Mística da casa comum em tempos de pós-pandemia

Começo este ensaio evocando um momento pessoal da minha vida. A minha filha nasceu no dia 31 de dezembro do ano passado. Na manhã seguinte, em que voltava ao hospital praticamente vazio, para o registo da minha filha, vi de longe, a ir para casa, uma das enfermeiras que a acompanhou, entre todas as outras equipas que se revezaram durante o longo período de internamento da minha esposa, de modo que não consegui memorizar o nome de todas. Mas o facto de eu não saber o seu nome levou-me a nomeá-la como uma “heroína anónima”, pois não sabia o seu nome, quem era, o que pensava da vida, como encontrá-la ou como agradecer-lhe naquele momento. Apenas tinha uma sincera gratidão pelo seu precioso trabalho que foi fundamental para o êxito do bem-estar da minha esposa e da minha filha, pessoas que amo.

Mal sabia que essa categoria de “heroísmo anónimo” seria tão adequada para o verdadeiro exército de profissionais de saúde que foram mobilizados para o evento da pandemia de COVID-19 que se iniciaria pouco tempo depois e se estenderia pelo mundo todo. A situação de pandemia em que vivemos certamente pode ser lida sob o signo do Apocalipse, mas não no sentido mais vulgar e cinematográfico da narrativa bíblica que aponta para o fim do mundo.

A literatura apocalítica lê-se melhor a partir das características do seu género literário que visa “desvelar” a realidade e indica assim o fim de um mundo, aquele em que já não é mais possível viver com tal modo de se ver as coisas, pensar os problemas e imaginar o futuro. A literatura apocalítica é um convite a uma mudança de mentalidade, em que ao mudar-se o modo de pensar, muda-se a forma de viver. Nesse sentido, a COVID-19 instala uma situação apocalítica que acelera a necessidade de mudança de um modo de vida. E como aconselha a própria literatura bíblica apocalítica, é necessário “que unjas os teus olhos com colírio, para que MÍSTICA DA CASA COMUM EM TEMPOS DE PÓS-PANDEMIA Por: Alex Villas Boas vejas”. (Apocalipse 3,18)

Nessa perpetiva, pode ser lido o caráter apocalítico do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, em que já apontava para a insuficiência de se manter o estilo de vida que se foi criando ao estilo de Mary Shelley, um modo de ser que ganhou vida própria, porém com traços de monstruosidade assustadoras. No entanto, para Saramago essa monstruosidade parecia já não assustar-nos mais, a ponto de identificar um modo de ser e pensar que qualifica como cegueira. Para o autor português tal cegueira destes novos tempos não se caracteriza como ausência de luz, mas sim excesso de luz. Tal como o Apocalipse, tudo está desvelado, porém poucos veem, de modo que a cegueira pandémica saramaguiana apenas revela que os personagens já estavam cegos antes da cegueira: “Por que foi que cegámos?” pergunta uma personagem. E responde sua interlocutora: “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.

No romance saramaguiano “não há cegos, mas cegueiras”, oriundas de certezas esclarecedoras incapazes de se autocriticarem. Não é tanto o evento pandémico da Cegueira que assusta, face ao espanto de não admitirmos que éramos cegos. O espanto é o início do pensamento. Essa mesma característica de cegueira e revelação, o Papa Francisco assume-a na sua Oração em Tempo de Epidemia, que inicia com a cena do Evangelho de Marcos, de Jesus com os seus discípulos “ao anoitecer” (Marcos 4,35), ao cair da noite quando a clareza das coisas já não é possível, evocando assim o nosso anoitecer e a noite que cai com o momento que vivemos, no qual as nossas certezas parecem ser insuficientes e se esvaem. Une assim, a nossa angústia à angústia dos discípulos que no meio da tempestade gritam ao seu Mestre que dormia tranquilo: “vamos perecer”. (cf. 4,38)

Vencer as tempestades do mar é uma narrativa clássica da Antiguidade. Na Odisseia, Ulisses leva 20 anos para regressar a Ítaca, enfrentando Posídon no mar. Mas há uma evolução na teologia homérica da Ilíada para a Odisseia, pois na primeira tudo o que acontecia na vida dos mortais era tido como vontade dos deuses, já na Odisseia a única mediação entre Ulisses e Zeus é Athenas. Há uma busca de amizade com a deusa da sabedoria (filo-sophia) que conduz o herói grego às aprendizagens fundamentais que ajudam a cumprir o seu périplo. As tempestades do Evangelho evocam não tanto o maravilhoso, mas que a sabedoria é necessária para não perecer. E por isso, Jesus após acalmar a tempestade indaga: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?». (4,40) A fé do Evangelho não é só uma crença, mas, tal como as literaturas da Antiguidade, é narrada como oferta de um caminho de vida e uma busca de sabedoria que implica olhar o mundo a partir da perspetiva de Jesus.

