Para muitas mulheres, a Inteligência Artificial continua a parecer um território distante. O programa Potenc.IA quer mudar esse cenário. Desenvolvida pela Prosper Digital Skills e apoiada pela tecnológica Numen, a iniciativa já formou 100 mulheres em competências de IA — metade colaboradoras da empresa, metade participantes provenientes de contextos socioeconómicos vulneráveis — através de um modelo que combina formação online, mentoria e projetos práticos.
Num setor onde apenas 29% dos profissionais com competências em Inteligência Artificial são mulheres, Ana Alves, Head of Business da Numen Europa e co-leader da Women in Tech.org, defende que a qualificação feminina em tecnologia é hoje um fator decisivo para a inovação e a competitividade das empresas.
O que levou a Numen a participar e patrocinar o programa Potenc.IA e a apostar na formação de mulheres em IA?
A missão da Numen é aproximar pessoas e tecnologias para construir negócios mais inteligentes, impulsionando o desenvolvimento humano. O Potenc.IA, projeto desenvolvido pela Prosper Digital Skills, personifica essa crença ao democratizar o acesso à Inteligência Artificial para 5.000 mulheres em situações de sub-representação. Para nós, a tecnologia só cumpre seu propósito quando serve como vetor de ascensão e inclusão.
O Potenc.IA junta formação, mentoria e aplicação prática para ajudar mais mulheres a ganhar competências que já hoje têm impacto direto na empregabilidade e na evolução profissional. Para a Numen, esta é também uma forma de ligar diversidade, capacitação e futuro do trabalho de forma prática.
Quantas mulheres já participaram e qual a sua evolução em termos de competências?
A participação da Numen no Potenc.IA reflete o nosso compromisso com a evolução do talento através de um modelo de impacto recíproco: para cada uma das 50 colaboradoras da nossa equipa capacitadas, viabilizámos a formação de outras 50 mulheres de comunidades sub-representadas. Esta estratégia permite-nos fortalecer as nossas competências internas em IA, ao mesmo tempo que atuamos como agentes de democratização digital, combatendo a sub-representação histórica no setor tecnológico e preparando profissionais para as funções mais expostas à automação.
Em termos de evolução, o programa foi estruturado para acolher diferentes níveis de literacia digital, permitindo que participantes com contacto inicial progredissem de forma sólida até um nível intermédio de proficiência em IA. O sucesso desta jornada de capacitação é validado por uma taxa de certificação superior a 50%, um indicador robusto de compromisso e aquisição de competências práticas. Para a Numen, este resultado reafirma que a aposta na diversidade e na formação contínua é o caminho mais eficaz para garantir a empregabilidade e a inovação num mercado de trabalho em constante transformação.
Como a formação em IA ajuda a mitigar o risco de automação em funções tradicionalmente femininas?
Ajuda sobretudo porque desloca as profissionais de uma posição mais passiva para uma posição mais preparada perante a mudança. Quando falamos de funções mais suscetíveis à automação, o maior risco não está apenas na tecnologia em si, mas na falta de acesso às competências que permitem adaptar-se a ela, utilizá-la e tirar partido dela.
A formação em IA cria precisamente essa base. Ao trabalhar literacia digital, uso de ferramentas, pensamento aplicado e resolução de problemas, o programa ajuda as participantes a compreender melhor o que está a mudar no trabalho e como podem integrar essas ferramentas nas suas funções.
Que critérios são usados para selecionar participantes de contextos socioeconómicos vulneráveis?
A seleção de participantes de contextos vulneráveis é pautada por um critério de impacto real sobre o perfil ideal, priorizando mulheres para quem o acesso a esta qualificação representaria uma mudança estrutural na sua trajetória de empregabilidade e confiança.
Através de uma rede robusta de embaixadoras e líderes de comunidades, da qual a nossa CHRO, Vanessa, faz parte ativamente, o programa identifica perfis que enfrentam barreiras históricas de acesso à tecnologia, garantindo que a inclusão seja o critério efetivo de entrada, e não apenas um conceito abstrato.
