O meu ditador é melhor que o teu

Uma das facetas mais curiosas da vida política é a forma como se aplicam diferentes pesos e medidas em nome do pragmatismo. O pragmatismo é uma importante corrente filosófica cujo prestígio é amplamente torpedeado em nome da justificação de decisões dificilmente justificáveis. Um bom exemplo é o da defesa de ditadores; ou melhor, dos nossos ditadores.

Ilustrativamente, os EUA têm defendido o regime saudita e atacado o iraniano. É duvidoso que aquele seja melhor que este mas, cá está, o nosso ditador é ditador mas é nosso. Agora é o PCP que, a avaliar por uma curiosa chamada na primeira página do Expresso, veio criticar a “postura irresponsável” do Governo português em relação a Nicolás Maduro, a quem aliás apresenta solidariedade. Cá está, mesmo que seja um ditador, é o nosso ditador. E nestes casos nem sequer há certezas de que se trate de um ditador, mas antes de uma vítima das cabalas do inimigo. Mesmo no caso da Coreia do Norte, o partido continua, pelo que se percebe, a não ter a certeza de que se trate de uma ditadura.

Ou seja, como dizia Sartre, o problema ainda são os outros. E esta é a beleza da democracia: a sua capacidade de colocar na mesma casa grupos que se batem pelas suas causas, sejam elas quais forem, incluindo os respetivos ditadores. Ou melhor, os heróis das suas causas, porque ditadores são os autocratas dos outros.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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