O país que mais piorou

Na crónica anterior ocupei-me do país que mais progrediu, a Lituânia. Nesta, escolho aquele que mais regrediu. Não se trata de nenhum ranking objetivo mas de uma mera escolha subjetiva. Vale o que vale. Vários países seriam claros candidatos, antes de todos o Afeganistão, país que parece condenado a fazer os seus cidadãos sofrer. Para mim, todavia, o país que mais piorou terá sido a Etiópia.

Até há não muito tempo, a Etiópia parecia ter deixado para trás os seus fantasmas. A democracia aparentava fazer o seu caminho, a indústria progredia e empurrava a economia e o primeiro-ministro Abiy Ahmed era agraciado com o Nobel da Paz. Em pouco tempo o homem da paz deu lugar ao senhor da guerra. A guerra civil grassou e a ONU alertou para a violência generalizada que passou a consumir a nação. Em linha com o espírito do tempo, Adis Abeba veio acusar as Nações Unidas de “neocolonialismo”. Esta cortina retórica esconde, porém, uma realidade que volta a associar a Etiópia a memórias que todos gostaríamos de ver ultrapassadas. Nada melhor neste contexto que dar a palavra ao meu amigo etíope Medhanie Gaim, professor na Suécia. Eis as suas palavras:

Tudo começou com uma “operação de aplicação da lei” tendo por alvo um grupo de líderes de topo do Tigré, uma região no norte da Etiópia. A guerra tornou-se uma ameaça existencial quando o primeiro-ministro chamou todos os fisicamente capazes para pegarem em armas e se juntarem à luta. Desde então a guerra arrasta-se há catorze meses, sem fim à vista. Aquele que era considerado um conflito interno evoluiu, envolvendo para lá de todas as tropas  federais e regionais da Etiópia, o exército eritreu, mercenários da Somália e drones de combate dos EAU, da Turquia, da China e do Irão. Todos contra uma região com sete milhões de pessoas.

Como resultado, têm ocorrido inúmeros massacres, violações sob a ameaça das armas, limpeza étnica, fome deliberada e destruição de infraestruturas, que levarão décadas a reconstruir. Mais de 70 000 pessoas cruzaram a fronteira para o Sudão em busca de refúgio, a juntar aos mais de 2,2 milhões de deslocados internos. Antony Blinken, secretário-geral dos EUA, classifica os acontecimentos no Tigré Ocidental como limpeza étnica. A parte do Tigré ilegalmente ocupada tem sido um cenário das maiores atrocidades. Homens foram detidos, assassinados e atirados aos rios ainda vivos, com as mãos atadas. Mulheres foram violadas por bandos.

A catástrofe humanitária de proporções bíblicas tem lugar em frente aos nossos olhos. O governo federal bloqueou fechou o Tigré há mais de um ano, suspendendo todos os serviços essenciais, incluindo a banca, a eletricidade, a internet e as telecomunicações. A ajuda humanitária foi deliberadamente cortada; segundo a WFP, apenas cerca de 10 por cento da ajuda necessária chegou à região.

Em início de junho, o Mark Lowcock, responsável da ONU pela ajuda humanitária confirmou a existência de fome e que a situação poderia piorar significativamente, o que veio a acontecer. Já começámos a ver imagens como as da grande fome etíope dos anos 1980, incluindo as de crianças demasiado subnutridas sequer para conseguirem chorar. Martin Griffiths, também das Nações Unidas, afirmou que a fome é “uma mancha na nossa consciência”. Mais de 90% da população do Tigré está numa situação de emergência crítica. Em junho a UNICEF reportou que 100 mil crianças poderiam sofrer de subnutrição severa nos próximos 12 meses.

Embora esta guerra esteja a decorrer no escuro, escondida da comunidade internacional, existe evidência suficiente que deveria ter conduzido a comunidade internacional à ação. A resposta, todavia, foi um desapontamento, pouco mais que palavras e declarações de preocupação. Tal como no caso do Ruanda ou do genocídio do Darfur o mundo está a assistir a um novo genocídio. Esperando o momento de apresentar condolências e, de novo, voltar a dizer “Nunca mais”.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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