«Não seremos os mesmos depois da pandemia», diz o filósofo brasileiro Mario Cortella

Dentro das empresas, gestores e colaboradores querem muito não “desapontar” os outros. Dito em português de Portugal, procuram responder ao que acham que é esperado do seu desempenho. Qual a diferença entre desapontamento e deceção, pergunta Edson Athayde, CEO da agência de publicidade FCB Lisbon, ao filósofo Mario Sergio Cortella.


“O desapontamento é uma chateação momentânea, para usar uma expressão do português-brasileiro. Já a deceção é algo mais sério. Entre os vários sentimentos humanos, o desapontamento é mais passageiro e não tem um impacto tão grande como a deceção.”

Quando Júlio César, o político e militar romano identificou o seu filho adotivo entre os assassinos, ele preferia morrer, tal foi a sua deceção, contou Mario Cortella a Athayde, numa conversa com o criativo brasileiro a trabalhar em Portugal durante a Leadership Summit Portugal.

Desde 1985 que Edson Athayde trabalha em agências de Publicidade no Brasil, Espanha e em Portugal. Recebeu mais de 900 prémios de reconhecimento em festivais, como o Clio, Festival de Nova Iorque, Epica, Eurobest, e One Show- além de 8 Leões em Cannes.

Mas nada está perdido, no caso de alguém não conseguir responder às expetativas que acha que os outros têm de si. E também nada está perdido se alguém se desapontar com outra pessoa. Isto porque, usando uma expressão que retrata esta situação, “o teu erro não te define”, ou seja, “o fato de alguém ter errado num momento não significa que seja sempre desse modo.” Há sempre a possibilidade de fazer de outro modo desde que a pessoa se disponha a isso. É preferível “desapontar” do que “dececionar”, diz Cortella.

Com o confinamento nesta pandemia tivemos algumas deceções. Estávamos habituados a ter soluções muito rápidas e imediatas para os nossos problemas dadas pela tecnologia. Mas, de repente, o vírus mostrou que não somos assim tão poderosos e que a Ciência afinal não oferece soluções diretas – esta foi a primeira deceção a partir do momento que começamos a considerar que a vacina estava a demorar demasiado tempo a surgir.

“Não seremos os mesmos depois da pandemia”, diz, para concluir o filósofo brasileiro, que vê com bons olhos o facto de hoje a Filosofia já chegar às pessoas fora da academia e dos círculos intelectuais. “A Filosofia teve uma ressurreição. Hoje temos grandes comunicadores na Filosofia que são chamados para debater e partilhar conhecimento.”

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