O trabalho para lá da pandemia

Nos últimos meses temos andado, todos, concentrados na pandemia. Faz sentido. Mas importa considerar o futuro para lá da chamada crise pandémica. Porque o mundo do trabalho estava a mudar e a pandemia vai possivelmente acelerar a mudança. Vejamos então: a transformação digital está em curso. A pandemia não a parou. Tê-la-á acelerado porque mostrou que muitos dos nossos hábitos de trabalho não são mais que rotinas baseadas na tradição. Quando estudei em Tilburg, em meados dos anos 90, um colega de doutoramento fazia a sua tese sobre teletrabalho. Veja-se o pouco que aconteceu em décadas.

A pandemia forçou o teletrabalho e todos percebemos que o mundo organizacional não colapsou – pelo menos por essa razão. Também todos percebemos que esse mundo estava a mudar – e estão aí dois livros importantes de Daniel Susskind a discuti-lo, Um Mundo sem Trabalho (Ideias de Ler) e O Futuro das Profissões (Gradiva). No novo mundo ocupacional, não apenas as pessoas vão poder trabalhar remotamente, como muitas tarefas (embora não necessariamente postos de trabalho inteiros) vão ser automatizadas. Essa automação vai retirar trabalhadores do mercado laboral.

A pandemia e estas mudanças são o contexto perfeito para ensaiar o futuro. Por exemplo, pessoas das artes que ficaram sem trabalho por força da lei, devem receber um rendimento universal. A possibilidade de trabalho remoto pode/deve ser usada para atrair os novos nómadas digitais de todo o mundo. A requalificação deve começar em força. O controlo algorítmico deve ser alvo de legislação. Enfim, em vez de esperar que passe a pandemia para voltar tudo ao normal, temos uma oportunidade para mudar um conjunto de coisas. Se não aproveitarmos a oportunidade, alguém o fará. A Estónia por exemplo, já se está a mexer-se há tempos. Por cá podemos ficar a olhar ou podemos tentar mudar. Cabe-nos escolher.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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