O desenho do processo foca na identificação do potencial de transformação e na necessidade de reforço de competências, em vez de exigir experiências prévias avançadas que muitas vezes excluem estes grupos. Ao trazer este programa para dentro da Numen, asseguramos que a nossa visão de liderança está alinhada com a democratização do conhecimento, utilizando a nossa influência no ecossistema tecnológico para abrir portas a talentos que, de outra forma, ficariam à margem da economia da Inteligência Artificial.
Quais são as histórias ou experiências mais inspiradoras que surgiram do programa até hoje?
São, especialmente, aquelas que materializam a “viragem de chave” na rotina das participantes. É profundamente gratificante acompanhar a evolução das nossas profissionais e de toda a comunidade, carinhosamente tratadas como as nossas “miúdas” e testemunhar o entusiasmo ao aplicarem a IA nos seus projetos diários.
Um dos momentos mais marcantes foi ouvir de uma participante que a sua rotina mudaria por completo, pois já se sentia capaz de estruturar o seu próprio “agente de IA”, demonstrando que a tecnologia deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma ferramenta de autonomia e produtividade.
Além das conquistas individuais, a formatura da primeira turma foi um marco de impacto coletivo, evidenciando diálogos de alto nível técnico e estratégico. Mais do que a conclusão de um curso, as quatro semanas de formação intensiva criaram um sentido de comunidade entre as colaboradoras da Numen. Esse estreitamento de laços, aliado à capacitação prática, reforça o nosso posicionamento de que, ao aproximarmos pessoas e tecnologia, estamos não só a otimizar processos, mas a construir um futuro onde a liderança feminina é protagonista da inovação.
Como a combinação de formação, prática e mentoria faz a diferença na evolução das participantes?
Faz diferença porque evita que a aprendizagem fique num plano apenas teórico. No Potenc.IA, estava bastante claro: havia avaliação inicial, trilhas de aprendizagem por nível, conteúdo assíncrono, mentorias em grupo e um projeto prático ao longo de 4 semanas. Essa combinação torna a evolução mais consistente porque permite aprender, experimentar, esclarecer dúvidas e aplicar.
A mentoria é especialmente importante porque ajuda a reduzir a distância entre perceber um conceito e conseguir usá-lo com utilidade. E a componente prática, através do projeto, faz com que a IA deixe de ser uma ideia abstrata e passe a ser uma ferramenta concreta de resolução de problemas. É essa combinação que permite que a aprendizagem se transforme em competência efetiva.
Que obstáculos estruturais ainda existem para a igualdade de acesso a competências digitais?
São vários e não começam apenas na formação. Há questões de contexto económico, tempo disponível, acesso a oportunidades, mas também fatores culturais e de representação. Muitas mulheres continuam a ter menos exposição a áreas tecnológicas ao longo do percurso e, em muitos casos, ainda encaram estes temas como distantes do seu dia a dia profissional.
Por isso, a igualdade no acesso a competências digitais não se resolve apenas com mais oferta formativa. É preciso que os programas sejam acessíveis, ajustados a diferentes níveis de entrada, compatíveis com realidades de tempo mais exigentes e acompanhados de mentoria e orientação.
O próprio Potenc.IA procurou responder a isso com percursos diferenciados, aprendizagem faseada e apoio ao longo do processo.
Em que medida a qualificação feminina em IA pode tornar-se uma vantagem competitiva para as empresas?
A qualificação feminina em IA traduz-se numa vantagem competitiva imediata através da agilidade operacional. A capacidade de automatizar processos, aumentar a velocidade de entrega e garantir eficiência técnica gera resultados tangíveis que impactam diretamente o bottom line das empresas. No ecossistema Numen, onde operamos com tecnologias de ponta como SAP, Celonis, AWS e Salesforce, vemos que equipas capacitadas em IA conseguem entregar soluções mais robustas em menos tempo, permitindo que a organização responda com maior prontidão às exigências de um mercado global altamente volátil.
