O impacto da Covid-19 nos pequenos negócios no interior do País

Era uma vez um grupo de pequenas empresas localizado no interior do País. Como muitas das empresas aí localizadas, desenvolvendo atividades relacionadas com o potencial da região onde se inserem (seja explorando o potencial turístico, os produtos regionais ou potenciando alguns clusters que se vão desenvolvendo).

Alguns de vós já conhecem o grupo Sabores Altaneiros, com origem na Serra da Estrela e que desenvolve atividades na área do turismo de natureza, na produção e comercialização de produtos regionais (com uma loja na Covilhã e outra em Tróia no verão e alguma revenda principalmente de queijos e particularmente do seu excelente queijo de cabra) e na criação de rebanhos de cabras.

A gestão corrente do grupo é assegurada por mim [Luís Marques] e por um sócio residente em Manteigas. Idas regulares (de três em três semanas… ou menos) a Manteigas, Covilhã e Belmonte e conversas telefónicas com o Bernardo e com a Joana (responsável da loja da Covilhã).

O choque

Estamos no início de março de 2020, a vida do grupo corre normalmente, a caminho de mais um ano de crescimento esperado próximo dos 2 dígitos em todas as atividades.

Mas de repente tudo mudou: a loja da Covilhã fechou, o parque de aventura e lazer que gerimos fechou e o escoamento dos queijos feitos com o leite das cabras praticamente cessou. Mas em simultâneo: as cabras necessitam continuar a ser alimentadas, o parque tem custos fixos e as pessoas têm de ser mantidas a todo o custo, quer por razões humanitárias quer porque são necessárias para nos ajudar a retomar a normalidade da operação.

Foram uns dias de angústia, de noites mal dormidas, de muitas conversas, mas acima de tudo, de procura incessante de saídas.

A oportunidade

De repente tudo ficou mais claro: por que razão não podemos transformar este desafio numa grande oportunidade?! Há algum tempo que tínhamos criado a nossa loja online, embora para servir mais como montra do que veículo de venda. Há algum tempo que pensávamos em dinamizá-la, mas nunca era oportuno. Agora, se os clientes não podem ir às lojas por que não levar os produtos aos clientes?

Fácil, óbvio, mas… e recursos? E know-how? E quanto tempo vai demorar? E como vamos ter receitas para manter os postos de trabalho? E…? E…?

Há teorias que dizem que nós somos muito mais produtivos e eficazes quando estamos numa zona de desconforto pois gera evolução, e não numa zona de conforto (tendencialmente gera imobilismo) ou de pânico (gera normalmente paralisia); foi o caso!

Vamos por partes: recursos!

A loja da Covilhã funcionava com três excelentes colaboradoras (a Joana, a Ana Rita e a Tatiana) … atrás do balcão, a receber clientes, a organizar e decorar a loja, a reportar e a atender. Havia ainda o Bernardo (sócio e elemento chave neste processo de mudança) e a Susana (a pessoa do backoffice essencial no apoio).

E se, por um processo de acompanhamento próximo reconvertêssemos essas pessoas? E se aproveitássemos as suas competências de dedicação, foco nos resultados, compromisso, em “força transformadora” e alterássemos de forma radical todo o serviço? E se aproveitássemos este tempo para, utilizando os recursos tecnológicos disponíveis, criar, desenvolver e pôr a funcionar a tal loja online?

Aí tivemos uma surpresa agradável de adesão, entusiasmo e capacidade de adaptação!

E know-how específico sobre redes sociais e sobre o digital em geral? Nesta fase em que muitos de nós vimos “o normal” interrompido, por que não ir à nossa rede de contactos e procurar?

Se bem o pensamos, rapidamente o colocamos em prática. A Sónia foi a escolhida!

A mudança

Em menos de uma semana as condições foram reunidas, todos estavam motivados e empolgados com este desafio.

