O Mundial de 2026 arranca hoje com México e África do Sul num estádio mítico. A festa prometida pela FIFA já chegou manchada por polémicas que dizem muito sobre o tempo em que vivemos.
Ainda assim, será sempre simbólico começar o maior Mundial da história no Estádio Azteca. O templo do futebol mexicano, que em 1970 viu o Brasil de Pelé tornar-se lenda e em 1986 assistiu à mão de Deus de Maradona, abre esta quinta-feira as portas para uma competição sem precedentes: 48 seleções, três países anfitriões, 104 jogos, e um mundo inteiro à espera de esquecer, por uns dias, tudo o resto.
O jogo inaugural — México contra África do Sul, às 21h00 (hora de Lisboa) — tem um sabor de déjà vu. Estas duas equipas já inauguraram um Mundial, precisamente em 2010, em Joanesburgo, num empate a um. Desta vez são os mexicanos os anfitriões, e o Azteca estará em delírio. Mas antes de a bola rolar, é impossível ignorar o que se passou nos corredores desta festa que se queria do futebol e se tornou, em parte, do futebol e da política.
Um árbitro, um visto, uma afronta
A história que mais abalou o ambiente pré-Mundial não aconteceu dentro de nenhum estádio. Aconteceu num aeroporto.
Omar Abdulkadir Artan, árbitro somali nomeado pela FIFA para integrar a equipa de arbitragem do Mundial de 2026, foi impedido de entrar nos Estados Unidos após aterrar em Miami. As autoridades norte-americanas invocaram questões relacionadas com os procedimentos de verificação migratória e a sua participação no torneio tornou-se impossível. Dias depois, a FIFA confirmou a sua exclusão definitiva da lista de árbitros da competição.
Não é um nome qualquer. Artan foi distinguido em 2025 como um dos melhores árbitros africanos e tinha dirigido recentemente a final da Liga dos Campeões africana entre o Pyramids FC e o Mamelodi Sundowns. A sua presença no Mundial teria um significado histórico: seria o primeiro somali a arbitrar jogos de uma fase final do Campeonato do Mundo.
A FIFA limitou-se a recordar que não tem competência sobre os processos de imigração dos países anfitriões. O governo da Somália pediu esclarecimentos e procurou apoio diplomático junto das autoridades norte-americanas. O próprio Artan reagiu com serenidade, agradecendo as mensagens de apoio recebidas e afirmando que continua concentrado nos próximos desafios da sua carreira.
O caso tornou-se rapidamente um símbolo das tensões que acompanham este Mundial. Pela primeira vez, uma competição que se apresenta como uma celebração global do futebol vê uma das suas figuras oficiais afastada antes mesmo de entrar em campo.
A festa para quem conseguir chegar
O episódio envolvendo Artan não surgiu isolado. Nas últimas semanas multiplicaram-se relatos de dificuldades burocráticas e atrasos na obtenção de vistos para participantes e elementos ligados a algumas seleções.
Organizações de direitos humanos e vários observadores têm alertado para a tensão entre a natureza universal do Campeonato do Mundo e o endurecimento das políticas migratórias norte-americanas. O debate ganhou particular visibilidade devido ao facto de os Estados Unidos serem um dos três países anfitriões da competição.
A FIFA e as autoridades norte-americanas garantem, por seu lado, que foram criados mecanismos para facilitar a entrada de adeptos, equipas e delegações credenciadas. Ainda assim, o caso de Artan mostrou que a dimensão política e diplomática deste Mundial pode, por vezes, cruzar-se de forma desconfortável com aquilo que deveria acontecer apenas dentro das quatro linhas.
A festa que a FIFA promete
Apesar das polémicas, o espetáculo está pronto para começar.
O Mundial de 2026 será o maior da história da competição, reunindo 48 seleções e 104 jogos distribuídos por três países — Estados Unidos, México e Canadá. O torneio arranca no histórico Estádio Azteca, na Cidade do México, palco de alguns dos momentos mais icónicos da história do futebol.
Pela primeira vez, a FIFA prevê também um espetáculo de entretenimento associado à final, marcada para 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, numa aproximação assumida ao modelo dos grandes eventos desportivos norte-americanos.
Portugal inicia a sua participação a 17 de junho, frente à República Democrática do Congo, em Houston, às 18 horas de Portugal. O Brasil estreia-se antes, a 13 de junho, diante de Marrocos.
O futebol está finalmente de volta ao centro do palco. Mas, antes mesmo do apito inicial, o Mundial já mostrou que nem todas as suas histórias serão decididas pela bola.
O que vale um Mundial assim?
Há uma pergunta que paira sobre tudo isto e que o futebol raramente tem coragem de fazer em voz alta: o que significa organizar uma celebração da humanidade num lugar que decidiu, por lei, que certas humanidades não são bem-vindas?
Artan está em Istambul, muitos adeptos não conseguiram visto e o Azteca enche-se esta noite com o resto do mundo, mas só aquele que conseguiu entrar.
O futebol começou. O resto fica por resolver.


