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Home Opinião O maior fracasso da morte: porque o amor permanece onde a morte já não consegue entrar

Opinião

O maior fracasso da morte: porque o amor permanece onde a morte já não consegue entrar

Miguel Major

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28 Julho, 2026 | 7 minutos de leitura

Há doenças que pertencem ao corpo e há doenças que alteram a própria arquitetura do ser. O cancro nunca começa na célula onde a medicina o descobre; começa no instante em que o futuro deixa de ser uma certeza silenciosa para se transformar numa hipótese frágil.

É aí que verdadeiramente adoecemos. Quase quarenta anos depois de acreditar encerrada essa antiga batalha, voltei a conviver tão de perto com esta doença que senti voltar a adormecer com ela, deixando a sensação carnal dos químicos invadir-me lentamente as veias, enquanto o ruído do silêncio dos gabinetes médicos despertava uma memória que eu julgava adormecida. Não porque tenha voltado a viver a doença no meu corpo, mas porque a vivi ao lado do João, acompanhando a tristeza desta sentença tão injusta e tão cruel. Foi então que compreendi uma das mais cruéis ironias da condição humana, o tempo nunca apaga aquilo que a alma escreveu com sangue. Podemos envelhecer, construir uma família, conhecer o amor, criar filhos, escrever livros, aprender a sorrir de novo, mas existe um lugar secreto onde o medo permanece jovem para sempre. Bastou fechar os olhos para deixar de ser o homem que hoje sou e regressar ao rapaz que, aos dezasseis anos, ouvira pela primeira vez uma palavra capaz de dividir uma vida em duas metades. Dizem que sobreviver é vencer. Talvez não. Sobreviver é aceitar que nunca mais voltaremos a ser completamente inocentes. Há uma parte de nós que permanece para sempre sentada na sala de espera de um hospital, olhando para uma porta que demora demasiado tempo a abrir.

Existe uma forma de luto de que raramente falamos. Não é o luto pelos que morrem. É o luto por nós próprios enquanto ainda respiramos. O cancro obriga-nos a despedirmo-nos da pessoa que acreditávamos vir a ser. Rouba-nos, antes de tudo, a ilusão da continuidade. De repente, deixamos de pensar nos anos e começamos a pensar nos instantes, deixamos de planear décadas e passamos a agradecer as manhãs, deixamos de perguntar “O que farei amanhã?” para perguntarmos, quase em silêncio: “Haverá amanhã?”. E, quando somos pais, essa pergunta deixa de nos pertencer apenas a nós. Já não receamos apenas a nossa ausência, receamos todas as ausências que a nossa ausência produziria. Vi os rostos dos meus filhos antes de ver o meu. Pensei nas palavras que talvez nunca lhes dissesse, nos abraços que poderiam ficar por dar, nas pequenas banalidades da vida quotidiana que apenas descobrimos extraordinárias quando a possibilidade de as perder nos visita. Nesse instante compreendi que a morte nunca nos assusta por causa do fim. Assusta-nos por causa don amor. Ninguém teme verdadeiramente deixar de existir, teme deixar órfãos aqueles que ainda precisava de amar. As estatísticas tranquilizam a razão, mas o coração nunca vive por percentagens. Quem atravessa um serviço de oncologia sabe que cada número esconde um universo irrepetível, uma mesa onde poderá faltar alguém, um quarto que nunca mais voltará a ouvir determinada gargalhada. A medicina combate tumores, o sofrimento continua a chamar-se João, Isabel, Simão, Maria. Continua a ter um nome próprio.

Foi na CUF Infante Santo que reaprendi a gramática da esperança. Nunca esquecerei o meu pai a entrar com jornais, livros e revistas debaixo do braço, convencido de que estava apenas a ocupar o tempo de um filho internado, quando, na verdade, me ensinava que a inteligência também pode ser uma forma de resistência. Cada página lida era um pequeno ato de insubmissão contra a doença, uma declaração silenciosa de que eu ainda pertencia ao mundo dos vivos. Esperava pela mão da minha mãe Sofia, do meu irmão Pedro, da minha irmã Carlinha e dos amigos com uma intensidade que só quem conheceu um hospital compreende. E, contudo, existia sempre uma estranha transparência entre nós, como se a doença inventasse um vidro invisível que o amor procurava atravessar sem nunca desistir. Ainda hoje recordo os corredores onde dezenas de doentes partilhavam um silêncio mais eloquente do que qualquer discurso. Havia olhares onde coexistiam, sem se destruírem, o terror e a esperança, a resignação e a coragem, a revolta e a fé. Falávamos pouco porque pertencíamos à mesma língua. A língua dos frágeis. A língua daqueles que descobriram que a vida não é um direito adquirido, mas um milagre quotidiano. Sempre que saía daquele lugar sentia vergonha das reclamações inúteis que fazemos cá fora, das guerras de vaidade, da soberba com que desperdiçamos dias inteiros em conflitos sem substância. Um hospital oncológico é uma universidade onde a condição humana ensina sem necessidade de professores.

Hoje sei que nunca foram apenas os médicos e enfermeiros que me salvaram,  embora lhes deva uma gratidão impossível de escrever. Salvou me uma civilização inteira de pequenos gestos de amor. Salvou-me a mão do meu pai a apertar a minha quando julgava que eu dormia. Salvou-me o sorriso impossível da minha mãe, construído sobre lágrimas que escondia para que eu pudesse continuar a acreditar. Salvou-me a coragem silenciosa dos meus irmãos, que aprenderam a sofrer sem fazer do sofrimento um espetáculo. Salvou-me cada profissional de saúde que compreendeu que cuidar não consiste apenas em prolongar vidas, mas em proteger a dignidade de quem atravessa o vale mais escuro da existência. Foi então que percebi que o amor não é um sentimento. É uma categoria metafísica. É a única realidade que continua inteira quando todas as outras desabam. Nem sempre impede a morte, seria intelectualmente desonesto afirmá-lo, mas impede sempre que a morte tenha a última palavra. Porque a morte consegue interromper um coração, nunca conseguiu interromper o amor que esse coração ensinou os outros a sentir.

É por isso que escrevo hoje com o meu primo João sentado invisivelmente ao meu lado. Escrevo porque existem presenças que recusam obedecer ao desaparecimento. Escrevo para a minha prima Isabel, para o Simão e para a Maria, sabendo que nenhuma obra literária alguma vez devolverá um marido ou um pai. Há dores perante as quais toda a filosofia se ajoelha e toda a linguagem reconhece a sua insuficiência. Ainda assim, acredito que escrever continua a ser uma forma de amar. Talvez a mais humilde de todas. Porque cada palavra verdadeira prolonga um pouco a existência daqueles que partiram. Hoje acredito que a eternidade não começa depois da morte. Começa quando alguém vive de tal maneira que continua a transformar a vida dos outros mesmo depois de deixar de respirar. O cancro pode devastar a carne, empobrecer o tempo, roubar futuros e gravar cicatrizes que nenhum espelho conseguirá esconder. Mas existe um território onde permanece absolutamente impotente. Nunca conseguiu entrar no lugar onde o amor guarda os seus mortos. E, enquanto existir um filho que pronuncie o nome do pai com ternura, uma mulher que continue a conversar em silêncio com o homem que perdeu, um primo que escreva para que outro nunca seja esquecido, ou um doente que encontre esperança na história de outro doente, a morte continuará condenada ao seu maior fracasso… descobrir
que venceu um corpo, mas nunca conseguiu conquistar uma alma.

Para o João.

Miguel de Sousa Major,
Co-Founder Partner Feel the Life Consulting Ltd

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