O futebol regressou no melhor da sua pior forma

Aos portugueses sabe bem dizer mal dos políticos em geral. Não é só cá, mas é o que se passa por cá que agora nos interessa. Façamos uma experiência mental: imaginemos por um momento que a saúde era gerida por dirigentes futebolísticos: (1) ainda não se saberia que vírus provocava a doença; (2) alguns contestariam mesmo a ideia de se tratar de um vírus; (3) outros diriam que o vírus fora mandado pelo adversário para os tramar (na política há quem diga o mesmo); (4) se se admitisse que eram necessárias máscaras, ainda se discutiria a cor das máscaras; (5) escolhida a cor seria contestada por ser dessa cor. E assim por diante até morrerem todos – ou todos ficarem imunizados.

Para os otimistas que acreditam que o vírus vai mudar o mundo, o nosso futebol é a prova de que não vai. Ainda os treinos não haviam recomeçado e já os dirigentes mostravam a sua boa forma, jogando com muito contacto e até algumas entradas à margem da lei. Se houvesse cartões para dirigentes teria havido vários vermelhos! Entretanto: adeptos de um clube desconfinam à bruta em apoio aos seus; adeptos de outro apedrejam a sua equipa. O Público faz capa com negociatas à margem da lei. Ou seja, o futebol voltou com todos os seus ingredientes, mesmo os que não fazem parte da receita. Há uns anos iniciei uma colaboração semanal com o Negócios com um artigo sobre as disfunções do futebol português. É impressionante verificar como, passados estes anos, tudo continua na mesma – o que também não surpreende porque os protagonistas são, em geral, os mesmos. Pinto da Costa acaba aliás de ser reeleito para o seu 15.º mandato, qual Lukashenko da bola.

Um dos textos interessantes que li por estes dias confinados foi redigido por Miguel Poiares Maduro e saiu no Record. O seu título diz tudo: “Como superar o presidencialismo”. Como adepto da mesma cor que o autor, estou cá para aplaudir e apoiar as suas ideias para o nosso clube. Mas mais que uma lição para o clube A ou B, a mensagem é outra: sem sistemas de governança decentes, as organizações expõem-se às idiossincrasias dos seus dirigentes, para o bem e para o mal. Normalmente para o mal, como nos mostra a nossa desgraçada primeira divisão.

Banda sonora para este artigo: Carga de ombro, de Samuel Úria.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

 

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