Este aponta para uma disposição à fraternidade e uma constante mudança de mentalidade, despindo-nos de certezas que nos cegam para criativamente cocriar a humanidade. Francisco, assim, indica algumas causas da nossa cegueira face ao espanto de descobrirmos a insuficiência de nosso modo de pensar este momento: “Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda a velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente.

Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’” (Francisco, Momento Extraordinário de Oração em Tempo de Epidemia, 27 de março de 2020). É evidente que a crítica à “avidez do lucro” não pode ser entendida anacronicamente como determinado período medieval, em que o lucro era considerado pecado de avareza.

Não sendo lucrativa, nenhuma empresa sobrevive, mesmo as estatais, e a sociedade colapsa. Entretanto, há uma grande diferença nos meios de se conseguir ser lucrativo, no qual incide a tentação de juntar a produção a formas sofisticadas de exploração. Tal crítica faz memória a toda uma tradição do pensamento social cristão desde a Revolução Industrial, que ganha força na recessão económica após a Segunda Grande Guerra, e que foi desenvolvida com competência técnica e teórica pelo dominicano francês Joseph Lebret (1897- -1966) e o movimento que criou de Economia e Humanismo. Lebret falava inclusive de uma «mística do bem comum» que deveria marcar a espiritualidade dos novos tempos. Enquanto mística, visa despertar a sensibilidade humana que convida e motiva ao desejo pelo bem comum, e assim dinamiza a inquietação intelectual de penetrar a um nível maior de complexidade, para que deste exercício de maior compreensão possa emergir o anúncio de uma boa-nova, que se traduz em ações concretas e colhem os frutos que confirmam aquela compreensão mais profunda daquilo que se busca. Há na mística um itinerário de criatividade, que é retroalimentado pelo crescente desejo de se pôr ao serviço de quem mais precisa.

A mística torna-se necessária porque não é possível criar heróis, uma vez que estes surgem da ocasião em que lhes é solicitada uma entrega pessoal. Entretanto, é um dever criar uma cultura que forme homens e mulheres de excelência, que possam em ocasiões de grande perigo sentirem-se chamados a responder ao desafio com a dedicação das suas vidas. A isso se prestava a mística do bem comum de Lebret, de oferecer ao mesmo tempo o desejo de adquirir uma profunda capacidade crítica e profundo humanismo, preparação para o apelo ao heroísmo, em que tais homens e mulheres possam responder ao desafio como uma entrega pessoal na qual todo o percurso de vida se ilumina para aquele momento. Tal sentido pessoal da existência entregue a uma causa é o que sustentava a difícil tarefa do heroísmo anónimo de milhares de pessoas que foram mobilizadas para a reconstrução das nações no pós-guerra. Heróis anónimos que se consumiram pelo bem comum. Heroísmo anónimo antagónico às campanhas políticas oportunistas de pretensiosos candidatos a salvadores.

Aquilo que Lebret chamava de mística do bem comum evolui para o que podemos chamar de “Mística da Casa Comum”, um modo de pensar em que tudo está interligado, e que exige disposição para a autocritica para rever aquilo que se descobre como insuficiente manter após a pandemia, a começar pelo nosso antropocentrismo e modo de produção exploratória, não apenas insensível ao planeta que habitamos, mas estruturalmente exploratória.

