Nuno Markl, o Divulgador, protagonizou a mais bonita história de influência digital

Nuno Markl da reputação de influenciador já não se livra, embora prefira que lhe chamem divulgador e esse seja o seu grande prazer, a realidade é que onde ele toca, multiplica. Se isso não é influenciar não sabemos o que seja. Depois de uma surpreendente e bonita história de influência, não resistimos e fomos entrevistá-lo (por e-mail, entenda-se).

Desde o início desta quarentena, Bruno Nogueira começou a fazer diretos a partir da sua conta de Instagram, diretos que já são um programa com nome, música de abertura e grafismo: “Como é que o Bicho Mexe?” faz furor naquela rede social. É lá que Bruno conversa com várias pessoas, e entre elas está o Nuno Markl. Atingem audiências enormes, quase 80 mil pessoas já estiveram a ouvi-los, mais do que alguns canais de televisão por cabo. Um feito!

Somos uma publicação de liderança é certo, mas liderar é um verbo de uma vasta abrangência. Ficarmo-nos pela sua dimensão mais económica ou financeira, ou mesmo de gestão de uma equipa de pessoas, pode ser apoucar o dito verbo. Liderar é uma proeza que se faz a vários níveis, a começar pela nossa vida. Será que todos sabemos dar conta da nossa complexa existência? Saberemos nós orientar-nos num caminho ou em vários caminhos?  Uma coisa é certa, mesmo que não saibamos, não temos outro remédio, temos de liderar a nossa vida. Tudo isto para dizer que há exemplos de liderança que podemos tomar como válidos e inspiradores em todos os recantos das nossas vidas.

Nuno Markl, que foi premiado no final do ano passado como Best Public Leaders, para a liderança digital, veio dar razão ao prémio que lhe foi atribuído pelas entidades promotoras do estudo (Tema Central, QMetrics e Universidade Nova IMS) por ter protagonizado uma história incrível de liderança que foi descongelar no Polo Norte uma rádio muito peculiar. Ao fazê-lo, sem qualquer intenção para além de estar entretido a descobrir as mais variadas rádios através de uma app que circulou nas redes sociais, fez com que a rádio que toca jazz e blues e que tem um único funcionário, o seu criador, um americano e radialista Cal Lockwood, passasse de três seguidores no Instagram para milhares de seguidores de um dia para o outro. Atualmente, tem já 64 mil, passa Amália e até já passou Mário Laginha.

Esta é uma história de liderança digital, simples, inspiradora e, acima de tudo bonita, só isso, bonita.

Créditos também para Bruno Nogueira que sem qualquer pretensão prévia nesse sentido, criou um formato que é acima de tudo um momento irrepetível, de descontração, conversa e partilha de experiências de quem está fechado em casa há semanas. O registo é humorístico, não poderia ser de outra maneira, e neste momento leva a milhares de portugueses, cinco vezes por semana, duas horas de pura catarse.

Nuno Markl, esta é uma história incrível, mas é acima de tudo uma proeza que qualquer líder na área do marketing digital desejaria fazer. Tem noção disso, ou passa-lhe ao lado esta capacidade que tem de ser uma espécie de motor de propulsão de seguidores?
Passa-me um bocado ao lado, mas não é por me estar a armar ao pingarelho… O que se passa é que tenho perto de 30 anos de trabalho em rádio, e grande parte do meu trabalho em rádio sempre se baseou no gosto de falar de coisas de que gosto às pessoas: música, filmes, histórias, coisas. Lembro-me que nos primeiros tempos de Internet, ainda sem haver redes sociais, criámos no Homem Que Mordeu o Cão uma onda de apoio à colher de pau que se tornou viral, antes de se usar sequer o termo “viral” e de as coisas se tornarem virais na Internet. De repente, recebemos toneladas de colheres de pau na Sampaio e Pina, choviam telefonemas com odes de amor à colher de pau… O que se passa agora é que, simplesmente, há outras ferramentas para falar das coisas, e com outro alcance. Para mim, isto mantém sempre um espírito de estar numa roda de amigos a recomendar coisas. Foi esse o espírito de falar da rádio Arctic Outpost no direto do Bruno. Quando a coisa se torna um fenómeno e o Cal Lockwood começa, no Polo Norte, a agradecer a Portugal e a tocar música portuguesa, esse tipo de coisa há de deixar-me sempre surpreendido, porque nunca tenho um plano para estas coisas. É algo muito instintivo, a vontade de partilhar coisas de que gosto com outras pessoas.

