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Home Notícias Tecnologia Não são os empregos manuais: a inteligência artificial começa a atingir os trabalhos mais qualificados

Tecnologia

Não são os empregos manuais: a inteligência artificial começa a atingir os trabalhos mais qualificados

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10 Abril, 2026 | 5 minutos de leitura

A expansão da inteligência artificial (IA) começa a alterar a estrutura do mercado de trabalho global. Um novo estudo da Coface, desenvolvido em parceria com o Observatório das Profissões Ameaçadas e Emergentes, conclui que uma em cada oito profissões já ultrapassa o limiar crítico de automação, o que poderá levar a uma transformação significativa das funções profissionais.

Mais de três anos após o lançamento do ChatGPT, o impacto da IA ainda é pouco visível nas estatísticas globais de emprego. No entanto, começa a surgir em alguns segmentos do mercado de trabalho, sobretudo em funções administrativas, tarefas cognitivas e profissões intensivas em informação.

O estudo mostra que a atual vaga tecnológica representa uma mudança estrutural: ao contrário das anteriores fases de automação associadas à robótica ou ao software, a inteligência artificial está a atingir tarefas complexas, analíticas e qualificadas, tradicionalmente consideradas menos vulneráveis à substituição tecnológica.

Uma em cada oito profissões já ultrapassa limiar crítico de automação

De acordo com a análise, cerca de 12,5% das profissões analisadas ultrapassam o limiar de 30% de tarefas automatizáveis, considerado pelos investigadores como um ponto a partir do qual uma profissão pode sofrer uma transformação profunda.

As áreas mais expostas à inteligência artificial incluem: engenharia; tecnologias de informação; funções administrativas; finanças; direito; algumas profissões criativas e analíticas.

Por outro lado, profissões com forte componente manual ou relacional continuam menos vulneráveis. É o caso de atividades ligadas à construção, manutenção, transportes, restauração, limpeza ou cuidados pessoais, onde a dimensão física ou humana continua a ser difícil de automatizar.

Serviços como educação, vendas ou apoio social ocupam uma posição intermédia: algumas tarefas podem ser automatizadas, mas a interação humana continua a desempenhar um papel essencial.

Novo método analisa 923 profissões e milhares de tarefas

Para medir o impacto potencial da inteligência artificial no trabalho, os investigadores analisaram 923 profissões, decompondo cada uma em tarefas e ações elementares.

Cada ação foi avaliada segundo três critérios — verbo, objeto e contexto — permitindo determinar com maior precisão o grau de exposição de cada tarefa à automação.

Esta metodologia procura superar limitações frequentes em estudos anteriores, oferecendo uma análise mais granular, reproduzível e orientada para cenários futuros de desenvolvimento da IA.

Os autores sublinham que o estudo mede sobretudo a exposição técnica das tarefas à automação, não prevendo diretamente quantos empregos poderão desaparecer. A implementação efetiva da inteligência artificial dependerá de fatores como procura, regulação, adaptação das empresas ou criação de novas tarefas.

Diferenças entre países: economias digitais mais expostas à Inteligência artificial

O impacto potencial da inteligência artificial varia significativamente entre países. Segundo o estudo, o conteúdo de trabalho potencialmente automatizável vai de cerca de 12% na Turquia até perto de 20% no Reino Unido.

As economias mais desenvolvidas e orientadas para serviços intensivos em conhecimento — como o Reino Unido, os Países Baixos ou a Irlanda — apresentam níveis de exposição mais elevados.

Isto deve-se à maior concentração de profissões ligadas a gestão, finanças, tecnologia e serviços empresariais, áreas onde a inteligência artificial pode automatizar uma parte significativa das tarefas.

Portugal apresenta risco abaixo da média europeia

No caso de Portugal, o estudo conclui que o nível de exposição à automação por inteligência artificial está ligeiramente abaixo da média europeia, em linha com outros países do sul da Europa.

A explicação está na estrutura económica do país. O mercado de trabalho português continua fortemente ancorado em setores como: comércio a retalho; alojamento e restauração; transportes; construção; imobiliário.

Estes setores apresentam, em média, menor exposição à automação do que atividades intensivas em conhecimento.

Mesmo assim, algumas funções poderão sentir impactos mais diretos da inteligência artificial, nomeadamente assistentes administrativos, funções empresariais, vendas e atendimento ao cliente, bem como algumas profissões técnicas e de engenharia.

Inteligência artificial poderá alterar distribuição de valor e emprego

Os investigadores alertam que os efeitos da inteligência artificial poderão ir além da transformação das profissões.

Ao automatizar tarefas desempenhadas por trabalhadores qualificados, a IA pode alterar a distribuição de valor entre trabalho e capital, com possíveis implicações fiscais e sociais.

Esta mudança poderá afetar particularmente países cujo sistema de receitas públicas depende fortemente da tributação do trabalho.

Além disso, o estudo sugere que o avanço da inteligência artificial pode levar as empresas a valorizar competências complementares à tecnologia, como capacidade de julgamento, supervisão, criatividade e adaptabilidade.

Uma transformação que pode redefinir o futuro do trabalho

Apesar da incerteza sobre o ritmo destas mudanças, os autores afiançam que a inteligência artificial já não está a ser aplicada apenas em tarefas periféricas.

Pelo contrário, começa a penetrar no núcleo das funções cognitivas e qualificadas, tradicionalmente consideradas as mais seguras face à automação.

Dado que estas profissões estão no centro da geração de valor económico e rendimento, a expansão da IA poderá redefinir profundamente a natureza do trabalho nas próximas décadas.

Redação,
Equipa editorial Líder

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