O trabalho dá saúde?

O trabalho dá saúde às pessoas que exercem funções com significado, fazem uso das suas potencialidades, são tratadas como adultas, auferem salários dignos e operam num quadro social que, além de competitivo, é também cooperativo. Mas o trabalho pode também ser uma fonte de sofrimento. O excesso de horas de trabalho, acompanhado de stresse, está na origem de muitos problemas de saúde física e mental. Igualmente perverso é o trabalho realizado em ambientes tóxicos – nos quais imperam a desconfiança, o abuso, o bullying e o assédio, seja este sexual ou moral. Algum trabalho mata – literalmente. Particularmente perigoso é o trabalho liderado por chefias tóxicas e destrutivas, por vezes psicopatas.

A investigação levada a cabo por uma equipa liderada por Jeffrey Pfeffer, da Universidade de Stanford, é elucidativa. O livro “Dying for a paycheck” – ou seja, morrendo por um salário – merece ser lido. Nesse e noutros trabalhos, Pfeffer critica a ênfase desequilibrada que tem sido concedida à responsabilidade social das empresas na esfera ambiental, ao mesmo tempo que descuram a responsabilidade perante a saúde física e mental dos trabalhadores. Algumas empresas procuram destaque associando-se a medidas que, alegadamente, visam salvar o planeta – ao mesmo tempo que praticam a indignidade sobre os trabalhadores, submetem-nos a horários e ritmos de trabalho excessivos, sujeitam-nos à extrema competição que descura os laços sociais, ou negligenciam as dificuldades que os trabalhadores experimentam para conciliar os afazeres profissionais com os familiares.

A parte porventura mais sólida do trabalho de investigação da equipa de Pfeffer incide sobre a mortalidade (sim, mortalidade) e os problemas de saúde gerados por algumas práticas organizacionais. Assente num grande volume de dados, a pesquisa dá conta de que algumas dessas práticas e decisões organizacionais são mais perversas para a saúde e a vida do que o fumo passivo. Os dados reportam à realidade norte-americana, mas facilmente se compreende a sua aplicabilidade a outros contextos. Importa, pois, mencionar essas práticas para que se compreenda a necessidade de as empresas fazerem realmente jus ao que apregoam (e nem sempre praticam) para conquistarem reputação de empresas socialmente responsáveis. Eis as ditas práticas e atributos: insegurança no posto de trabalho, elevadas exigências e pressões no trabalho, conflito trabalho-família, escassa autonomia e fraco sentido de controlo dos trabalhadores sobre as tarefas realizadas, excesso de horas de trabalho, trabalho por turnos, escassez de apoio social-relacional recebido na organização, e injustiças. O desemprego, assim como a ausência de seguro de saúde, foram também identificados como nocivos para a saúde e a vida das pessoas.

Pelo exposto se compreende a importância das práticas de liderança. Esforços devem continuar a ser feitos para que o mundo organizacional seja um espaço de civilidade – sem ingenuidades celestiais, mas civilizado. O empreendimento não é, todavia, uma responsabilidade exclusiva dos “outros”. Por vezes, são os próprios trabalhadores, especialmente os mais qualificados e com carreiras mais desafiantes, que se deixam seduzir, ou simplesmente, inebriar por ambientes organizacionais tóxicos. O receio de parecer fraco, a busca de prestígio associado à pertença a uma organização famosa, e o acesso a abundantes recursos e benesses materiais estão entre as razões para permanecer em locais de trabalho tóxicos, numa espécie de autoflagelação.

Pffefer é especialmente cáustico quando dá conta de que, contrariamente ao que frequentemente se presume, essas atmosferas insalubres não contribuem para o desempenho económico-financeiro das empresas, pelo menos no médio/longo prazo. Essas práticas e esses ambientes continuam a ser praticados como consequência do contágio, da imitação – ou, simplesmente, devido ao fenómeno da normalização do desvio. Quando práticas estranhas, esquisitas e perversas campeiam (sobretudo em organizações de gabarito  e implementadas por gestores “de sucesso”), essas práticas passam a ser consideradas normais, e quem as questiona é que é considerado “desviante”.

Esta é mais uma razão para que os académicos e as universidades continuem a exercer o seu papel crítico e a prosseguir a sua missão de criar conhecimento e contribuir para o progresso das sociedades. Dos académicos, inclusive dos que atuam nas áreas da gestão e dos negócios, espera-se que sejam agentes reflexivos, amantes do conhecimento e da verdade. Esse desafio pode requerer que sejam, em algumas matérias, impopulares e capazes de remar contra a corrente. É nessas circunstâncias que a acusação de que “é muito académico” pode representar um elogio.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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