Morrer e deixar viver

Há uma curiosa contradição que grassa na opinião pública. Muitas vezes, os mesmos que afirmam que é necessário aproveitar as alterações impostas pela pandemia para conseguirmos um mundo melhor, centrado no essencial, são os mesmos que pedem ao Estado que não deixe morrer atividades e negócios que, antes do vírus, já estavam condenados.

A primeira e imediata resposta da maioria dos Estados ao coronavírus foi a de salvar vidas, apesar da economia. Concordo com essa abordagem, ainda que o resultado final possa ser igual ao daqueles Estados responsáveis (como a Suécia) que optaram por medidas muito menos restritivas. Apesar de o final poder ser igual ou parecido, só com uma espécie de choque se levaria as pessoas a tomar a sério a ameaça pandémica que têm pela frente.

O progressivo fim do confinamento que vivemos, embora escorado em muitos argumentos, gráficos e curvas científicas, deve-se, essencialmente, à relação custo-benefício da paragem da economia: era impossível manter os países (e o mundo) parado sem com isso colocar em causa aspetos fundamentais da nossa vida. E até a vida de pessoas que mais depressa morreriam de tal cura do que da doença.

Voltamos, pois, lentamente a uma normalidade diferente, que convive com o vírus, embora de modo desconfiado, tímido, receoso. As empresas reabrem, mas sobretudo o comércio (exceto mercados e supermercados) e a hotelaria e restauração quase não têm clientes, além de terem de fazer adaptações, por vezes com custos elevados, à nova circunstância.

Esta situação, que colocou os contribuintes a apoiar o layoff, o número cada vez maior de desempregados e algumas atividades que morreriam sem apoios, leva a que muitos empresários e atividades reivindiquem apoio. E como será esse apoio?

Luís Aguiar-Conraria, professor da Universidade do Minho, num texto publicado no Expresso, referia que a escolha entre o Estado “deixar o mercado funcionar ou dever conduzir a sua evolução” é uma questão ideológica. Como, no caso de querer ser condutor, saber que empresas o Estado deve apoiar por considerar viáveis e quais as que deve deixar cair para, de algum modo, sanear a economia do País.

Quando Aguiar-Conraria diz que as questões são ideológicas, avisa que escusam de ser respondidas privilegiadamente por economistas, como ele. São, na verdade, questões políticas relevantes, sobretudo se nos recordarmos que é do dinheiro dos contribuintes que estamos a falar.

E neste ponto, penso que a resposta é quase em espelho com a que se fez sobre as pessoas. Aí, tratou-se de salvar todas e tentar que não morra nenhuma. Já que no que toca às empresas, penso que o lema deve ser “morrer e deixar viver”, ou seja, não ter a pretensão de salvar o que já era claro ou previsível que a prazo teriam morte certa, ou privilegiar negócios que todos pensavam que, mais cedo ou mais tarde, teriam o destino das habituais bolhas. É uma excelente ocasião para apoiar projetos com duas vertentes quase óbvias: bens e produtos transacionáveis; e bens e serviços tecnológicos de última geração.

O turismo está, obviamente, entre os primeiros; a aposta em novas tecnologias energéticas entre os segundos. Ainda que possa haver “choro e ranger de dentes” inicial por não se salvar o negociozinho ou a fabriqueta, mesmo com sindicalistas à porta, o Estado tem de saber que o dinheiro dos seus cidadãos deve ser aplicado no que pode ter retorno. E nas pessoas. Por isso, mais vale pagar subsídios de desemprego e pensões de reforma do que ter uma plêiade de empresas pouco ou nada produtivas a gastar o dinheiro dos portugueses.


Por Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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