O saber fazer que nos permite habitar poeticamente a Terra

A técnica é vista pela filosofia como um “saber fazer, um saber que visa a fabricação, a produção de objetos. A técnica é essencial à poiesis, à fabricação. Não são a mesma coisa, são distintas, mas estão implicadas. Não há fabricação sem saber fazer, sem conhecimento.

Para Heidegger este saber fazer é entendido como um “deixar aparecer”, que tem subjacente uma relação harmoniosa com a natureza. A técnica é vista aqui como uma permissão para deixar desvelar. Esse deixar desvelar seria a forma de o homem habitar poeticamente a Terra. Esta maneira de ver a técnica aproximava Heidegger da cultura grega pela forma como estes respeitavam a natureza e a sua beleza. Não era, contudo, esta a posição de Hannah Arendt que considerava que os gregos, nesta contemplação extrema do belo, esqueciam muitas vezes o artesão, o trabalhador que estava na origem das obras de arte que eles apreciavam esquecendo a sua origem, as mãos de quem as fazia.

Arendt está mais alinhada com os romanos pela forma como estes elogiavam a cultura, sendo o próprio termo de origem romana, tendo implícita a ideia de cuidar, colher, preservar. Os romanos tinham uma relação afetuosa com a natureza e não dominadora, por isso, na opinião da autora teriam sido eles os primeiros a habitarem poeticamente a Terra, e não os gregos como defendera Heidegger.

A técnica, o saber fazer que está implicado na fabricação é o que permite que se habite poeticamente a Terra, ou seja, respeitando-a, tirando dela apenas o que esta nos pode dar.

Por isso mesmo, a técnica e o saber fazer, ajudados agora pela tecnologia, não nos poderão levar, ao invés deste habitar poético, a uma certa alienação, conceito que também nos é trazido por Hannah Arendt para falar da ilusão do Homem poder abandonar a sua morada original: a Terra. Esta ambição parece mostrar um certo alheamento que, por seu turno, se alimenta de uma outra ilusão, a da libertação. Ou seja, fugir da Terra para chegar a um universo de infinitas possibilidades, para se libertar eventualmente de um mundo que já não lhe serve. Há em tudo isto um grande paradoxo: reparemos na incongruência desta ideia de habitar poeticamente a Terra, único lugar que temos como certo para vivermos, com a vontade desenfreada de produzir e consumir produtos de grande obsolescência (*não sei se tudo terá começado com Karl Marx e a sua visão do trabalho) e com a vontade de habitar um espaço onde não temos quaisquer condições naturais de sobrevivência. O espaço, e outros planetas, são agora o grande desafio da humanidade. Não sabendo nós habitar poeticamente a Terra, saberemos um dia habitar poeticamente algum local?

*Para Karl Marx o trabalho era sinónimo de consumo, no caso, de consumo produtivo. O consumo produtivo era aquele que transformava os materiais com vista à fabricação de alguma coisa que tivesse um valor superior, este tipo de consumo contrapunha-se ao consumo individual e improdutivo que tinha apenas em vista a subsistência do trabalhador através do consumo de bens de primeira necessidade que adquiria com o salário que lhe era pago pelo detentor do capital, o capitalista, este que também consumia individualmente com base no resultado do que obtinha da valorização dos bens levada a cabo pelo trabalhador.


Por Catarina G. Barosa, Diretora Editorial da Tema Central

Editorial publicado na edição de primavera da revista Líder.

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