O escândalo Evergrande: escrito nas estrelas?

A implosão do gigante chinês do imobiliário Evergrande tem estado a encher páginas e editoriais, cá e lá fora. Dada a dimensão da empresa, trata-se de um novo caso com potencial explosivo global, uma réplica da falência da Lehman Brothers que gerou ondas de choque por todo o mundo. Abstraindo a ironia de uma nova crise do capitalismo poder estar agora a nascer num país comunista, há um facto que merece alusão: estava escrito nas estrelas.

 

Não, eu não previ o que está acontecer. Estou apenas a acabar de ler China em Dez Palavras de Yua Hua. Ora, o capítulo dedicado a uma dessas dez palavras (Revolução) explica tudo.  A febre dos “números gloriosos” veio acompanhada de quantidades absurdas de crédito e de enormes riscos de crédito malparado. A sede de crescimento terá chegado ao seu limite e as consequências daquilo que Yua Hua escrevia em 2010 estão a tornar-se transparentes em 2021.

 

A ilação parece óbvia: nós, humanos, temos uma enorme dificuldade em interpretar aquilo que nos acontece. O que está à nossa volta, mesmo que seja a construção de cidades inteiras para as quais não há habitantes, parecem acontecimentos normais. Quando nos damos contas do absurdo, os elefantes brancos já aí estão. Quer se trate dos projetos de development da Evergrande, dos aeroportos sem aviões da Península Ibérica ou de estádios de futebol sem futebol, o fascínio pelo “desenvolvimento” não é bom conselheiro. Com a bazuca a disparar, talvez seja altura de recordar as palavras de Hua: na atualidade “repetiram-se em vários pontos da China episódios loucos de fundição de aço reminiscentes do período do Grande Salto em Frente”. Quem diz fundição do aço diz outra coisa qualquer e quem diz China pode escrever Portugal: parecemos condenados a repetir a História, numa espécie de prisão perpétua às grilhetas de um passado que não passa.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

Artigos Relacionados: