O que se segue na transformação digital?

Estávamos conscientes da transformação digital que estava para chegar, só não se esperava que acontecesse tão cedo.

Para os que leram sobre o assunto, que visitaram a Singularity University em Sillicon Valley, ou frequentaram os cursos de Michael Wade no IMD, para os que tiveram uma maior perceção e deram mais atenção a este fenómeno, isto que escrevo será apenas o constatar de aquilo já previsto, com alguma antecedência.

Falava-se que o limite para essa transformação seria 2025, para os mais otimistas, ou 2030 para os mais tradicionais.

Sabia-se que muitas funções, iriam desaparecer ou ser transformadas e automatizadas. A pandemia tem acelerado todo esse processo, como já se percebeu. Os líderes, logo que possam começar a tomar decisões vão começar a atuar, irão pegar nas ferramentas que possam ter ao nível do advisory, dos consultores de transformação digital, e dos tecnólogos, as pessoas que os podem ajudar a desenvolver soluções tecnológicas para a otimização dos seus negócios, passando pela robotização e digitalização.

Mas voltando um pouco atrás, a um panorama geral dos negócios, podemos considerar dois grandes grupos, o dos sectores de negócio que vão automaticamente crescer, impulsionados por esta transformação digital, e o daqueles que crescerão e sobreviverão se souberem operar a sua transformação.

Nos primeiros, vamos ter à cabeça as empresas de cibersegurança, as empresas de consultoria tecnológica, com “exércitos” de developers a trabalhar em desenvolvimento tecnológico, todos os que podem dar apoio estratégico, isto é, os consultores dessa área na transformação, e, claro, o mundo do retalho em geral e do comércio que será cada vez mais online. As empresas deste sector enfrentam agora a necessidade de estarem muito melhor preparadas para dar resposta às necessidades dos consumidores, caso contrário ficarão para trás numa corrida de difícil recuperação.

Portanto, esta mudança dos negócios em geral vai ser acelerada por uma “amazonização” de muitas áreas ligadas ao retalho. Pensamento interessante para quem já está nestes negócios e tem que os transformar, mas também evidentemente para aqueles que têm capacidade de investimento ou de reinvestimento e que, no pós-pandemia, poderão por exemplo fazer desaparecer uma área funcional e canalizar o investimento para outras áreas.

Devemos também referir uma área fundamental, a dos serviços financeiros, que tinham já assumido uma desaceleração da sua componente tradicional de comunicação com os clientes e irão agora, seguramente, aproveitar o momento para a criação de linhas de serviço online, sobretudo na banca de retalho e plataformas de seguros.

No setor industrial de manufatura, sabemos que a impressão 3D tem cada vez mais qualidade de execução, pelo que inevitavelmente haverão muitas linhas de montagem a ser transformadas para aplicação desta tecnologia. Isto para além do processo da robotização que será também acelerado porque todos vão usar este momento para, dentro das suas possibilidades financeiras, tentar modernizar e fazer alguma coisa de novo.

Agora pensemos nas pessoas que se situam entre os decisores, os donos ou gestores dos negócios, os C-level, e a base, cada vez mais robotizada, são essas pessoas que durante o pico pandémico foram todas enviadas para casa em regime de teletrabalho. O que se segue para essa franja de colaboradores? Como irão os líderes pensar em relação ao reencaixe, ao futuro dessas pessoas nas organizações?

Eu acredito que os grandes pensamentos estratégicos, que poderíamos até chamar de futuristas vão acontecer já. Acredito que todas essas funções que foram tão facilmente “transportadas” para casa das pessoas porque são absolutamente transacionais, serão substituídas pela tal digitalização, pelo aparecimento da Inteligência Artificial, cada vez mais acelerada e integrada no dia a dia e que irá, portanto, ligar todas as funções transacionais das organizações. Para os líderes é inevitável seguir este caminho, com o respeito que obviamente têm que ter por cada um dos elementos que hoje fazem parte do seu headcount, mas com o foco apontado para o amanhã, porque quem não o fizer acabará, inevitavelmente por desaparecer porque o mundo não pára e é cada vez mais rápido.

As pessoas terão que se reinventar e começar já a pensar no futuro. Aqueles que não se cansam de poder ficar em casa e fazer calmamente as tarefas que anteriormente faziam nos escritórios, devem pensar que provavelmente, no futuro próximo, aquelas tarefas deixarão de ser “humanas”, são demasiado transacionais para continuarem a sobreviver nos moldes actuais.

Desta forma, gostava de pedir a quem leu este meu depoimento que passe a reservar uns minutos do seu dia para pensar como se poderá reinventar e que parte das suas competências profissionais são humanas, emocionais, intuitivas e que estão mais longe de ser substituídas pela Inteligência Artificial e Digitalização.


Por Maria da Glória Ribeiro, managing partner da Amrop em Portugal

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