Se na linha de frente desta batalha da humanidade contra a pandemia estavam os profissionais de saúde, a reconstrução da vida procura muitos mais heróis imbuídos de uma nova mística para um novo modo de ser e pensar o quotidiano que nos espera. E aqui, tal como no pós-guerra, a questão económica continua a ser fundamental para ser entendida como serviço à vida, a ponto de rever todos os momentos da história presente em que a economia subverte o seu papel. Este parece ser mesmo um desafio que marca os novos tempos desde os primórdios da Modernidade. Não existem respostas fáceis para problemas difíceis, e a mística ajuda a manter os olhos abertos aos sinais que vamos aprendendo no caminho de busca. Impõe-se novamente o desafio que levava Lebret a um humanismo económico, ou seja, a tarefa de pensar a relação entre economia e cultura, para que o enriquecimento das nações seja acompanhado de um progresso social sustentável, sendo necessário um nível acima no diálogo social. O que está em jogo, portanto, não é apenas a capacidade técnica ou teórica de superação da crise humanitária que se instala com a pandemia, mas um nível maior de complexidade e clareza de humanismo que sustente uma unidade cultural necessária para sustentar a consciência de corresponsabilidade de toda a sociedade, superando assim as contradições culturais e sociais do sistema económico, político e social que ficam escancarados com a pandemia. Como apostar nos modelos lucrativos atuais para salvar a sociedade de um colapso, quando o país mais rico do mundo é justamente incapaz de conter a propagação da COVID-19, chegando a ser também o país com maior número de mortos no cenário mundial?

A relação entre economia e cultura visa o exercício de discernimento que possibilite novas opções de um modo de produção que seja mais coerente com um estilo de vida responsável pelo todo, e que não se renda à ganância do lucro pelo lucro.

O Papa Francisco, com isso, não aposta só na capacidade cultural que a questão ecológica possui de promover um maior diálogo social, com novas porosidades reflexivas que superem os fantasmas ideológicos dualistas remanescentes da Guerra Fria, que pretendem ainda encarnar-se em discursos políticos oportunistas radicais. Propõe também que o modo de pensar a Casa Comum, de que tudo está interligado, e que seja capaz de promover interculturalidade em que pessoas diferentes com problemas comuns possam encontrar soluções cooperativas, e que esta postura também penetre a cultura económica das nações em sintonia com o que chamou de Economia de Francesco. Esta pode ser entendida como um fórum no qual economistas com diferentes perspetivas, juntamente com profissionais de diversas áreas de conhecimento, são convidados a pensar a complexidade entre cultura e economia além da dicotomia cultural histórica, numa nova plataforma para a discussão da economia mundial, e em que os seus mecanismos corporativos e financeiros possam alinhar-se com o papel das políticas públicas de redução de desigualdade e geração de um modelo de desenvolvimento inclusivo.

Face aos gigantescos desafios que se aproximam, pensar a relação entre economia responsável e cultura ecológica implica uma cultura de diálogo em prol do bem comum, cultura essa que permite entender que tudo está interligado, e assim abrir fendas nos históricos muros que impossibilitaram até agora a melhoria de vida global. Essas fendas frutificam-se no desejo de procurar novas formas de diálogo entre empresas, governos e sociedade civil, a trabalharem juntos para que a prosperidade global represente ao mesmo tempo progresso social, no difícil, porém incontornável, desafio de pensar a economia ao serviço da vida, sobretudo dos que mais precisam. Essa tarefa de relacionar economia e cultura não é algo novo, mas encontra-se no coração da economia moderna, em que o próprio Adam Smith denunciava como raiz das contradições económicas, as contradições culturais: “A disposição de admirar, quase de adorar os ricos e poderosos, e desprezar ou pelo menos negligenciar pessoas de condição pobre ou mesquinha (…) é ao mesmo tempo a grande e mais universal causa de corrupção dos nossos sentimentos morais.”. (Teoria dos Sentimentos Morais, p. 72)

A mudança do modelo económico, já indicava Smith, não é possível sem uma mudança de mentalidade, que passa pela conversão da imaginação e a sua capacidade de despertar empatia (sympathy), em última instância com aqueles que mais sofrem com as contradições culturais que sustenta um sistema económico: “Essa é a fonte da nossa solidariedade para com a desgraça alheia, que é ao trocar de lugar, na imaginação, com o sofredor, que podemos, ou conceber o que ele sente, ou ser afetados por isso.”. (Teoria dos Sentimentos Morais, p. 6)

É exatamente nesse sentido, que para Lebret a economia procurava uma cultura de humanismo. Se a pandemia revela as contradições de uma época, é essa cultura que também para Francisco propicia ver um momento oportuno para uma mística de fraternidade universal, um princípio que mesmo tendo sido esquecido, permaneceu na silenciosa revolução cultural em que emerge a consciência ecológica e em que se gera o apelo ao heroísmo anónimo da solidariedade, vivido na dedicação quotidiana de encontrar soluções, sobretudo com os que mais sofrem, cada um em seu espaço e possibilidades.


Ensaio de Teologia por Alex Villas Boas

 

 

 

Artigos Relacionados: