Morreu o Rei, viva o Rei

Tal como muitos portugueses também eu aguardei ansiosamente pela vitória de Biden. Tal como muitos disseram, Trump foi um presidente único: pela impreparação, pelos problemas de caráter, pela lógica unilateralista, pelo narcisismo hubrístico, ele foi em muitas medidas aquilo que um presidente não deve ser. Mas é possível que, neste como em quase todos os casos, o líder seja sintoma e não apenas causa.

A política identitária, tão em voga lá nos EUA como cá pela Europa, traça linhas de clivagem entre grupos. Ou se é de um grupo ou do outro. Essas linhas divisórias são muitas vezes formas de simplificação de uma realidade complexa. Polarizam. Ao polarizarem, como me diziam na passada sexta-feira, proporcionam grande (falso) conforto: se sabemos o que somos também sabemos contra o que somos. Dividimos o mundo nos bons e puros (nós) e nos que pensam mal e errado (eles).


E assim acabamos com um mundo dualista, repleto de maniqueísmos e de conflitos políticos insanáveis. Trump explorou este mundo com mestria, como explica Bernardo Pires de Lima em Portugal na era dos homens fortes (Tinta da China). Mas este não foi um mundo que ele criou sozinho. Se os maniqueísmos identitários continuarem os Trumps continuarão a florescer. A democracia é um jogo de dualidades, de polifonia, de diálogo com o adversário, de zonas cinzentas. Derrotar um “inimigo” dá sempre mau resultado. O que importa é criar visões inclusivas e não divisões exclusivas. Convém recordá-lo agora que as nuvens parecem ter ido e que o sol voltou a brilhar. Se o esquecermos elas voltam. Apesar de Biden.

 

 

 

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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