O futuro passa pelos bots

Jairson Vitorino é fundador e chief technology officer (CTO) do grupo E.Life. Tem um doutoramento em Inteligência Artificial pela Universidade de Ulm, na Alemanha, país onde reside atualmente, e esteve em Lisboa no passado dia 06 de março, no Hotel Altis Belém, para falar sobre tendências digitais. A Líder foi descobrir quais são essas tendências e de que forma estas podem ajudar os líderes de hoje nas suas ações.

Entrevista: Catarina Barosa
Texto: Madalena Ferreira

Líder (L): Em primeiro lugar pedia-lhe para se descrever, Jairson. Sabemos que é doutorado em Inteligência Artificial (IA), mas como é que chegou até aqui?

Jairson Vitorino (JV): A minha carreira dividiu-se sempre entre as áreas académica e empresarial. Eu sempre tive empresas. Comecei no Brasil, a empreender, e depois vendi a minha primeira empresa, que era uma empresa de análise e desenvolvimento de sites, em 2001/2002, e naquele momento eu decidi fazer o doutoramento fora. Sempre tinha sido um sonho, mas nunca tinha tido oportunidade, uma vez que estava sempre entre o lado empreendedor e o lado académico. E durante o doutoramento em IA, o meu antigo sócio da empresa de sites começou também a trabalhar com essa parte de análise.

L: Qual é a sua formação de base?

JV: É computação. Depois fiz o mestrado em redes neurais, que hoje é um componente superimportante, e depois fiz o doutoramento nesta área mais ampla.

L: E como é que isso levou à criação da sua empresa?

JV: Com o meu doutoramento e esses novos inputs, e com o meu sócio também a fazer o mestrado na Universidade de São Paulo, tudo isso levou a que nós pensássemos “Ok, vai haver muitos dados agora na Internet, as pessoas estão a deixar muita informação nas redes sociais, ao escreverem blogs, então vamos criar uma empresa para analisar esses dados”. E desde a metade final do doutoramento começámos a desenvolver a empresa. Depois eu defendi a minha tese, mas não segui pela carreira académica, pois também não era esse o meu objetivo. Quando comecei o doutoramento foi realmente por uma questão de curiosidade científica.

L: Qual era a pergunta do seu doutoramento?

JV: Não era uma pergunta, era um projeto: uma máquina de inferência. Uma máquina que trabalha lógica, lógica aristotélica e outras lógicas avançadas, para tentar fazer qualquer tipo de capacidade de raciocínio. Pode ser responder a uma pergunta, tendo os factos. Por exemplo: Portugal fica na Europa; a Europa fica no Planeta Terra; Onde fica Portugal? Ou Portugal fica no Planeta Terra? Ou seja, é uma inferência.

L: Mas tem por base um algoritmo de raciocínio lógico, certo?

JV: Sim, mas um algoritmo é algo mais chave, é mais uma ideia. É como Lego, tem uma base menor. Uma máquina de inferência tem uma base maior e usa vários algoritmos. No fundo, o meu estudo foi como fazer mais uma alternativa às máquinas de inferência, que é um tema muito grande.

L: E chegou a alguma conclusão? Conseguia resumir-me a sua tese?

JV: Bem, é um grande desafio, porque é muito técnico. A máquina de inferência que propusémos usava um conjunto de outras tecnologias que, entre outras coisas, servia para desenvolver uma lógica baseada em cálculo de restrições e que nunca tinha sido tentada, pelo menos da maneira como nós a estávamos a imaginar. E o meu produto de doutoramento passou por desenvolver mesmo um software, um protótipo, de modo a conseguir colocar os factos lá dentro e obter respostas.

L: E hoje já consegue aplicar isso na prática?

JV: Hoje utilizamos essa tecnologia nos nossos bots.

L: O que são bots?

JV: Basicamente há um entendimento da linguagem natural. Quando eu digo que “Portugal fica na Europa” e que “a Europa fica no Planeta Terra” e depois pergunto “Portugal fica no Planeta Terra?”, eu não disse que Portugal ficava no Planeta Terra. Mas a máquina tem a capacidade de inferir que se Portugal fica na Europa e a Europa fica no Planeta Terra, então sim, Portugal fica no Planeta Terra.

L: Mas isso é também o que a Siri faz, não é?

JV: Sim, pode ser. E hoje existe muita coisa nesta área. Por exemplo, o Facebook tem uma plataforma de desenvolvimento de entidades, de bots (que são esses robôs textuais), que nós desenvolvemos para a área imobiliária, por exemplo.

L: Nós hoje em dia entramos em sites que têm um “assistente” para nos ajudar.

JV: Exatamente e esse assistente pode ser um humano ou um algoritmo. O que nós recomendamos sempre é que haja um atendimento híbrido. O ideal é ter uma máquina que interaja com o cliente e, quando “percebe” que não está a conseguir resolver o problema, que reencaminhe o assunto para um ser humano.

L: Sim, até porque nós fazemos muitas experiências com a Siri e ela só diz disparates.

JV: Exato, aliás, na maioria das vezes é assim. No meu entendimento, ainda faltam muitos anos, décadas, até que haja realmente uma compreensão da linguagem por parte das máquinas.

L: Quais os livros que recomendaria para os líderes de hoje?

JV: Há um autor que hoje é muito famoso, Raymond Kurzweil, que eu li em 1999, nomeadamente a sua obra A Era das Máquinas Espirituais. Hoje, este é um autor muito mainstream, mas foi ele quem me inspirou a entrar na área da Inteligência Artificial quando li o seu livro. E isto porque ele trabalha com IA desde os anos 70. Há três ou quatro anos, quando montou a singularity, ficou mais conhecido e percebeu-se que é uma pessoa claramente com uma visão. Mas muito tempo antes, foi realmente esse autor com esse livro e Isaac Asimov com a sua obra Eu, robô que me despertaram muita curiosidade.

L: Com que aspetos é que os líderes de hoje se devem preocupar?

JV: Têm de se preocupar com a questão da voz, sobretudo reconhecimento e entendimento da mesma. As empresas vão ser impactadas por novos interfaces de voz, assim como nós todos fomos impactados pelo telemóvel, pelo smartphone… A voz vai mudar tudo novamente. Nas áreas da publicidade, marketing, comunicação vai ser preciso cada vez mais analisar as métricas por trás dos investimentos em conteúdos ou media. Uma outra questão é a do atendimento ao consumidor: empresas com milhares de consumidores como a Ryanair, por exemplo, precisam de estar disponíveis 24/7 e isso, do ponto de vista económico, só faz sentido se se utilizarem bots, entidades digitais, que possam substituir parcialmente os seres humanos. A questão dos insights, do flow, da informação que é gerada e compartilhada na Internet é também muito importante. É preciso analisar e gerir essa informação, não só no sentido de as empresas estarem alerta para reagirem a potenciais informações prejudiciais – testes em animais, outros escândalos que muito rapidamente circulam na internet – mas também no sentido de gerir o que é verdade e o que é mentira, sobretudo nesta era das fake news. Este é um dos grandes desafios do Facebook, conseguir eliminar conteúdo que não é verdadeiro, e eles realmente estão a tentar aperfeiçoar técnicas de IA para resolver esse problema. Por último, há ainda que ter em atenção o impacto geral da IA, pois esta é a tecnologia que mais vai impactar a sociedade nas próximas décadas, em qualquer aspeto: saúde, educação, relações sociais, entre países… Mas eu sou otimista: acho que cada vez mais vamos ter mais oportunidades de acesso, uma vez que penso que este acesso vai ficar mais barato e por isso mesmo acessível a mais pessoas.

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