O que os céticos do confinamento não entendem sobre a Suécia

Aqueles que são a favor de uma chamada “estratégia de segmentação”, onde os vulneráveis ​​são protegidos e o resto das pessoas tem permissão para continuar com as suas vidas sem restrições, muitas vezes apontam para o país escandinavo como um exemplo.

“Um olhar sóbrio sobre a Suécia mostra que está longe de ser a grande história de sucesso que alguns desejam desesperadamente que seja”, diz Simon Clarke, professor associado de Microbiologia Celular na Reading University, em Inglaterra, que fez uma análise profunda sobre o caso da Suécia no que diz respeito a estratégias de combate à pandemia.

Os defensores da abordagem sueca apontariam corretamente que, em comparação com o Reino Unido, houve menos mortes por milhão. A estratégia da Suécia também causou menos danos à sua economia do que se tivesse adotado um bloqueio mais rígido. Mas comparar a Suécia com a Grã-Bretanha só faz sentido se acharmos que os britânicos tiveram um bom desempenho nesta pandemia, o que não é verdade. Nem os vizinhos nórdicos da Suécia foram bem-sucedidos: Noruega, Finlândia e Dinamarca.

A Dinamarca sofreu 109 mortes por COVID-19 por milhão de pessoas entre 13 de fevereiro e 19 de setembro. A Suécia perdeu 574 vidas por milhão de pessoas no mesmo período. A COVID custou à Dinamarca 7,4% do PIB no segundo trimestre de 2020. A Suécia sacrificou 8,6% de seu PIB.

Num texto longo para a revista britânica The Spectator, Simon Clarke explica que “a razão pela qual o vírus estava muito mais disseminado no Reino Unido do que na Suécia é porque temos muitos outros estrangeiros visitantes. Londres, em particular, é um importante centro de comércio, negócios, turismo e viagens globais. O Reino Unido teve 36,3 milhões de viajantes internacionais em 2018, em comparação com os 7,4 milhões da Suécia.”

A Suécia tem uma série de outras vantagens inerentes: a densidade populacional é relativamente baixa em comparação com outras nações europeias ricas (a Inglaterra é 17 vezes mais densamente povoada). Enquanto 40% dos lares suecos são solteiros na Inglaterra são apenas 28%. Esses fatores deram à Suécia uma grande vantagem muito antes de o vírus aparecer em seu território. Afinal, as interações interpessoais são o canal de transmissão do vírus: reduza-as e reduzirá o número de infeções.

Os que são a favor da abordagem sueca costumam indicar outro argumento: os suecos estão a viver livremente as suas vidas, por que não podemos imitá-los? Este argumento não resiste a um exame minucioso. As autoridades da Suécia não precisavam mandar as pessoas ficarem em casa para reduzir os seus contactos, os suecos simplesmente fazem isso.

Os dados sobre mobilidade mostram que as populações da Suécia e do Reino Unido reduziram os seus movimentos e interações de forma semelhante no início da pandemia. A diferença? Os britânicos foram obrigados a fazer isso. A questão é saber se isso era realmente necessário. Para responder a essa pergunta, basta olhar para o comportamento britânico nas tendências atuais: não conformidade com as regras de distanciamento social, falta de conformidade quanto ao isolamento e falta de conformidade em torno da quarentena após feriados, para citar apenas alguns exemplos.

O resultado? O Serviço Nacional de Saúde britânico está a pensar seriamente na possibilidade de ficar sem camas hospitalares antes do Natal.

Ao contrário do Reino Unido e de muitos outros países, estas não são decisões políticas. A agência de saúde pública da Suécia, Folkhälsomyndigheten, está no comando. Os epidemiologistas do estado aconselharam o público a evitar viagens não essenciais, a trabalhar de casa sempre que possível e evitar visitar os idosos em hospitais ou lares de idosos. E os suecos, em geral, obedeceram como cidadãos diligentes. As vendas de ingressos na operadora ferroviária nacional caíram 77% e a indústria do turismo sofreu um golpe substancial. As idas aos cinemas pararam quase completamente. Na verdade, a Filmstaden, a maior rede de casas de cinema da Suécia, fechou voluntariamente por causa da falta de clientes.

