Negócio ou sustentabilidade? Ambos, sem dúvida

Lentamente o Mundo vai acordando dos confinamentos COVID-19 e são muitos os que se questionam sobre os modelos que temos utilizado para construirmos as nossas sociedades. Vivemos um momento histórico no qual podemos escolher regressar ao velho mundo da poluição e do desperdício ou acelerarmos definitivamente a transição para um futuro onde o lucro, a receita e os resultados não sejam contra as Pessoas ou contra o Planeta. E é nestes momentos de mudança que a liderança e as suas competências colaborativas são decisivas.

Se não formos capazes de proteger o nosso capital natural – o Planeta – em breve deixará de existir valor para captar, produtos para vender ou empregos para criar.

Importa citar o que significa uma Liderança Sustentável. Ela verifica-se quando os líderes dos negócios (normalmente os CEO) gerem as suas empresas tendo em mente o ambiente, a sociedade e objetivos de sustentabilidade de longo prazo. Referidos como os PPP (People, Planet, Profit), ou a tripla “última linha”, numa alusão aos resultados líquidos das organizações, um líder orientado pelos princípios da sustentabilidade leva em consideração os interesses dos seus diferentes stakeholders (desde colaboradores, consumidores, parceiros de negócio, futuras gerações) e dos seus shareholders (investidores que financiam a organização).

Trata-se de liderar de forma a beneficiar as sociedades e o ambiente, enquanto se mantêm as performances financeiras e económicas. Uma luta (que não é nova) entre a pressão do curto prazo e os objetivos de longo prazo que necessita – nunca como hoje e urgentemente – de encontrar o equilíbrio certo.

São muitos os exemplos de líderes corajosos que nos últimos anos apostaram as suas carreiras nesta direção, com enorme sucesso e que me inspiram. Destaco o Paul Polman (ex Unilever CEO), o Claus Aagaard da Mars, o Jesper Brodin da IKEA, a Rosa Macario da Patagonia, o Tim Cook da Apple, e muitos outros.

Mas quais são as características que fazem destes líderes, o benchmark do combate à crise climática, aos desequilíbrios de oportunidades, à pobreza e ao desperdício de recursos, mantendo as suas empresas com crescimentos saudáveis e lucrativos?

Em 1.º lugar destacaria a sua capacidade para visionar um futuro mais justo e equilibrado, alinhado com uma visão de negócios sustentável. Em 2.º, uma tremenda energia para promoverem a mudança, alicerçando-se na tecnologia e na inovação, sendo simultaneamente profundamente empáticos com os diversos atores envolvidos (colaboradores, reguladores e governos, parceiros, produtores e consumidores).

Por último, aquela que considero ser indissociável do indivíduo e a mais importante: a sua dedicação pessoal à causa da sustentabilidade, o walk the talk, a sensibilidade para todos estes temas, desde a justiça social, ao ambiente. Não acredito numa liderança baseada no velho conceito “façam o que eu digo, não olhem para o que eu faço”.

Isto significa que não nos basta calçar os sapatos de líder consciente dos desafios da sustentabilidade e depois descalçá-los nas suas dimensões de cidadão, consumidor, educador, vizinho ou amigo. Quem rege o seu dia-a-dia por estes princípios, possui capacidade para identificar oportunidades de melhoria em cada canto da sua empresa, em cada linha de produção, na alteração de legislação, nos processos de fabrico ou de extração de matéria-prima, na inovação e na tecnologia. Sem estas duas dimensões do ser humano profundamente ligadas, estaremos apenas a lutar por títulos ou reconhecimentos mediáticos. O lucro e a sustentabilidade futura estarão nas mãos daqueles que souberem inovar, orientados pela cultura das suas organizações, movidos por princípios morais e orientados para a mudança.

E isto é válido para todos nós, nos pequenos gestos de cada dia, nas nossas escolhas e através das nossas ações. Não precisamos de ser Líderes para nos juntarmos à causa.


Por Rui Guedes de Quinhones, Managing Partner da EMA Partners

A crónica foi publicado na edição de primavera da revista Líder.

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