Isto de ser influencer é uma definição/epíteto que lhe assenta bem? Gosta de o ser ou incomoda-o?
Faz-me alguma confusão quando a palavra “influencer” vem antes do meu nome, como já li em alguns sítios: “O influencer Nuno Markl”. Chateia-me um bocadinho, porque acho que isso não é bem uma profissão. Eu trabalhei para ser radialista, humorista, argumentista; é isso que sou há vários anos e isso são coisas que resultam em coisas concretas – programas de rádio, sketches, séries, filmes. Na minha cabeça ainda não cabe bem a ideia de que o acto de influenciar pessoas possa ser considerado uma ocupação. Soa-me sempre ligeiramente sinistro: influenciar tem uns laivos de lavagem cerebral. Divulgador é palavra que me assenta melhor, só não soa é tão sexy!

Influenciar e inspirar não são a mesma coisa, mas às vezes parecem confundir-se. Onde podemos colocar a fronteira?
De uma maneira muito pragmática, influenciar leva-me a pensar mais em publicidade, inspirar leva-me a pensar mais em causas. Mas, em último caso, são só palavras. Tenho feito algumas campanhas de publicidade no meu Instagram e a que fiz recentemente para a Cacaolat até acabou por ser mais “inspiradora” do que agressiva: era uma reflexão, em cartoons, sobre o próprio acto de fazer publicidade nas redes. Divertiu as pessoas, divertiu-me a mim e a empresa também adorou, a mensagem passou. Lembro-me de ler mensagens que diziam “depois disto, estou com vontade de ir comprar este batido”. Às vezes sinto mais sede influenciadora quando quero convencer alguém a ajudar alguma causa que se baseie em injustiça.

Há figuras públicas da sua área de atividade que optaram por não usar as redes sociais e outras que o fazem de forma bastante profissional e outras ainda quem nem teriam existido sem elas. Ricardo Araújo Pereira, que não usa as redes e, não obstante, tem sucesso e reconhecimento público; Fábio Porchat , se não fosse o YouTube não teria conseguido atingir o sucesso que tem e Cristiano Ronaldo, que é figura pública independentemente das redes sociais, acabou por usá-las para potenciar o seu sucesso. Qual a função das redes sociais na sua vida?
Devo muito à Internet. Eu já tinha uma carreira na rádio e como argumentista antes da Internet e antes d’ O Homem Que Mordeu o Cão, mas era uma coisa discreta, quase de bastidores. Quando a Internet chega a Portugal na segunda metade dos anos 90, é quando O Homem Que Mordeu o Cão começa, e é quando eu começo a tirar partido dessa nova forma de interatividade, pedindo às pessoas que mandem feedback e partilhem as suas próprias histórias bizarras em plataformas como, na altura, os Yahoo Groups. E foi aí que se começou a formar uma comunidade de pessoas a seguir o que eu fazia. Desde então tornou-se natural usar as redes não só para divulgar trabalho, mas como uma extensão do que faço – seja a divulgar coisas, seja a fazer humor.

Esta história de lançar para a ribalta uma rádio perdida algures no Polo Norte que espécie de emoções lhe trouxe? E que conclusões retira deste fenómeno?Foi muito instintivo e impensado, mas de repente tornou-se quase uma fábula, num conto de fadas da era do isolamento. O facto de, de repente, existir uma ponte entre nós e um senhor que trabalha sozinho no Polo Norte numa estação de rádio de Onda Média, numa comunidade onde não vivem mais do que 2000 pessoas, foi mágico. O mistério que continua a rodear o Cal Lockwood é fascinante. Mas, acima de tudo, estarmos todos juntos e muito menos sozinhos, por causa de um amante de rádio e de música que passa clássicos de 78 rotações no meio dos ursos polares, foi bonito.

