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Home Internacional Notícias No Líbano, os funerais substituíram o calendário político

Internacional

No Líbano, os funerais substituíram o calendário político

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6 Maio, 2026 | 7 minutos de leitura

As eleições no Líbano voltaram a ser empurradas para fora do calendário político. É o adiamento, por dois anos, da democracia num país onde o tempo há muito deixou de andar ao ritmo normal, agora travado por uma guerra com Israel que se instalou no sul sem fim à vista.

O Ministério da Saúde libanês tem a reportar milhares de vítimas mortais e feridos desde o início da escalada, centenas de milhares de pessoas poderão acabar deslocadas, com estimativas que em certos momentos apontam para perto de um milhão. Ao mesmo tempo, ataques aéreos atingiram zonas densamente povoadas no sul e também áreas da periferia de Beirute, num conflito em que Israel justifica a sua ofensiva como resposta militar ao Hezbollah, mas onde a linha entre alvos militares e impacto civil se dissolve repetidamente no terreno, deixando o país preso entre a urgência de uma eleição que deveria acontecer e a realidade de uma guerra que simplesmente não permite que ela aconteça.

Como funciona o Governo do Líbano?

A democracia no Líbano tem cerca de oitenta anos se contarmos desde a independência em 1943, mas dizer isto assim, limpo, quase redondo, é esquecer tudo o que aconteceu pelo meio. Uma guerra civil que durou quinze anos, ocupações, interferências externas, crises atrás de crises, e um sistema político desenhado para equilibrar religiões que acabou muitas vezes por bloquear o próprio país, como se a sobrevivência tivesse sido sempre mais importante do que governar bem. Há eleições, há parlamento, e os cargos são distribuídos com precisão quase cirúrgica entre comunidades, mas isso não impediu o desgaste profundo da confiança pública, nem a sensação persistente de que o poder circula sempre pelos mesmos círculos.

E isso vê-se nos números: o Líbano é classificado como ‘regime híbrido’ pelo índice da Economist Intelligence Unit, com uma pontuação a rondar os 4,5 em 10, um lugar incerto entre democracia e disfunção. Já  a participação eleitoral nas legislativas de 2022 ficou perto dos 41%, baixa para um país onde o equilíbrio político depende tanto do voto.  Ainda assim, existe uma sociedade civil inquieta, capaz de encher ruas como em 2019, de atravessar linhas religiosas e gritar contra o sistema inteiro, o que cria um contraste estranho e quase doloroso: pouca gente acredita nas urnas, mas grande parte da população ainda deposita esperança que o país pode ser outra coisa.

Um sistema feito para evitar guerra, mas incapaz de a travar

O sistema político libanês é um equilíbrio delicado, quase barroco, onde o poder é dividido mais por religião do que por ideologia, numa tentativa histórica de impedir que o país volte a mergulhar numa guerra civil como a que o devastou no século XX. Por essa razão, o Presidente é sempre cristão maronita, o primeiro-ministro sunita, o presidente do Parlamento xiita, e os 128 lugares parlamentares são distribuídos milimetricamente entre comunidades. Uma arquitetura política que, como explica este guia da BBC, de alguma forma, é ao mesmo tempo engenhosa e paralisante, porque ao tentar representar todos, muitas vezes impede qualquer decisão estrutural de avançar.

No Líbano, há ainda um interveniente que mede forças com o mundo e também com o próprio povo. O Hezbollah é ao mesmo tempo partido político, força armada e ator social, e isso faz com que a perceção sobre ele dependa fortemente de região, comunidade religiosa e contexto político imediato. Em termos gerais, dentro da comunidade xiita — especialmente no sul do país e nos subúrbios de Beirute — o Hezbollah mantém um apoio significativo, visto por muitos como força de resistência contra Israel e como rede de proteção social num Estado frequentemente ausente. Já entre muitos cristãos, sunitas e setores urbanos mais laicos, cresce a sensação de que o grupo se tornou um Estado paralelo armado, com poder de veto sobre decisões nacionais e capacidade de arrastar o país para conflitos que a maioria não escolhe.

Além disso, é nesse espaço de bloqueio que o Hezbollah cresce, arma-se, transforma-se em ator político com base social real, ganha presença institucional e capacidade de influenciar — ou travar — qualquer tentativa de mudança. Uma encruzilhada de um grupo que há muito deixou de ser apenas visto como revolucionário, porque para uma parte do país ele continua a ser proteção e identidade, enquanto para outra já é limitação e risco permanente, e é precisamente nessa fratura que o Líbano vive politicamente desequilibrado, sem consenso interno suficiente para o integrar plenamente no Estado nem força suficiente para o eliminar do jogo político.

Israel afirma que está a agir em legítima defesa, respondendo aos ataques do Hezbollah ao longo da fronteira, uma narrativa consistente com a sua doutrina de segurança e amplamente repetida nos fóruns internacionais, mas quando se desce do nível estratégico para o chão concreto das cidades libanesas, o que se encontra são destroços e muitas dúvidas.

Um país que insiste em não caber na tragédia

O conflito não existe num vazio moral ou jurídico, e tem sido acompanhado por acusações graves em várias frentes, incluindo denúncias de ataques em áreas civis e uso desproporcionado da força, debatidas em instâncias internacionais e acompanhadas por organizações de direitos humanos, enquanto o próprio contexto regional é inseparável da guerra na Faixa de Gaza e das acusações de crimes de guerra associadas a esse conflito.

Neste cenário, o nome de Benjamin Netanyahu surge frequentemente no debate internacional sobre responsabilização em instâncias como o Tribunal Penal Internacional, ainda que esses processos sejam complexos, contestados e longe de consenso global. Os processos seguem lentos, disputados, muitas vezes inconclusivos, e as consequências no terreno continuam imediatas.

Todavía, há algo no Líbano que resiste à simplificação. Beirute continua a ser uma cidade onde a noite acontece, com uma riqueza gastronómica profunda com alguns dos pratos mais celebrados do Médio Oriente, como o mezze que faz parte da vida quotidiana. No fundo, no Líbano há uma convivência cultural que desafia os estereótipos mais preguiçosos sobre o mundo árabe.

As mulheres circulam com uma liberdade que contrasta com outros contextos regionais, a influência ocidental não é importada, está integrada, e há uma vida cultural que sobrevive, quase teimosamente, à sucessão de crises.

Talvez seja isso que torna tudo mais difícil de aceitar: o Líbano é vibrante, não está à margem, e continua a ser colocado, repetidamente, no centro de conflitos que não controla. Quando as eleições finalmente acontecerem (e neste momento isso é mais uma hipótese do que uma certeza) serão mais um teste à própria ideia de Estado libanês.

Será possível reduzir o peso armado do Hezbollah através da via política? Conseguirá o Estado recuperar soberania real sobre o seu território?
Ou continuará o país a existir num equilíbrio instável entre instituições formais e poderes paralelos? E a relação com Israel, que para todos os efeitos não deixa de ser vizinho?

Tudo é uma incógnita e, por agora, ficam os números que nunca contam tudo, proliferam as análises que raramente chegam às pessoas certas, e resistem os libaneses que continuam a dançar, com ameaças de bombas a cair, a mostrarem ao mundo o ato mais político de todos: continuar vivos.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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