«Muitas sessões de criatividade não levam a lugar algum», diz Alan Iny

Treina milhares de executivos e consultores a pensar de forma criativa. Alan Iny dedicou toda a sua vida a libertar a criatividade das empresas para potenciar o negócio. Enquanto líder global no Boston Consulting Group nas áreas da Criatividade e Cenários está mais do que habituado a encontrar o caminho certo para pensar dentro da caixa.


Sim, leu bem. Para Alan Iny, dizer a alguém para pensar fora da caixa é como dizer que a “sua forma de pensar não é boa”. Deste raciocínio nasceu o livro, em coautoria, Thinking in New Boxes: A New Paradigm for Business Creativity”, onde apela à criação de novas caixas.

Diz-nos que as nossas ideias e modelos mentais permanecem intactos ao longo da vida, ao contrário do mundo, que está sempre em mudança. «Precisamos de nos permitir reavaliar constantemente as nossas caixas e pensar no que virá a seguir. O que não é fácil, porque somos seres humanos – os nossos cérebros e preconceitos adoram amarrar-nos ao status quo. Mas a melhor maneira de superar esses obstáculos é estar ciente deles. Entenda as suas caixas e preconceitos existentes, torne explícitos os implícitos e os ocultos – e depois pense em fazê-los evoluir».

Em conversa com a Líder, Alan Iny explica-nos os passos de um processo criativo, as semelhanças entre os tempos que vivemos e a Grande Depressão ou o conceito de “vantagem na incerteza”. «Em todos os estados futuros possíveis, em todos os setores, haverá vencedores e perdedores. E esticar o pensamento é um meio de se preparar melhor para o que quer que aconteça e aumentar a resiliência, criando uma “vantagem na incerteza”». E, acima de tudo, deixa-nos a pensar. «O que fariam a Disney ou a Apple se estivessem a dirigir uma revista de liderança e que ideias poderiam proporcionar?»

A Happy Conference 2020 com o tema “Reinventing Creative Thinking”, realiza-se a 30 de junho e Alan Iny é um dos oradores principais. Vamos conhecê-lo?


É coautor de “Thinking in New Boxes: A New Paradigm for Business Creativity”, onde argumenta que pensar fora da caixa está desatualizado, é necessário criar novas caixas. O que isso significa?
O mundo é tão complexo – por isso, simplificamos! Resumimos um novo filme ou umas férias de duas semanas em três frases. Dizemos “é assim que pensamos sobre os nossos clientes” ou “é assim que pensamos sobre a concorrência” – tudo isto são modelos mentais, paradigmas ou o que chamo de caixas. Portanto, dizer a alguém para pensar fora da caixa é como dizer que a “sua forma de pensar não é boa”, sem dar nenhuma orientação útil sobre como pensar.
Reunir algumas pessoas inteligentes numa sala com um quadro em branco (ou uma sala virtual com um quadro virtual) e dizer “pense fora da caixa” é como dizer a um jogador de golfe ou a um tenista para “consertar o seu swing” sem dar nenhuma orientação adicional. E é por isso que muitas sessões de criatividade não levam a lugar algum. Saltamos direto para a criação de ideias, sem orientação ou foco no caminho. Uma melhor abordagem é encontrar novas caixas úteis e, para fazer isso, precisamos de conhecer as existentes, uma etapa crítica que é frequentemente ignorada.

Antes de mais, o que é isso de alterar o nosso modelo mental? Como é que fazemos isso acontecer?
O primeiro passo de qualquer processo criativo deve ser o de compreender os modelos mentais existentes – somente assim podemos considerar novas ideias, novas caixas para alterá-los. Temos tantas suposições implícitas que faz uma grande diferença trazê-las à luz. Por exemplo, quando foram fundadas as primeiras companhias aéreas de low cost (Southwest e depois a Ryanair), tratou-se de listar modelos mentais inerentes à indústria e, em seguida, pensar amplamente sobre como poderiam ser alterados. Eles passaram de “precisamos de muitos tipos diferentes de aviões, para atender a mercados diferentes” a “termos um único tipo de avião, porque é mais barato”. De “agentes de viagens” a “sem agentes de viagens”, de “assentos atribuídos” a “assentos em abertos”, de “preços com tudo incluído” a “preços desagregados com extras” e muito mais. Todas estas mudanças levaram a um novo modelo de negócio que decolou, literalmente, em todo o mundo.
Na verdade, um dos meus exercícios de pensamento favoritos com os clientes é considerar esse exemplo e levá-lo ao desafio que temos em mãos – que mudanças de/ para modelos mentais podem ser possíveis para o seu problema?

Li que a sua missão é libertar criatividade nas empresas para impulsionar os negócios. Esta é a pergunta de um milhão: “Como podemos ter a agilidade mental de que precisamos para reinventar o pensamento criativo e colocar novas possibilidades sobre nós, para as nossas empresas e para a sociedade?” Pode dar-nos algumas respostas?
O mundo está sempre a mudar, hoje mais rapidamente do que nunca! Mas as nossas ideias que nos ajudam a perceber o mundo, como “é assim que penso sobre os meus clientes” ou “é assim que fazemos as coisas por aqui” permanecem fixas. Portanto, precisamos de nos permitir reavaliar constantemente as nossas caixas e pensar no que virá a seguir, e isto para acompanhar o mundo apenas. O que não é fácil, porque somos seres humanos – os nossos cérebros e preconceitos adoram amarrar-nos ao status quo. Mas a melhor maneira de superar esses obstáculos é estar ciente deles. Entenda as suas caixas e preconceitos existentes, torne explícitos os implícitos e os ocultos – e depois pense em fazê-los evoluir.

