É necessário um Sancho Pança para fazer um D. Quixote?

Por: João Silveira Lobo

 

Seria possível Miguel de Cervantes ter escrito El ingenioso hidalgo D. Quixote de la Mancha sem incluir a personagem Sancho Pança? Já muitas vezes me perguntei se este clássico da literatura espanhola seria o mesmo sem o Sancho Pança!

Porquê incluí-lo? E se a literatura de gestão olha para D. Quixote e dele retira lições para a liderança das organizações, então qual o papel de Sancho Pança? Algum? Nenhum?

 

O que faz um líder numa organização? A experiência que acumulei ao longo de mais de 30 anos na gestão executiva de organizações mostrou-me que uma organização sem:

 

> DIREÇÃO estabelecida através do desenvolvimento de uma intenção estratégica assente numa perspetiva de futuro;

> ALINHAMENTO dos colaboradores através de uma comunicação eficaz dessa intenção estratégica;

> MOTIVAÇÃ O E INSPIRAÇÃO que forneça energia a toda a organização.

 

Ou seja, sem pathos, não consegue o propósito de mudança necessário à criação de um espaço suficientemente robusto de diferenciação e concretização para enfrentar o mundo dos negócios que prevalecerá no futuro. Porém, sendo esta componente estritamente necessária, será ela condição suficiente para criar organizações vencedoras?

 

Recorrendo, novamente, à minha experiência… hélàs, não! As organizações necessitam, em igual medida, de um logos robusto para:

> PLANEAR E ORÇAMENTAR, detalhando os passos para atingir resultados e alocando os recursos necessários à produção desses mesmos resultados;

> ORGANIZAR E ESTRUTURAR, delegando responsabilidades e autoridade, providenciando regras;

> CONTROLAR E RESOLVER PROBLEMAS, monitorando os desvios e realinhando a organização com a intenção estratégica definida.

 

Ou seja, necessitam de construir a mudança ao mesmo tempo que promovem a segurança. É um paradoxo? Sim, é! Mas a vida na área da gestão está cheia de paradoxos! Para que o sucesso seja resiliente e sustentável, e se minimize o potencial de esquizofrenia inerente a qualquer empreendimento humano que se queira de uma sã loucura, é necessária uma superior capacidade de gestão que apenas se consegue através de grupos com características de complementaridade.

 

Sim, estou convicto de que não é possível existir D. Quixote sem Sancho Pança (nem Sancho Pança sem D. Quixote). E até vou mais longe no meu desafio… Após uma primeira fase empreendedora, o melhor papel que D. Quixote tem a desempenhar numa organização é passar a servant leader, assumindo a função de desafiador de substância do Sancho Pança executivo… Aliás, Miguel de Cervantes é de uma sageza difícil de encontrar nos gurus pós-modernos da gestão quando no próprio livro estabelece o governo da ilha de Barataria como fórmula de compensação pelo trabalho e esforço de Sancho Pança e entrega a D. Quixote o papel de Não-Executivo responsável por contextualizar a liderança de Sancho Pança enquanto Governador da ilha. As suas recomendações são de uma sabedoria inigualável:

 

“O líder deve agir segundo as seguintes virtudes: GRATIDÃO, HUMILDADE, JUSTIÇA, MISERICÓRDIA E COMPAIXÃO, PRUDÊNCIA E OBJETIVIDADE, MAGNANIMIDADE E INTEGRIDADE.” (1)

 

Na realidade, não conheço melhor forma de definir o ethos de um líder! Mas a verdade é que ethos e pathos são apenas dois vértices do triângulo que define a gestão das organizações!

O logos é o terceiro vértice. Se ética e emoção são as pedras de toque de D. Quixote sem o pragmatismo e a racionalidade que caracterizam bem Sancho Pança é muito provável que o empreendimento não se consiga levar a bom porto!

 

Quer isto dizer que não é possível encontrar “cavaleiros andantes” que sejam também “governadores” ou “governadores” que sejam ao mesmo tempo “cavaleiros andantes”? Não, porém, encontrar carácteres extraordinários é muito raro… O mais comum é encontrar “pessoas ordinárias (no sentido da sua normalidade) a quem é pedido sistematicamente que façam coisas extraordinárias”, pelo que o desafio que deixo para reflexão é o seguinte:

 

  1. a) em vez da busca do “santo graal” – o líder esclarecido – porque não apostar em equipas de gestão, complementares nas suas valências, capazes de, em conjunto, demonstrar que conseguem uma combinação “ethos-pathos-logos” superior?

 

  1. b) na emergência de um líder de entre o grupo que assim se constituiu, será que o candidato entende suficientemente bem a característica de “servant leadership” (líder ao serviço dos outros e não líder que se serve dos outros)?

 

Termino com uma frase de um poeta extraordinário que me vem acompanhando ao longo dos anos na minha atividade de gestão:

“A dream that you dream alone is only a dream

A dream that you dream together may become reality”  John Lennon.

 

Notas:

(1): Adaptado de “Leadership that gets results: Lessons from Don Quixote”, Salvatore Moccia, 2011 in Academia.edu com base nos capítulos XLII e XLIII de El ingenioso hidalgo D. Quixote de la Mancha.

 

Glossário:

Ethos, Pathos, Logos são três formas de persuasão ou argumento articulados, pela primeira vez, pelo filósofo grego Aristóteles no seu livro “A Retórica”. Ethos apela à ética, pathos ao sentimento ou emoções e logos para a lógica ou racionalidade.

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