O palimpsesto da liderança

Por estes dias tivemos oportunidade de encontrar, pelas diversas partidas do mundo, evidência da História como palimpsesto, um livro em que cada camada é escrita sobre outras que ficam ocultadas mas que não desaparecem. A China, que vinha fazendo um caminho de abertura, com um crescente soft power, parece ter reencontrado a sua vocação repressiva. A construção de um campo de concentração para uigures é assumida como uma prática “correta”. Muito se fala de esclavagismo ocidental do passado mas pouco se discutem as práticas de escravatura moderna na República Popular. Percebe-se: aqueles que desagradam à China são alvo de, como escrevia o Financial Times, uma diplomacia punitiva (Canadá, Austrália, Alemanha): quem se mete com a China leva! Entretanto a repressão em Hong Kong colocou na prisão Tsz Lin Kok, um jovem estudante da Universidade de Hong Kong, com dupla nacionalidade, chinesa e portuguesa. A lei chinesa amarra muito as possibilidades de ação da diplomacia portuguesa. Mas podemos no mínimo, ficar atentos e protestar.

No Camboja faleceu há poucos dias Kaing Guek Eav aliás Duch, carcereiro de Tuol Sleg, a tenebrosa prisão S-21 do Khmer Vermelho, em Phnom Penh. Tive a oportunidade de visitar este local e de escrever sobre ele. É um sítio tenebroso, onde humanos perderam a humanidade. Curiosamente, os cambojanos libertaram-se de Pol Pot mas são governados por um ex-Khmer Vermelho, Hun Sen, que governa o país com mão de ferro, como se a democracia fosse inviável e o país de Angkor Wat estivesse preso a grilhetas temporais que o amarram ao passado.


Por cá, o lançamento de um livro mais sobre Salazar (“Salazar: A queda de uma cadeira que não existia”, de José António Saraiva, pela Gradiva) traz velhas questões e mostra como a nossa democracia madura continua presa à figura do “Dr. Salazar” e de todos esses chavões que não largamos: a propensão para descortinar “mentalidades fascistas” onde elas não existem, tomar os donos de empresas como parte do “grande capital” – mesmo que disponham de pouco capital – e a descrição de um micro-partido populista como a vanguarda da reação. Assim parece ser o inconsciente das nações: cheio de traumas do passado que persistem sem as largar. Eis o desafio: fazer a catarse e andar para frente, no sentido da melhoria em vez da ruminação coletiva; de usar um caderno novo em vez do palimpsesto do costume.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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