O caminho do Comércio Internacional em 2021, segundo Paulo Portas

Numa intervenção durante o encontro anual do Fórum Económico da Associação Comercial de Braga, realizado a 14 de abril, o político e professor universitário Paulo Portas partilhou a sua visão sobre a evolução das diferentes economias e os principais desafios após a crise pandémica.

Sob o tema “Perspetivas para o Comércio Internacional em 2021”, o encontro virtual entre vários empresários portugueses, moderado por Pedro Fraga, CEO da F3M, contou com a reflexão de Paulo Portas na temática das indústrias e empresas sobre as tendências do crescimento e recuperação da economia portuguesa.

A palavra-chave para 2021 é competitividade e Paulo Portas identificou a evidência do setor privado como o núcleo principal da nossa economia que após um ano de imensas dificuldades e desafios para empresas e trabalhadores, deve preparar-se para um futuro assente na intervenção excecional do Estado. Para tal é preciso confiar e deixar as empresas competir em mercados internacionais, sem criar obstáculos ou dificuldades.

Segundo o Barómetro do Comércio Internacional, recentemente publicado pela Organização Mundial do Comércio, apesar da queda de 5% do comércio internacional de bens em 2020, ele irá crescer cerca de 8% em 2021 (acima do crescimento global). Isto vem reforçar a importância do pilar do comércio na era da globalização e digitalização. Paulo Portas lança a reflexão para que se deixem de lado as ideologias e se assuma como absolutamente crucial para o crescimento e prosperidade do País a construção de um caso de competitividade.

A assimetria do impacto da Pandemia

Não será novidade considerar-se que esta crise global criada pelo SARS CoV-2 não foi simétrica – “aterragem do vírus”, políticas públicas de resposta, dimensão dos confinamentos e tempo de partida para voltar ao crescimento; e essa perceção é importante para que se chegue a um ponto de viragem de uma Pandemia para uma Endemia, algo com o qual já se possa conviver e de efeitos residuais na vida das pessoas e organizações. E nos setores mais afetados, essa viragem só será possível quando o princípio da confiança ultrapassar o do medo.

O único grande bloco que em termos pandémicos não chegou a ter perdas foi a China, fechando o ano de 2020 com 2,3 % de crescimento económico. A Turquia foi a única economia do G20 com crescimento semelhante, quase 2% em 2020, e na Europa houve o caso único da Irlanda (3%). Se por um lado a chegada do vírus seguiu pela ordem Ásia – Europa – Américas, o tempo de recuperação económica não foi semelhante: primeiro na Ásia, EUA e finalmente Europa. Houve claramente uma melhor recuperação da Ásia em relação ao Ocidente, seguida pelos EUA que em 2021 irão crescer o dobro da Zona Euro. Neste caso, Paulo Portas refere também as vantagens da não rigidez, dinamismo e flexibilidade da economia norte americana que permite ter grandes quedas, mas também recuperar rapidamente. Como exemplo, referiu a taxa de desemprego nos EUA que passou de 14% em maio de 2020 para 6% em 2021, estando desde há 8 meses a conseguir criar emprego líquido.

A reindustrialização da Europa

Há muito que se fala sobre a questão da Europa combater a dependência em relação à Ásia, algo intrinsecamente ligado à indústria e produção. Na sua perspetiva, algumas mudanças são inevitáveis, nomeadamente em questões de saúde, relembrando que nunca houve uma política de saúde comum na UE evidenciada pelo momento em que Ursula von der Leyen ao constituir a sua Comissão no final de 2019, atribui em último lugar a pasta da saúde.

Meses depois chega uma Pandemia que veio revelar uma clara ausência de um esquema internacional de gestão de crises, com um severo impacto na UE. Por outro lado, a Ásia e nomeadamente a China, já tinham passado por outras situações de crise em questões de saúde, como a gripe das aves e gripe A. Para Paulo Portas é necessário contrariar a dependência da Ásia, mas relembra as palavras do recente prémio Nobel da Economia sobre a reindustrialização – é mais fácil dizer do que fazer.

Outro fator determinante no futuro desta Pandemia é o investimento em Investigação de Desenvolvimento (I&D) e nesse domínio a UE também fica atrás dos EUA, Japão e China. Na sua opinião, não é possível a “conquista de um lugar ao sol” sem investir em Inovação, pois é daí que vem o valor acrescentado. Quem industrializa o conhecimento são as empresas – e o caminho para uma maior autonomia em relação à Ásia, é a disponibilidade de maior investimento em I&D, tanto pelo setor público como privado, e o combate ao preconceito da colaboração entre ciência e empresas.

Para que tal aconteça, Paulo Portas considera necessário existir um caso competitivo para o qual os reguladores responsam em tempo útil. Como exemplo, refere os casos de sucesso nos programas de vacinação de Israel e dos EAU e na forma inovadora que encontraram para uma rápida recuperação. Por ter dados de saúde digitalizados sobre toda a sua população, Israel ofereceu à Pfizer os dados anonimizados sobre 5 milhões de pessoas vacinadas em tempo real. Já os EAU internacionalizaram uma vacina chinesa e ofereceram cerca de 50 mil voluntários para ensaios de fase 3.