Há uma coisa que o Reino Unido devia ter feito: manter as escolas abertas para crianças menores de 15 anos. Há muito poucas evidências de que as crianças dessa idade sejam motores da propagação do coronavírus, algo que não pode ser dito sobre os seus irmãos mais velhos. Quando isso foi decidido, foi feito na ausência de qualquer evidência sobre se as crianças eram propagadoras tal como o são para a gripe. A Suécia fez uma grande aposta na vida das pessoas, mas valeu a pena.

Também é um erro pensar que os suecos assumem a responsabilidade cívica sem qualquer ameaça de punição se não o fizerem. Por exemplo, quem dirige bares, cafés ou restaurantes é responsável pelo distanciamento social dentro de suas instalações, assim como os proprietários britânicos. Mas na Suécia também são responsáveis ​​pelo que acontece lá fora. “Imagine os gritos de indignação se as empresas fossem fechadas no Reino Unido por não conseguirem controlar seus clientes.”

Outra reclamação frequente é que a Suécia é menos restritiva quando se trata de reuniões públicas, inicialmente limitando-as a 500, mas posteriormente reduzindo-as a um máximo de 50 (um reconhecimento tácito do papel que tais eventos desempenham na condução de infeções). A “regra dos seis” da Inglaterra recentemente substituiu o limite de 30, mas, ao contrário da Suécia, nunca foi preciso pedi uma licença à polícia.

Na Suécia, pedir uma licença custa cerca de 30 euros e não há garantia de obtê-la. Embora seja verdade que esse limite não se aplica a eventos privados, nenhuma casa de culto na Grã-Bretanha teve que se explicar junto da polícia local antes de abrir as suas portas; eles precisam ser protegidos da COVID é claro, mas o mesmo acontece com qualquer local de trabalho ou empresa.

Este tipo de supervisão estatal na Suécia parece ser convenientemente esquecido. E não são apenas reuniões organizadas que ficam sob o olhar atento das autoridades. Em abril, em Lund, o conselho local espalhou estrume de galinha num parque público na esperança de que o cheiro impedisse as pessoas de se reunirem para celebrar a noite de Saint Walpurgis. Imagine a repulsa e a indignação se uma autoridade local fizesse algo semelhante na Grã-Bretanha.

Embora as liberdades dos suecos não tenham sido infringidas na mesma medida que noutros países durante os meses de abril e maio, a noção cada vez mais popular de que a vida naquele país continuava normalmente é um absurdo. Adotar o modelo sueco parece ter-se tornado um código para não fazer nada, mas há cerca de duas semanas 170 000 cidadãos em Uppsala, perto de Estocolmo, foram convidados a trabalhar em casa, evitar reuniões sociais, contacto físico e transporte público. O governo sueco está claramente preocupado caso contrário não estaria a agir da forma como está.

Também se tornou popular falar sobre imunidade coletiva quando se fala da Suécia. Ago que, segundo o autor, “é intelectualmente desonesto, pois as autoridades de saúde suecas negaram categoricamente que essa fosse a sua estratégia.”

Na verdade, o epidemiologista estatal da Suécia, Anders Tegnell, alertou que perseguir a imunidade coletiva é “fútil e imoral” sem uma vacina. Ele não está errado. Basta olhar para a Itália: a Lombardia, que foi a área mais atingida em março, está a sofrer severamente mais uma vez. O conjunto de evidências de que a prevalência de anticorpos diminui ao longo do tempo é regularmente contestado.

Aqueles que defendem a imunidade coletiva querem que as pessoas pensem que esse pode ser o caminho para sair da crise pandémica quando, na verdade, é mais provável que prolongue o pesadelo.

Este não é o momento para discussões académicas sobre a Suécia – é hora de agir. As diferenças visíveis na primavera – fotos de crianças a irem para a escola e pessoas em restaurantes e bares – convenceu libertários frustrados de que as escolhas da Suécia foram todas melhores do que as de outros países.

“Os suecos têm uma reputação merecida de bom design, mas não têm o monopólio da sabedoria.” As diferenças nacionais exigem diferentes estratégias nacionais e não há uma solução simples e de baixo custo para as dificuldades desta crise que vivemos, conclui o professor de Microbiologia Celular.

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