento ocorre em público, continua a ser livre ou começa a transformar-se numa performance?
Essa é uma boa pergunta. Num mundo mercantilizado, e agora com as redes sociais e tudo o mais, parece que pensar em público pode tornar-se, em grande parte, uma questão de notoriedade, e de querer vender os teus livros, por exemplo, e, assim, torna-se uma performance. Acho que é importante resgatar a noção de diálogo, porque existe um certo tipo de pensamento que é muito egocêntrico, e isso vai existir sempre. Para os seres humanos, faz parte do nosso arquétipo: debatemos, queremos, de certa forma, jogar pingue-pongue com as ideias. Mas depois há um tipo diferente de pensamento público que tem a ver com o diálogo, algo semelhante ao que está a acontecer aqui, no Festival Espanto, com as Ágoras, e não creio que seja uma performance, ou pelo menos ajuda a afastar-nos disso. Por isso, tem muito a ver com o formato, diria eu.
O que é para si o espanto: um momento de lucidez ou uma breve interrupção da distração?
É lucidez, a cem por cento. Acho que o espanto é a minha principal motivação para trabalhar. Fico tão encantada com as ideias e com a sua divulgação, e nada me dá mais alegria do que quando percebo que alguém leu o meu trabalho ou ouviu uma palestra e fica, de certa forma, espantado. Porque acho que é nesse momento que não se pode necessariamente concluir que a mudança irá acontecer. Mas é algo que tem de estar presente para que a mudança aconteça. É aquele momento em que alguém pensa: ‘Oh, há aqui algo mais.’ Não tem de ser positivo. O espanto, ou encantamento, não é só beleza. Também pode ser obscuro. Pode até ser raiva. Como, eu pensar ‘porque é que eu não sabia disso’, a minha educação induziu-me em erro, mas é esse espírito de ‘estou espantado, quero compreender isto melhor’.
O que acontece quando as pessoas se juntam para pensar coletivamente?
Imagino que as pessoas fiquem muito estimuladas e inspiradas. Acho que, às vezes, não acontece nada. Às vezes é apenas uma encenação. Já fui a tantas conferências de onde saí a pensar que não tinha absolutamente nenhum sentido. É mais para fins sociais, é mais para que alguém consiga um vídeo do YouTube ou conteúdo para fazer alguma coisa. Portanto, depende do formato.
No final do festival, o que espera que fique na memória das pessoas?
Provavelmente essa sensação de que foi diferente. Imagino que, se fosse o organizador, gostaria que as pessoas pensassem: ‘Isto não foi apenas mais do mesmo, porque é que fui lá?’ Sim. Mas foi realmente um tipo de encontro diferente, porque, na verdade, não há outro evento como este em Portugal. É um local lindo, é fantástico.
O tema da edição anterior do Espanto foi o medo. Sente medo dos tempos em que vivemos?
Sim. Tenho mesmo. Também não acho que sejamos os únicos a viver em tempos conturbados. O meu trabalho centra-se na descolonização e na opressão de género. E, claro, se comparar com há 100 anos, como mulher negra, não quero estar naquela situação, as coisas evoluíram. Mas acho que o que talvez defina a nossa época de uma forma muito específica é precisamente o facto de estarmos tão confusos. Há tanta confusão, há uma ausência de clareza tão grande. Por isso, estamos a enfrentar todos estes problemas, mas não sabemos como lidar com eles. Há imensa informação, e não é só o facto de termos toda esta informação, mas estamos a perder o contacto com a realidade. A informação está a fazer com que tudo pareça um pouco irreal. Por isso, as pessoas estão quase, digamos, num estado alucinatório. Esta avalanche de informação está a criar uma realidade paralela e isso é assustador. Por isso, sim, tenho medo.
Tenha acesso aos áudios das palestras do Festival Espanto 2026 através do podcast O Princípio da Inquietação
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