Na era da inteligência artificial, somos convidados a repensar a criatividade e a arte, refletindo sobre como integrar máquinas que podem ser diferentes de nós num mundo plural. A singularidade humana não se dissolve perante outras formas de agência estética; pelo contrário, pode coexistir com elas, enriquecendo a nossa compreensão do que significa criar. É neste território de interseção entre tecnologia, ética e identidade que se desenrolou o debate conduzido pelo filósofo Dominic McIver Lopes.
A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra acolheu uma sessão dedicada ao tema ‘Arte e Artistas na Era da Inteligência Artificial’, no âmbito da Gulbenkian Lecture in the Humanities, organizada pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. O evento reuniu docentes, investigadores e estudantes para refletir sobre um dos assuntos mais prementes do debate estético contemporâneo.
O orador convidado, o filósofo Dominic McIver Lopes, professor na University of British Columbia e membro da Royal Society of Canada, abriu a conferência com duas ideias que marcaram o tom do debate: «Se os sistemas de inteligência artificial forem diferentes de nós, cabe-nos decidir como integrá-los num mundo plural» e «a singularidade humana pode coexistir com outras formas de agência estética — sem que isso diminua aquilo que somos». Estas afirmações serviram de fio condutor para uma reflexão sobre criatividade, ética e identidade na era digital.
A iniciativa contou ainda com representantes institucionais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e do CECH, consolidando a ponte entre investigação internacional e debate académico local.
Um tema que já marca a produção artística
Na abertura da sessão, recordou-se a realização de um encontro internacional de literatura eletrónica, em julho de 2023, que evidenciou a crescente presença da inteligência artificial na criação artística. Cerca de 20% das obras apresentadas recorreram a ferramentas de geração automática de texto, imagem e filme, sinal claro de que a tecnologia deixou de ser promessa para se tornar prática efetiva no campo das artes.
A expectativa em torno da conferência era, portanto, elevada, refletindo o interesse crescente por questões que cruzam criatividade, tecnologia e ética.
Percurso académico e investigação em estética
Dominic McIver Lopes tem uma carreira dedicada à investigação estética, abordando temas como representação pictórica, valor estético, teoria da arte, ontologia e novas formas artísticas. Entre os seus trabalhos recentes destaca-se Aesthetic Injustice (Oxford University Press), que explora dimensões políticas e éticas do valor estético, e projetos sobre pluralismo estético e arte gerada por inteligência artificial.
Durante a sua estadia, Lopes orientou seminários, workshops e grupos de leitura, apresentou manuscritos em preparação e participou num simpósio envolvendo investigadores de várias universidades portuguesas, consolidando a ligação entre investigação internacional e o programa da Faculdade de Letras.
Entre o passado, o presente e o futuro da estética
Na sua intervenção, Lopes percorreu simbolicamente o passado, o presente e o futuro da estética. O passado através da história alternativa da disciplina, o presente ao abordar pluralismo estético e valor artístico, e o futuro ao enfrentar os desafios colocados pela inteligência artificial.
O filósofo defendeu que, embora a IA represente um desafio significativo, não há razão para «ansiedade existencial». Em vez de dramatizar os riscos tecnológicos, Lopes propõe um olhar conceptual mais amplo sobre o que a inteligência artificial significa para a compreensão humana da criatividade e da arte.
Criatividade, intenção e a hipótese da simulação
Lopes questionou se os sistemas de inteligência artificial podem ser considerados criativos e, nesse caso, o que nos distingue deles. Recorrendo a exemplos humorísticos, como imagens de Immanuel Kant a comer um cachorro-quente geradas por DALL·E, argumentou que a IA pode produzir obras novas, imprevisíveis e combinatórias — mas sem intenção própria.
A criatividade humana, sublinhou, envolve intencionalidade, competência, curiosidade e integração em contextos históricos e sociais — dimensões que os sistemas atuais não possuem. Mesmo sistemas avançados não estabelecem metas próprias nem exploram possibilidades de forma autónoma.
Para além do presente, Lopes abordou o futuro com dois cenários: IA será «como nós» ou radicalmente diferente. Em ambos os casos, concluiu, não há motivo para pânico existencial.
A chamada hipótese da simulação, de David Chalmers, serviu para ilustrar esta perspetiva: mesmo se fôssemos entidades digitais, a realidade e a criatividade não deixariam de ser reais, desde que participassem em relações causais e fossem interpretáveis cultural e esteticamente.
Diferença, diversidade e o princípio do alinhamento estético
Lopes focou-se na diversidade estética. Referindo-se à filósofa Alice Helliwell, defendeu o alinhamento estético: sistemas de IA devem beneficiar os interesses estéticos humanos, incluindo preferências atuais e futuras.
Lopes propôs ir mais longe: devemos conceber sistemas capazes de desenvolver modos de vida estéticos próprios, distintos dos nossos, mas ainda assim criativos, competentes e interpretáveis. A pluralidade é essencial: existem formas de arte que muitos não compreenderão plenamente: danças indígenas, formas clássicas do sul da Índia, danças em cadeira de rodas, mas que acabam por enriquecer o mundo artístico.
Como exemplo, apresentou Ai-Da, robô artista inspirada em Ada Lovelace. Com câmaras para visão e braços robóticos para desenhar e pintar, Ai-Da produz obras interpretáveis, incluindo retratos expostos na National Portrait Gallery de Londres, mostrando que a IA pode integrar-se em cadeias culturais sem perder a diferença e diversidade.
Inteligência artificial e identidade humana
Ao longo da conferência, Lopes sustentou uma posição anti-apocalíptica: as preocupações práticas com a IA são legítimas, mas a ansiedade existencial não. Sistemas atuais não nos ameaçam; se forem semelhantes a nós, não há motivo para alarme; se forem diferentes, cabe-nos decidir como integrá-los num mundo plural.
A IA desafia-nos sobretudo a repensar o que valorizamos na arte: criatividade, competência, curiosidade, interpretabilidade e diversidade. O maior desafio, concluiu Lopes, não é tecnológico, mas conceptual: compreender que a singularidade humana pode coexistir com outras formas de agência estéticam sem que isso diminua aquilo que somos.
Pode assistir à sessão completa aqui.



