O que significa ser patriótico 

Há um par de semanas a Dra. Graça Freitas produziu uma curiosa afirmação: criticar os dados da DGS seria antipatriótico. A frase, dita no contexto de um governo diferente, teria gerado tempestades. No mínimo tratar-se-ia de um novo convite à aplicação da lei da rolha. Mas é uma frase interessante porque permite refletir sobre o que significa ser patriota. O tema está, aliás, de certa forma, na ordem do dia por via da publicação de O que é amar um país, de José Tolentino de Mendonça.


Eis então mais uma nota sobre o assunto. Ser patriótico não pode ser calar dúvidas para não desagradar às autoridades. Ser patriótico não obriga a dizer que se gosta mais de Ronaldo que de Messi. Que o que é português é bom só por ser português. Que Portugal é melhor que os outros ou que os portugueses são um povo de eleitos.

Ser patriótico é considerar que as autoridades e o Estado existem para servir o país. Que devemos pensar pela nossa cabeça. Que temos o dever de ser exigentes – com os outros mas também connosco. Que o que é português não é pior só por ser português. Que Portugal inclui muitos portugais incluindo o dos emigrantes e o dos imigrantes. E que no país cabem aqueles que o acham o melhor, mas também os que o consideram o pior país do mundo. Se ser patriótico é querer o melhor para Portugal e para o resto do mundo, então usemos a energia de uns e dos outros para melhorar o bocado do mundo que calhou ser a nossa casa, assumindo o bom e o mau – para melhorar. Assumindo e aceitando que, às vezes, ser antipatriótico também pode ser uma forma de patriotismo.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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