Nobel da paz ou Nobel da guerra?

Os prémios Nobel da paz são um importante instrumento simbólico de promoção da concórdia. Ou deviam ser. Na verdade, recentemente tem havido uma sequência de problemas com os Nobel da Paz. Esses galardões dizem muito sobre líderes e liderança.

Eis alguns casos recentes: Barack Obama recebeu o prémio em 2009, nove meses após a eleição. Foi um presidente importante por muitas razões e, tudo leva a crer, um homem decente. Não é fácil descortinar, todavia, as razões justificativas de uma tal honraria. O seu Nobel tem tanto sentido como teria atribuir o prémio a Trump e Kim Jong-un. Talvez o prémio tenha resultado daquilo que disse que ia fazer (por exemplo acabar com Guantánamo) e não do que fez realmente. Aung San Suu Kyi recebeu o seu Nobel em 1991. É uma mulher corajosa com uma notável história de vida. A sua atuação recente, todavia, faz dela uma “nacionalista de aço”, como lhe chamou David Pilling no Financial Times. Não parece mostrar grande vontade de parar a perseguição aos Rohingya. Abiy Ahmed, primeiro ministro da Etiópia recebeu o Nobel em 2019. Brilhou inicialmente por fazer a paz com a Eritreia, libertar presos políticos e abrir os media. Foi sol de pouca dura, agora que o exército foi mandado para acabar com a revolta de Tigré, com acusações de massacres.

Estes prémios mostram que as primeiras impressões podem ser muito enganadoras. Por isso antes de celebrarmos os líderes messiânicos que vêm salvar países, olhemos para a forma como preparam as instituições para a paz e não para aquilo que dizem sobre a paz. E não tenhamos demasiadas ilusões: a política faz-se com soft power mas também com coerção. O que nos resta? Por exemplo, a aproveitar as lições da pandemia para aumentar a cooperação internacional e não o nacionalismo.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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