A partir daqui havia que marcar o ritmo, definir responsabilidades, fazer acontecer, e acima de tudo não deixar reduzir o entusiasmo. Foram várias reuniões via Skype com uma equipa em que alguns nunca tinham utilizado esta ferramenta, foram muitos telefonemas, muitos emails, mensagens, whatsApp, muitas horas de trabalho!

Uma semana depois (no início de abril para estar pronta antes da Páscoa) saía a primeira newsletter comunicando aos consumidores: os produtos sabores altaneiros que estavam disponíveis e podiam agora chegar a qualquer cliente, em qualquer ponto do País!

A segunda fase foi anda mais intensa: utilizar a rede de contactos para divulgar, convencer… vender!

Só que, paralelamente, havia toda uma atividade a manter e mais desafios a vencer:
– nos rebanhos, garantir a alimentação e tratamento das cabras bem como o escoamento do leite;

– nos produtos regionais a continuação da revenda do queijo (num mercado quase parado) pois não há capacidade ilimitada de armazenagem e se não conseguimos armazenar, é preferível não produzir e consequentemente a melhor opção pode ser não recolher o leite;

– a manutenção do skiparque: na primavera o trabalho é a dobrar.

E tudo isto praticamente sem receitas (e com a necessidade de pagar aos colaboradores), com a adaptação a uma nova realidade, a não admitir a desmobilização da equipa… à distância (eu tenho estado sempre em Lisboa).

Muitos telefonemas, muitos mails, vários “skypes” mas chegamos aqui (ainda) vivos e a respirar bem.

Os resultados

Felizmente as vendas começaram a acontecer a um bom ritmo, o Facebook passou a ter muitos mais seguidores, a notoriedade aumentou, as iterações foram crescendo…

Aí apareceu um novo desafio: o dar resposta às solicitações, o fazer chegar em tempo.

Este desafio fez-nos ver várias coisas:

  • É nos momentos difíceis que se vê o verdadeiro valor das pessoas; vi isso na equipa e na capacidade de adaptação que evidenciou. Para quem pouco mais sabia do que atender público, foi uma verdadeira descoberta: aprenderam a gerir as redes sociais, participaram na definição da estratégia a seguir nos preços, na embalagem, na comunicação, nos melhores caminhos a trilhar e tudo isto utilizando ferramentas novas e sem horários nem fins de semana.
  • É perante os maiores desafios que por vezes encontramos as melhores oportunidades: há que arriscar!
  • Identificar a oportunidade, planear convenientemente, mobilizar e envolver a equipa no projeto dando feedback sistemático do que vai acontecendo. Estes são princípios a aplicar em todas as circunstâncias, mas mais ainda em projetos desafiantes.

O futuro

Chegados aqui, acreditamos que vamos conseguir ultrapassar este desafio com distinção, vamos manter a equipa… e motivada. Poderemos ter conseguido encontrar uma nova via de desenvolvimento da atividade, que doutra forma provavelmente íamos adiar. Mas acima de tudo ganhamos uma equipa, dotamos essa equipa de mais competências e enriquecemos a empresa com conhecimento.

No resto da atividade acreditamos que a crise vai passar, vai deixar marcas, vai trazer mudanças mas para nós, a grande mudança esteve na oportunidade que aproveitamos; no restante, esperamos um verão ativo na praia fluvial do Skiparque, temos muita incerteza sobre o que acontecerá em Tróia, e sabemos que se vai manter um crescimento na produção do leite que os rebanhos geram.

Uma nota final: temos feito inquérito de satisfação a todos os que encomendaram produtos na loja. Avaliamos os items: “como classifica a experiência de compra”, “como avalia o tempo decorrido desde o momento da encomenda até à entrega”, “como classifica a qualidade dos produtos”, e “recomendaria a um amigo?” As avaliações destes temas numa escala de 1 a 4 foi em todas 4. 100% de satisfação. Parece que estamos no bom caminho.


Por
Luís Marques, diretor geral do Grupo Sabores Altaneiros

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