O homem que cortou a última árvore

Sexta-feira lembrei-me de uma passagem de um dos grandes livros de Jared Diamond: o que terá pensado o homem que cortou a última árvore da Ilha de Páscoa? É verdade que a última árvore talvez já não fizesse muita diferença, mas alguém a cortou na mesma. E se a decisão de sexta-feira tiver sido uma espécie de última árvore? Que efeitos poderá ter esta decisão?

Nesta altura é impossível antecipar os efeitos de uma decisão tão importante, mas este poderá ser o golpe final na confiança de muitos cidadãos nas instituições. Nem se trata de saber quem é inocente e quem é culpado, mas do facto de esta decisão, pela sua natureza, acrescendo ao estado de degenerescência da justiça, acentuar duas suspeitas do cidadão comum: a de que os ricos se safam sempre e a de que existem redes de proteção que se aproveitam de prazos, legalidades e da natureza dos macroprocessos, para garantir o ponto anterior.

Foi uma boa decisão para os populistas à direita e à esquerda. À direita pode agora dizer-se que o regime está podre e que falta ao governo a vontade de o reforma. À esquerda confirma-se que os perigosos capitalistas se safam sempre. Sejamos claros: uma boa economia de mercado precisa de um Estado forte capaz de punir os prevaricadores, nomeadamente os que cimentam as suas posições através da corrupção e não da competição com regras. A nossa desgraça é que nem o Estado é forte nem as empresas que recorrem ao capitalismo de compadres são punidas. Estamos assim condenados a empobrecer enquanto assistimos ao abate da última árvore, esperando que nada aconteça. Afinal era só mais uma árvore…


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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