Tem algum mantra ou guião para ajudá-lo a pensar de forma criativa? O que pode nos ajudar a acelerar a criação de novas caixas?
Passo alguns bons minutos a pensar nas minhas caixas. É a melhor solução, quando estou preso. Mudar o cenário dando um passeio ou apenas deixar o problema infiltrar por um tempo e voltar a ele também pode ajudar. Mas, no final, trata-se de compreender as caixas existentes e encontrar novas úteis.

Por exemplo, para nós, uma revista sobre liderança, que conselhos nos deixaria?
A indústria das revistas não é fácil! No início da internet, o primeiro instinto era simplesmente pegar na edição impressa e colocá-la online – é assim que a mente funciona. Mas, eventualmente, ficou claro que um conteúdo mais dinâmico e atualizado poderia ser possível – isso também não é fácil. Portanto, torna-se uma questão de pensar o que poderá vir a seguir. Por exemplo, quais são as diferentes possibilidades de como será o futuro da publicidade? Imagine um CEO a falar entusiasmado sobre a sua revista daqui a três anos – o que está a dizer e pense o que vai começar a fazer amanhã para entrar nesse caminho? O que fariam a Disney ou a Apple se estivessem a dirigir uma revista de liderança e que ideias poderiam proporcionar?

O contexto atual facilita ou impede essa reinvenção e agilidade mental?Ambos! É claro que a pandemia e os desafios associados impedem o pensamento de longo prazo de certa forma, porque existem muitas crises e desafios de curto prazo a serem enfrentados. Mas, ao mesmo tempo, vimos muitos exemplos de criatividade de curto prazo, desde encontrar maneiras de higienizar máscaras de utilização única para reutilização, acelerar a produção de ventiladores, aprender de forma virtual e muito mais. E as organizações que dedicam tempo a pensar em reinventarem os seus negócios a médio e longo prazo provavelmente não se arrependerão – nas crises passadas, vimos melhorias significativas no retorno dos acionistas, por exemplo, entre aqueles que investiram em tempos desafiantes.

O que devemos temer mais nestes tempos?
Parece banal dizer que a única coisa a temer é o próprio medo, quando é claro que as pessoas podem temer legitimamente o vírus, o colapso da economia e muito mais. Mas o presidente americano Roosevelt pronunciou essas palavras em 1933, numa época em que havia uma enorme quantidade de criatividade a acontecer resultante da Grande Depressão. Hoje é diferente, mas também semelhante, e espero que consigamos superar os nossos medos com coragem e criatividade.

Cinco semanas antes do início da pandemia gravou um vídeo para a Happy Conference em que falava de um cenário hipotético de redução para 95% das ligações aéreas no Planeta. Dizia que era importante perspetivar contextos muito improváveis para estar sempre pronto para reagir. O que prevê num futuro próximo?
Isso foi concebido como um exercício de reflexão – quando pergunto aos clientes como isso pode acontecer, eles apresentam muitas hipóteses como o aumento do preço do petróleo, cinzas vulcânicas, realidade virtual e muitas outras, incluindo uma pandemia. Mas nunca foi concebido para ser uma previsão! Este tipo de pensamento permanece muito importante nos dias de hoje. Pense em algumas das suposições que dá como garantidas – e se acontecesse o contrário? E a que ideias isso pode levar?

Quais são os próximos grandes temas nas áreas da criatividade e liderança?Atualmente, concentro-me mais no conceito de “vantagem na incerteza”, usando diferentes cenários e ferramentas para nos prepararmos para o futuro. Em todos os estados futuros possíveis, em todos os setores, haverá vencedores e perdedores. E esticar o pensamento é um meio de se preparar melhor para o que quer que aconteça e aumentar a resiliência, criando uma “vantagem na incerteza”.

Quais devem ser as prioridades dos líderes nesta Era?
Numa organização hipotética em que tudo ocorre sem problemas, o único trabalho que resta para o CEO é pensar no que vem a seguir e quando. E em tempos de desafio, quando tem muitas outras prioridades, isto é tão essencial, se não mais do que tudo o resto! Os líderes devem pensar em maneiras de repensar os modelos de negócios, romper restrições e criar resiliência com antecedência.

Que impressões tem sobre a liderança no nosso país? Que conselhos deixa aos líderes de empresas em Portugal?
Sempre gostei das minhas visitas a Portugal em trabalho – tive o prazer de interagir com clientes portugueses de todos os setores e fiquei impressionado com a vontade de desafiar o status quo, bem como de se concentrarem no bem-estar e na sustentabilidade. Espero que assim se mantenha e que os líderes governamentais e empresariais encontrem formas de continuar a descobrir “novas caixas” e de se prepararem para uma diversidade de novas realidades. A minha filha está sempre muito animada para visitar Portugal em férias, espero que seja em breve!

Por TitiAna Amorim Barroso

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