Na sua opinião, o mundo pós-COVID será ainda mais competitivo do que antes e a chave é a construção de um caso de competitividade, na busca de investimento e abertura dos mercados.

África e a Pandemia económica

Em relação à canalização de investimento português para a África portuguesa e não só, deve-se primeiro alargar o nosso olhar para outros países e regiões económicas para além de Angola e Moçambique.

Nesse âmbito, Paulo Portas chama a atenção para a entrada em vigor no início de 2021 da Área de Livre Comércio Continental Africana (ALCCA), cujo Tratado é sob o ponto de vista continental o maior do mundo. Com esta medida pretende-se aumentar o nível de comércio intra-africano de 16% para 50% e uma redução das tarifas de fronteira de 90% – esta pode ser uma oportunidade interessante para as empresas portuguesas que estejam a operar em África.

Por outro lado, África é o continente mais jovem do mundo, a idade média de um africano são 18 anos, em comparação com os 42 de um europeu e as fronteiras entre os dois continentes são muito aproximadas. Se não for feita uma verdadeira política de ajuda europeia e lusófona para África, com respeito pela sua soberania e independência, a procura de um caminho para a prosperidade noutras regiões irá fazer escalar os fenómenos migratórios.

Pela caracterização de uma população extremamente jovem, a Pandemia em África é mais económica do que sanitária, para tal observação Paulo Portas refere a acumulação de quatro fatores: suspensão investimentos; queda das remessas; preço das commodities; e problemática das dívidas emergentes em África. Neste último ponto adverte para o caso de ser fundamental criar condições para o desenvolvimento de uma estratégia global, especificamente pela parte do G20, na restruturação e renegociação dessas dívidas.

Brasil e América Latina

A assimetria da Pandemia confirma-se ao assistir-se agora a uma terceira vaga na América do Sul, com taxas de contágios e letalidade desastrosas, nomeadamente no México. É difícil imaginar um país com um índice de pobreza como o Brasil a fazer confinamentos sem flexibilidade, tal como em certas regiões de África, com famílias numerosas a viver em pequenas habitações e favelas, sem poder trabalhar para conseguir ter a sua refeição diária.

Em 2020, a economia brasileira caiu 4%, valores inferiores aos da Argentina, que teve a pior queda do PIB na América Latina, cerca de 10% (semelhante a Espanha 11%) e que já vinha em recessão desde 2019. O México, uma das economias mais interessantes, na opinião do orador, prevendo-se a sua passagem do grupo do G20 para o G8, teve uma queda de 8%. A América Latina foi globalmente a região mais impactada pelo novo coronavírus, tendo um recuo de cerca de 10 anos face aos avanços que já tinham sido feitos em termos de globalização e da diminuição do número de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza extrema.

Numa nota mais positiva, Paulo Portas considera inevitável a abertura do sub-continente brasileiro para o mundo. No tema iminente de “food security” (somos 7 mil milhões para alimentar), o Brasil poderá ser em 20 ou 30 anos um dos países “food supplier” para o globo.

Competitividade – a palavra para Portugal

Planos de Recuperação e Resiliência (PRR) e a bazuca europeia estão há meses no horizonte da maioria das empresas portuguesas, enquanto os PIB dos países da Europa de leste continuam a ultrapassar o de Portugal. Será o nosso país capaz de usar esses recursos ou será que num cenário pós-Pandemia tudo vai ficar na mesma?

Paulo Portas aposta na capacidade das empresas para que haja uma boa gestão de recursos. A prioridade é construir um caso de competitividade em Portugal que permita dinamizar o crescimento da internacionalização da Economia, as exportações e a atração de capitais. Existe na sua opinião uma “pressão ideológica errática” para a assistencialização da Economia portuguesa, quando uma coisa é a intervenção do Estado numa circunstância excecional, outra é tornar esse papel perpétuo ou definitivo.

Quando a Europa sair deste ciclo de Pandemia, em que a confiança irá prevalecer sobre o medo, será necessário mais mercado, mais comércio e mais investimento. E não mais Estado!

Em relação ao papel da indústria e do setor privado em Portugal, Paulo Portas partilha a sua visão de que o foco deve ser a recuperação de produtividade e não o prolongamento da assistência do Estado ou dependência das empresas da ajuda por parte do Governo.

Em relação aos PRR, refere que poderá haver alguns atrasos, nomeadamente, se o Tribunal Constitucional alemão vier a discutir a questão do dinheiro dos contribuintes alemães ser usado para a Comissão Europeia financiar os PRR. Na sua opinião, poderá acontecer um recuo muito sério, atrasando a chegada da ajuda financeira. Tal será decidido no próximo dia 26 abril.

A Associação Comercial de Braga foi fundada em 1863 e o seu âmbito geográfico consagra a área dos municípios de Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde.

 

© Fotografia Paulo Portas: Associação Comercial de Braga

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