Contudo, o diferencial estratégico mais profundo reside na inovação sustentada pela diversidade. É um facto consolidado que a ausência de pluralidade de perspetivas limita a capacidade criativa de uma organização; sem diversidade, não há inovação disruptiva, e sem inovação, as empresas correm o risco real de perder relevância na nova economia digital.
Ao investir na formação de mulheres em IA, a Numen não está apenas a preencher uma lacuna técnica, mas a assegurar que o desenvolvimento tecnológico seja enriquecido por visões distintas, mitigando enviesamentos e garantindo que o futuro dos negócios seja tão inclusivo quanto eficiente.
Que conselhos daria para transformar iniciativas de diversidade em impacto real e mensurável na empregabilidade?
O primeiro passo é superar a dimensão simbólica e ancorar a iniciativa em resultados concretos. Na Numen, acreditamos que a verdadeira transformação começa com a intenção clara de impactar o mundo ao nosso redor, mas isso exige um desenho estruturado: objetivos bem definidos, critérios de evolução rigorosos e mecanismos de acompanhamento. O impacto na empregabilidade não é um subproduto; é o objetivo central que deve guiar cada etapa da formação, garantindo que as competências adquiridas têm aplicação imediata nas necessidades reais das organizações e do mercado.
O segundo conselho é medir para além da participação. Monitorizar o número de inscritos é insuficiente para aferir o sucesso; o foco deve estar na evolução entre níveis de proficiência, nas taxas de certificação e, crucialmente, no reforço da confiança das participantes para utilizarem a tecnologia no seu contexto profissional. Por fim, é vital garantir a continuidade. A empregabilidade constrói-se num percurso, não num evento isolado. As empresas devem ver estas iniciativas como parte de um ecossistema mais alargado de capacitação e acesso a oportunidades, criando pontes reais entre a formação e o mercado de trabalho para assegurar que o investimento em talento se traduza em valor sustentável para todos.
Como vê a relação entre talento feminino, inovação tecnológica e sustentabilidade das empresas?
A relação entre talento feminino, inovação e sustentabilidade é, na verdade, o motor de uma sociedade e de uma economia funcionais. Como embaixadora do programa nacional Raparigas nas STEM e participante neste momento de uma formação sobre IA e não-discriminação, a convite a CIG, em especial da Presidente Carina Quaresma, vejo que não podemos falar de inovação plena quando mais de 50% da população parte de um ponto atrás na linha de partida. O impacto de ignorar este potencial é sentido na entrega coletiva e na saúde económica global.
No perímetro das organizações, os números são incontestáveis e transformam a diversidade numa vantagem competitiva mensurável. Estudos de instituições como o Peterson Institute e a McKinsey demonstram que empresas com pelo menos 30% de mulheres em lideranças de topo lucram significativamente mais do que os seus pares, chegando a apresentar resultados 25% acima da média do setor quando a diversidade de género está presente nas equipas executivas. É tão simples quanto isto: a diversidade gera rentabilidade, resiliência e o futuro dos negócios.
Se pudesse deixar uma mensagem às empresas sobre a importância da qualificação digital das mulheres, qual seria?
A qualificação digital das mulheres não é uma ação de filantropia, mas um imperativo de competitividade e sobrevivência económica. Numa era definida pela Inteligência Artificial e pela automação, ignorar o potencial de mais de metade da população é aceitar um teto de crescimento artificial. As empresas precisam entender que a inovação disruptiva só acontece quando unimos tecnologia de ponta a uma pluralidade de visões. Qualificar mulheres em tecnologia é, acima de tudo, garantir que a sua organização tem as melhores mentes a resolver os problemas mais complexos de amanhã.
Portanto, o meu conselho é: não esperem pelo “perfil perfeito”, criem-no. Invistam em programas estruturados que transformem o potencial em proficiência técnica, pois os dados são claros, equipas diversas e com liderança feminina entregam mais valor, mais lucro e mais inovação.
O futuro digital está a ser escrito agora, e ele será necessariamente mais feminino se quisermos que seja, de facto, inteligente.


