Nascer não é fácil, imaginem renascer

O nascimento não é tão simples como parece, ele tem constrangimentos vários e aquelas horas de aperto têm tanto de certeza como de incerteza. Tudo pode acontecer. O risco está calculado, mas há surpresas. Nasce-se cada vez mais em segurança, pelo menos no mundo civilizado, onde os cuidados de saúde o permitem. Mas como dizia, há sempre uma réstia de medo, insegurança, aquela dúvida existencial que se nos coloca mesmo antes de existirmos: Será que vou nascer bem?

Enfim, a vida é isto, uma lotaria desde o primeiro momento. Aprender depressa a vivê-la assim, ajuda a saber renascer quando somos acometidos por embates parecidos com os que estamos a viver que até parece que nos matam. Na verdade, não nos matam, atrapalham só a continuidade dos nossos dias e obrigam-nos a fazer um esforço de reeducação, como se precisássemos de voltar a aprender
alguma coisa, outra linguagem para a vida.

Neste processo de aprendizagem onde nos encontramos, esta tal necessidade de renascer, podemos fazer aquele esforço de nos vermos num contexto histórico mais amplo e olhar para aquilo que foi o movimento histórico e predominantemente cultural do Renascimento que situamos entre os séculos XIV e XVII.

Viviam-se naquela época momentos onde a ideia de Deus já não explicava tudo, o Teocentrismo dava, por isso, lugar a um mundo onde o Homem tinha um papel determinante a desempenhar, seria também dono do seu destino e isso determinou que a racionalidade, a dignidade do ser humano, o rigor científico, a reutilização das artes clássicas greco-romanas surgissem e alimentassem o ideal humanista que começava a despontar com todo o seu vigor.

Passou-se da Idade Média para a Modernidade, terminou o Feudalismo e começou o Capitalismo. Os movimentos humanistas surgem para dar ao Homem um papel central, valorizando-se a condição humana, criando no homem um conjunto de possibilidades de realização em vários domínios: artístico, científico, entre outros.

Esta pandemia vai passar e não vai demorar tantos séculos quantos demorou o Feudalismo ou o Teocentrismo a deixarem de ter protagonismo nas sociedades daqueles tempos, vai demorar talvez meses, uns quantos meses.

Talvez daqui a uns anos, muito poucos, já ninguém fale do coronocentrismo. Tudo passou e, nessa altura, avaliaremos o impacto que teve a centralização do pensamento, da economia, das vidas das pessoas em torno do Coronavírus.

Mas podemos humildemente pensar que as grandes características do Renascimento podem ajudar-nos a renascer, podem permitir-nos perceber que a razão, acima da intuição ou da mera reação emocional, deve ser usada pelos nossos líderes quando têm de tomar decisões no meio de uma crise como esta, evitando assim que se repitam discursos inflamados pela ausência de racionalidade que tendem a ignorar a ciência e a pôr em causa a dignidade do ser humano. Impõe-se que o rigor científico seja respeitado para que evitemos o caos e mantenhamos o caminho mais ou menos iluminado.

Mas no final desta história, que saíamos todos mais conscientes do papel que nos cabe desempenhar no
respeito pela dignidade do ser humano, pela ciência e pela técnica, pelo ambiente e pelos restantes seres vivos.

Se isso implicar voltar a aprender com o Renascimento, então que se renasça de vez. Nascer é difícil, já o disse, renascer talvez não seja assim tanto, afinal temos a História que nos ensina.

Por Catarina G. Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

 

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