Não há ficção sem ciência

Não, não creio que estejamos a tirar a ficção da ciência. Aliás, eu diria que uma não existe sem a outra. A ficção científica é tão antiga quanto a Humanidade. E se olharmos para a História da Humanidade, vemos que sempre andaram de mãos dadas: a ciência procura dar resposta aos assuntos que até ali eram do foro da ficção, da mesma forma que a ficção é ditada pelos limites do nosso conhecimento. E ambas vão evoluindo lado a lado. Não imagino um futuro que nos reserve um mundo em que uma delas deixaria de cumprir o seu papel, pois uma das características da Humanidade é precisamente a sua capacidade de se reinventar e adaptar ao meio ambiente; ao acelerar o processo de desenvolvimento científico abrimos também as portas para uma “nova” ficção científica.

Os semideuses gregos lutaram pela imortalidade dos Homens garantindo assim o seu lugar na História; as mil e uma noites foram passadas a recontar histórias recheadas de avanços tecnológicos, civilizações desaparecidas e catástrofes de proporções cósmicas; os marinheiros de inúmeras civilizações procuraram sempre evitar as criaturas que vagueavam nas profundezas do mar, incluindo o monstrengo que ficou famoso por perguntar: “Quem é que ousou entrar / Nas minhas cavernas que não desvendo, / Meus tetos negros do fim do mundo?”; e a ténue fronteira entre a vida e a morte ocupou o imaginário de muitos autores, eternizando, por exemplo, Mary Shelley e Bram Stoker. Todo este imaginário foi sempre construído sobre um caminho traçado tanto pelos avanços da ciência como pelas preocupações características de cada época.

Tal como tem sido desde a génese da Humanidade, o elemento crítico tanto para a ciência como para a ficção continua a ser a imaginação e o talento. A imaginação para conseguir ver o que há-de ser e o talento para o fazer acontecer. No entanto, é também importante salientar que apesar desta continuidade histórica, as coisas não permanecem iguais. Por exemplo, cada vez mais o desenvolvimento de talento está alavancado no trabalho em equipa e na pertença a comunidades e redes que estimulam a criatividade e o cumprimento do potencial individual.

Imagino, por isso, um futuro em que o diálogo entre a ficção e a ciência nunca se esgota e onde não falta imaginação e talento. Isto pelo menos até termos uma resposta à questão quintessencial: “Do androids dream of electric sheep?”.

Por: Pedro Neves, professor associado na Nova School of Business and Economics

Artigos Relacionados: