“Nasci a ver o mundo todo ao contrário – a ver os bastidores das coisas”, Hugo van der Ding, líder na arte de dizer e escrever aquilo que quer

A criatividade como o motor de mudança e a necessidade de um tipo de liderança disruptiva que agite as organizações foi o ponto de partida para uma conversa com o inigualável autor e apresentador de rádio, Hugo van der Ding, durante o encontro promovido pela Líder, do grupo Leading Brands, parte do projeto Leadership Summit Portugal.

A convite da Agência White (WYgroup), o grupo reuniu-se na passada sexta-feira, no seu espaço na “Casa de Praia”, e partindo da pergunta “o que é a criatividade?”, Hugo van der Ding, o autor da “Criada mal criada”, responde que “ é uma coisa que toda gente tem, é inata. É a maneira de cada um interpretar e interagir com o mundo”. E distingue dois tipos, uma mais “adaptativa de estar e ver o mundo, e outra forma mais artística, de interpretação refletiva”, e ambas com diferentes obstáculos. E é no lado artístico onde se põem mais barreiras, algo que Hugo diz com orgulho ter ultrapassado: “Eu gosto de dizer que ganho a vida a fazer tudo aquilo que os adultos me diziam para não fazer ou dizer quando eu era criança”.

Por outro lado, a criatividade é algo “inexplicável”, não existe uma lógica para a forma como nascem todas as ideias que vai tendo e com as quais já ganhou um posicionamento junto de milhares de seguidores nas suas redes sociais. “É uma pulsão de ver o mundo de uma maneira diferente das outras pessoas. A criatividade é talvez aquilo que nos torna únicos. Ela é diferente em cada pessoa. É a nossa maneira única de ver o mundo”, afirma. A sua maneira de interpretar a realidade é aquilo que Hugo chama de “uma inversão, voltar ao início”. Já quando se torna uma profissão, uma atividade, o caminho da criatividade deve ser sinónimo de “tentarmo-nos livrar dos constrangimentos”.

O seu sarcasmo e sentido de humor podem parecer uma loucura, contudo Hugo van der Ding simplifica dizendo que “nasci a ver o mundo todo ao contrário – a ver os bastidores das coisas”, ao mesmo tempo que afirma que esse entendimento, a clareza de ver as coisas, era algo partilhado enquanto criança, com as outras crianças. No entanto, mais tarde, quando um adulto olha para outro adulto criativo e o considera estranho é porque qualquer coisa aconteceu nesse processo para terem chegado àquele ponto e não verem o mundo da mesma maneira.

Criatividade é lucidez, num sentido de liberdade, mas é também um processo normativo, com regras, e formas de expressão que estão designadas e segmentadas, mas também nisso é possível haver uma mudança de paradigma na maneira como é “contabilizada”.

Para que exista uma abertura a uma forma de expressão artística e criativa, é preciso “começarmos a normalizar ‘ser uma besta’!”, afirma. Isto não é mais do que perceber “a quantidade de coisas que são precisas para resultar num produto final que tenha a ver com criatividade”. Ou seja, num processo criativo normativo, com a entrega de um trabalho, e estabelecimento de prazos, há a tendência de contabilizar o trabalho criativo pela execução, o que não faz sentido para alguém que demora pouco mais do que dois minutos a fazer um desenho. Há toda uma vida interior, um tédio necessário para que surja uma ideia, e tal não é considerado.

Desde 2019 que Hugo van der Ding faz parte da equipa do programa de rádio “Manhãs da 3”, onde tem a rubrica “Vamos todos morrer”, cujas curtas biografias de figuras históricas foram compiladas num livro lançado este verão. Neste caso, e dada a flexibilidade de um canal público, a criatividade permite “fazer rir e entreter sem ser estupidificante ou um aborrecimento”, quando conta o inusitado que é às 8h30 da manhã estar a falar sobre mortos na rádio.

Acerca do também número invulgar de “haters” nas suas redes sociais, poucos, ou quase nenhuns, o autor de um universo brilhante e fértil de cartoons e personagens, refere que não usa esses canais (instagram e facebook) para expressar opiniões. E conta ainda, que a única vez que teve uma situação de ter comentários negativos foi quando se referiu aos funcionários públicos. Hoje, como diz, “faço as tiras por brincadeira” e já existe uma ligação emocional às personagens que vai criando, tanto sua como dos seus seguidores.

E sobre as suas ideias e reflexões que partilhou neste encontro acerca da criatividade, Hugo diz que provavelmente, no dia seguinte, elas podem ser diferentes. É a sua maneira de ver o mundo.

Por Rita Saldanha

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