Parece uma espécie de toque de midas, aqui transforma anónimos em figuras públicas. Isto é ser líder?
Estou muito grato pelo prémio que me deram de liderança digital, mas mentiria se vos dissesse que isto está tudo pensado. De novo, é só falar de coisas de que gosto e que quero partilhar com mais pessoas. A palavra “líder” tem um peso grande e associada a mim, torna-se quase cómica. Lembro-me sempre quando calhou a minha vez de ser administrador de condomínio no prédio do meu primeiro apartamento, em Benfica. Lembro-me de contar isto aos meus colegas da Produções Fictícias e do João Quadros dizer: “Tu, administrador? Tu nem administrar um par de sapatos sabes!”. Ele tinha razão: anos depois, aconteceu mesmo – fui para a rádio, de manhã, com um sapato de cada espécie. Não foi uma tentativa de iniciar uma nova moda – foi o misto matinal de sono e distracção.


Nuno Mark, que definição de liderança nos poderia dar?
A capacidade de, de uma maneira muito focada, inteligente e decente conseguir tirar o melhor partido de um grupo de pessoas. Eu falho logo na parte do foco. A minha mente anda sempre a mil à hora, disparando para demasiados sítios. Geralmente preciso que haja um líder nos projetos em que me meto, porque a minha natureza é criar, não é liderar. Há quem consiga acumular as duas coisas e isso é espetacular.

Se tivesse de identificar duas ou três figuras que o inspiram e ou influenciam quem seriam?
Diria que um deles é o falecido escritor britânico Douglas Adams. O homem conseguiu ser um tremendo escritor de humor – criou a saga The Hitchhiker’s Guide To The Galaxy em livros, rádio e um programa de TV – um pensador sobre a era moderna que nunca escondeu o seu fascínio por tecnologia e o partido criativo que podíamos tirar dela, e um dedicado defensor da natureza: o livro e o documentário que fez sobre espécies em extinção, Last Chance To See, é um portento, ainda hoje. Outro dia estava a ler um artigo também muito inspirador sobre o Jon Stewart, antigo apresentador do Daily Show. A maneira como ele faz comédia, intervenção política, e como se retirou para fazer filmes e, ao mesmo tempo, um santuário para animais maltratados – é espectacular. É algo que anda perto do sentido da vida.

Temos curiosidade em saber o que pensa do nosso Primeiro Ministro. E do nosso Presidente da República?
Conheço pessoalmente os dois, e é disso que vou falar. Acho que numa altura como esta é a modos que secundário e inútil estar aqui a debater política. Devo dizer que gosto de ambos: são pessoas calorosas e interessadas em pessoas, de uma forma genuína, e isso é uma bela caraterística. Têm também ambos sentido de humor, o que é precioso para alguém que ocupa os cargos que eles ocupam – há muita gente que acha que ter humor é ser pouco sério. Sobre o Presidente, a última vez que estive com ele foi em Cascais, por alturas do Natal. Estava um frio de rachar, eu tinha ido com o meu filho à Feira de Natal e vejo aquele senhor em fato de banho a sair do mar, ali na Baía. Estivemos um bocadinho à conversa e noto que, a poucos metros dali um grupo de turistas japoneses está a tirar fotografia com um ciclista, porque achou o equipamento dele espectacular. E eu dou por mim a pensar: esta malta podia estar a tirar uma selfie com o Presidente do país onde estão de férias em fato de banho em pleno Natal, e não imagina que ele é este cidadão aqui na praia.

Não sei se teve oportunidade se ver a notícia que correu recentemente nos jornais internacionais e nas redes sociais que identificou os países que melhor enfrentaram esta pandemia e constatou que todos tinham mulheres como líderes. Acha que a liderança feminina pode ser mais eficaz? Ou esta é uma questão que não se deve sequer colocar?
O mundo foi, desde sempre, gerido pelos homens e isso é um extraordinário sinal de que há muito tempo que isso devia ter sido reavaliado e, por fim, equilibrado. A competência não é um exclusivo de nenhum género, nem a incompetência. Toda a gente, independentemente do seu género, deve ter igualdade de oportunidades de demonstrar que é capaz de fazer as coisas bem. No meu caso pessoal: já fui liderado por mulheres em muitos projetos da minha vida e as coisas sempre correram bem!

Entrevista Catarina G. Barosa, publicada na edição de Abril da Líder

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