Narcisistas são melhores ou piores líderes?

O narcisismo dos líderes é um pau de vários bicos. É por essa razão que o debate e a investigação sobre a matéria são inconclusivos. Não é possível responder de modo perentório à questão de saber se os líderes narcisistas são, ou não, melhores líderes – e se devem, ou não, ser selecionados ou promovidos. Porque várias pessoas me têm perguntado como devem lidar com líderes narcisistas, aqui partilho cinco reflexões.

#1. O líder narcisista é alguém que se tem em grande conta, se admira a si próprio e procura constantemente a admiração dos outros. Ter amor próprio é saudável e ajuda a prosperar na vida. Mas, quando exagerado, o narcisismo é tóxico para o próprio líder e os liderados. Transforma-se numa desordem da personalidade caraterizada por obsessão com a autoimagem, desejo permanente de atenção e adulação, pensamento fantasioso, e ausência de empatia pelos outros. O narcisista retalia contra quem não lhe devolve os encómios que ele julga merecer.

#2. Há, pelo menos, dois tipos de narcisismo (embora haja quem combine ambos): o vulnerável e o grandioso. O narcisista vulnerável é um “vidrinho de cheiro” desconfiado e agressivo perante quem não valida a sua autoimagem favorável. Portanto, a grande autoconfiança que este líder expressa pode esconder baixa autoestima e grande vulnerabilidade. É por isso que o líder narcisista detesta ser criticado e retalia. A consequência é que se rodeia de quem o bajula e lhe comunica o que ele quer ouvir. O narcisista grandioso é diferente. Dotado de maior autoestima, procura ser o centro das atenções, é arrogante e dominador, e pretende ser tratado como “especial”.

#3. No mundo empresarial, o narcisista grandioso pode ser bem-sucedido. Mostrando autoconfiança e enveredando por projetos ambiciosos que fazem jus à sua autoimagem insuflada, é mais persuasivo – o que lhe permite ascender na carreira e envolver outras pessoas nos seus projetos. Esta ambição capacita-o para alcançar o que outros líderes não conseguem. Quando os arrojados projetos singram, o sucesso tende a ser enorme. Mas há um reverso da medalha: o narcisista grandioso subestima riscos, pelo que os seus projetos ambiciosos podem, também, ser irrealistas e fracassar. Após o falhanço, o líder narcisista pode mesmo resistir a abandonar o projeto, de modo a preservar a sua autoimagem. Consequentemente, em termos globais, os líderes narcisistas não obtêm melhores resultados do que os líderes não narcisistas. Mas geram resultados mais extremados – ora fantásticos, ora desastrosos.

#4. Trabalhar para um líder narcisista “sabe-tudo” pode ser um desafio de grande monta. Um artigo recente sugere que o sucesso do narcisista Steve Jobs se explica pelo seu génio, mas também pelo das pessoas que souberam influenciá-lo. Eis algumas estratégias que podem auxiliar um liderado a influenciar o líder narcisista. Evite tudo o que possa levar o narcisista a sentir que está a ser alvo de ataque pessoal. Em vez de lhe dizer que ele está errado, conceda-lhe margem para se expressar e, durante a conversa, talvez ele próprio compreenda que precisa de ajuda. Em vez de lhe dar lições, coloque-lhe questões que o levem a sentir que tem controlo sobre a situação e que a escolha resultante da discussão é da sua (dele) autoria. Antes de discordar dele ou contrariá-lo num dado assunto, elogie-lhe o mérito e o brilhantismo. Faça sugestões que o levem a sentir que, se mudar o comportamento, será (ainda mais) bem-sucedido.

#5. Um estudo envolvendo crianças com idades entre os 7 e os 14 anos sugere que as mais narcisistas tendem a ser escolhidas para papeis de liderança e sentem-se, elas próprias, melhores líderes. No entanto, a sua real eficácia como líderes de equipa não é maior do que a eficácia de crianças menos narcisistas. Esta evidência está alinhada com estudos sobre liderança nos meios empresarial e político. A ilação é clara, sobretudo para processos de seleção e promoção de líderes: não devemos confundir autoconfiança e autopromoção com real desempenho. Devemos ser cautelosos com pessoas que se insinuam tendo em vista alcançar lugares de poder, fama e sucesso pessoal.

Concluo: um nível saudável de narcisismo é importante, desde que combinado com humildade – reconhecendo forças e fraquezas próprias, respeitando as forças dos outros, e estando disponível para aprender. Quando não tem os pés na terra, o narcisista pode transformar-se num ativo tóxico. Em tempos de crise, como o que temos vivido, este tipo de líder pode sentir-se excecionalmente preparado, desenvolver pensamento fantasioso, ignorar conselhos, subestimar a natureza dos perigos e, desse modo, acrescentar crise à já existente. Trump e Bolsonaro – eis dois atores principais de uma tal tragédia.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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