Durante quase duas décadas, a narrativa parecia estar fechada: as empresas nativas da cloud iam engolir o mercado do software empresarial, deixando para trás os velhos colossos. A Salesforce, a Workday ou a ServiceNow tornaram-se símbolos de um futuro digital mais leve, flexível e escalável. Os incumbentes, Oracle e SAP à cabeça, eram tratados como […]
Durante quase duas décadas, a narrativa parecia estar fechada: as empresas nativas da cloud iam engolir o mercado do software empresarial, deixando para trás os velhos colossos. A Salesforce, a Workday ou a ServiceNow tornaram-se símbolos de um futuro digital mais leve, flexível e escalável. Os incumbentes, Oracle e SAP à cabeça, eram tratados como dinossauros, presos a modelos de licenciamento perpétuo e a infraestruturas próprias.
Em 2025, o enredo mudou. Um artigo da Schroders mostra como a distância encolheu e os gigantes tradicionais voltaram a crescer com força. Mais do que sobreviventes, a Oracle e a SAP reaparecem como players competitivos na cloud — e isso tem consequências para o setor, para os clientes e para os investidores.
Um setor definido pela obsolescência
A tecnologia vive de ciclos curtos e rupturas súbitas. O vinil cedeu aos CDs, que foram engolidos pelos MP3, até serem substituídos pelo streaming. A linha fixa foi esmagada pelos telemóveis, e estes transformaram-se em smartphones. O software empresarial seguiu a mesma lógica: os data centres próprios e as licenças caras deram lugar ao SaaS, com pagamento por subscrição e acesso remoto pela internet.
As vantagens dos novos players eram óbvias: custos iniciais mais baixos, rapidez na implementação e externalização da complexidade técnica. Assim, o resultado foi um crescimento explosivo, valorizações premium em bolsa e uma convicção quase dogmática de que este seria o único modelo de futuro.
O contra-ataque dos gigantes
No entanto, a história mostrou-se mais sinuosa. Tanto a SAP como a Oracle não ficaram paradas. Em silêncio, reestruturaram-se.
SAP: transferiu a sua principal suite de ERP para um modelo cloud-first, expandiu agressivamente a oferta de SaaS e adquiriu ativos estratégicos para complementar o portefólio.
Oracle: reconstruiu a base de dados e o ecossistema de aplicações para a cloud e investiu fortemente em infraestrutura, com centros de dados capazes de rivalizar com hyperscalers globais.
Hoje, ambas apresentam taxas de crescimento em cloud comparáveis — e em alguns casos superiores — às empresas que outrora as ameaçaram. A sua vantagem? Relações duradouras com clientes, barreiras elevadas à mudança e uma capacidade de execução que tinha sido subestimada.
Mercado e investimento: onde está a oportunidade
Segundo dados da Bloomberg (julho 2025), tanto a Oracle como a SAP estão a registar crescimento robusto em cloud, reduzindo significativamente a diferença face às líderes SaaS. Esta viragem é especialmente relevante para investidores globais:
Durabilidade dos fluxos de receita: ao contrário de startups, estas empresas possuem bases de clientes fiéis e contratos de longa duração, o que assegura previsibilidade.
Elevadas barreiras à entrada: mudar de ERP ou de base de dados implica custos elevados e riscos operacionais que travam a rotatividade.
Capacidade de adaptação: a migração para modelos cloud-first prova que os incumbentes têm resiliência estratégica.
Para equipas de investimento ativas, este desalinhamento entre a narrativa dominante (‘estão ultrapassados’) e os números reais cria oportunidades. A filosofia do growth gap, que compara expectativas de mercado com potencial de crescimento efetivo, mostra aqui todo o seu valor.
O instinto em tempos de disrupção é apostar cegamente nos recém-chegados. Mas o caso da SAP e da Oracle lembra que nem todos os impérios estão condenados a cair. Tal como aconteceu noutras indústrias — da música ao retalho —, os incumbentes que conseguem adaptar-se podem regressar reforçados.
No software empresarial, este regresso ganha ainda mais peso porque se trata de um mercado com margens altas, fidelização extrema e relevância crítica para a operação das empresas. Perder quota é doloroso, mas recuperar espaço é possível quando se tem escala global, músculo financeiro e a capacidade de investir em inovação.
O futuro é híbrido: SAP e Oracle na cloud
Em suma, o enredo da cloud não é linear. Os disruptores já não têm o monopólio da inovação e os principais titulares da velha-guarda provaram que conseguem reinventar-se. A cloud continua a ser o motor de transformação digital, mas o jogo não é de soma zero.
Hoje, Oracle e SAP mostram que o futuro será híbrido: modelos SaaS a crescer, mas sustentados por ecossistemas robustos, construídos ao longo de décadas. Para investidores, este contra-ataque dos gigantes é um lembrete valioso: o mercado pode subestimar quem parece envelhecido, mas ignorá-los é um erro estratégico.


