O turismo doméstico chinês começa a recuperar, diz estudo da Fidelity

Na China, na sequência do levantamento do bloqueio por causa da pandemia, no feriado do dia 1 de maio uma média diária de 23 milhões de pessoas fez viagens domésticas. Apesar do fluxo de turistas internos, registou-se uma queda de cerca de metade em relação ao mesmo período de 2019, segundo o Ministério da Cultura e Turismo da China.

Contudo, é uma grande melhoria em relação a fevereiro e março, altura em que a maior parte da China foi bloqueada devido ao coronavírus. Mesmo algumas semanas antes, no fim de semana grande de três dias no início de abril registaram-se apenas 14 milhões de viajantes domésticos diários.

As viagens internacionais continuam a não ser possíveis de fazer, mas o turismo interno chinês começa gradualmente a recuperar. “Para muitas pessoas viajar é uma forma de aliviar o stress e a frustração que se acumulou por causa do confinamento”, diz Ke Tang, analista de crédito sénior da Fidelity, consultora em investimentos e soluções para a reforma.


Contudo, os viajantes não estão prontos para gastar muito dinheiro. O turista médio gastou cerca de 58 dólares por dia em maio, caindo 31% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Cultura e Turismo chinês. Ainda assim, o gasto per capita é mais do que o dobro do que foi gasto no fim de semana alargado de 4 a 6 de abril.

A Fidelity fez uma análise do setor do Turismo e Hotelaria na China que aqui lhe deixamos.

Transporte aéreo e ferroviário em recuperação

Enquanto muitas empresas de aviação pelo mundo continuam paradas, as companhias aéreas comerciais da China estão a tentar recuperar. Os passageiros aéreos diários mais do que quadruplicaram desde meados de fevereiro para cerca de 780 mil a 5 de maio, como mostram os dados do Ministério dos Transportes. Também o número de viajantes ferroviários aumentou de menos de um milhão para cerca de seis milhões por dia no mesmo período.

Note-se que as companhias aéreas chinesas retomaram as operações com cerca de 50% da sua capacidade, um valor muito acima dos 10% a 30% de muitos dos seus pares. Financeiramente, também conseguem melhores resultados do que as operadoras comerciais ocidentais – muitas têm de contar com resgates do governo para sobreviver. As grandes companhias aéreas chinesas mostram balanços relativamente fortes, sem problemas imediatos de liquidez – “ter o Estado como acionista maioritário fornece garantias adicionais”, conclui a Fidelity.

Mas ainda há desafios para as companhias aéreas chinesas, apesar da melhoria. Os voos internacionais caíram quase completamente e no mercado interno as viagens de negócios permanecem mínimas. A recuperação da procura permanece lenta, com baixa visibilidade além do curto prazo.

Tendências no Turismo e na Hotelaria

A pandemia reduziu as taxas de ocupação na Hotelaria para um dígito em fevereiro, mas desde essa data voltaram a cerca de 50%. Os hotéis de qualidade média estão melhor do que as unidades de alto e baixo nível. A falta de viajantes de negócios ou internacionais reduziu a procura de hotéis de luxo.


Os consumidores chineses também podem estar a apertar o cinto. As reduções de preços tornaram-se o dia a dia, com algumas propriedades de cinco estrelas em Xangai a oferecer descontos de 50%. Os hotéis mais baratos, por outro lado, têm tido dificuldades devido à ideia do senso comum de que podem ser menos limpos.

As reservas de viagens voltaram a cerca de 60% dos níveis normais, embora as empresas de Turismo estejam a dar grandes descontos para manter os negócios em andamento. Por exemplo, o conhecido parque temático Happy Valley de Shenzhen está a oferecer passes anuais por 365 renminbi cada, quando antes um bilhete de visita única custava 220 renminbi.

Os viajantes chineses continuam a preferir viagens de curta distância. Muitos optam por ir de carro por algumas horas a uma cidade vizinha nos fins de semana e onde ficam uma noite – e gastam muito menos do que se fossem mais longe e viajassem de comboio ou avião.

“As pessoas sentem-se aliviadas por terem saído do pior, mas não é realista esperar qualquer recuperação em forma de V”, diz Hyomi Jie, gerente de portefólio da Fidelity. “Podemos ver uma recuperação gradual primeiro no turismo doméstico, seguido de viagens regionais de curta distância, onde o vírus está bem contido. Mas não se consegue antever a normalização das viagens internacionais de longo curso.”

“O que é necessário para que o Turismo da China recupere totalmente?”, pergunta a Fidelity. Vendo o Turismo como parte essencial do consumo doméstico, os políticos chineses lançaram estímulos para apoiar o setor. Os vouchers turísticos estão a ser distribuídos em várias províncias e os viajantes podem usá-los para pagar passeios, refeições e compras. Autoridades da cidade de Huzhou, na província de Zhejiang, no Leste, por exemplo, distribuíram vouchers no valor de mais de 200 milhões de renminbi para turistas desde março.

Mas mais importante, assegura a consultora de investimentos financeiros, é que o ritmo da recuperação dependerá da confiança dos consumidores chineses em relação ao emprego e ao crescimento dos seus rendimentos. “Até agora a China evitou a perda de empregos em larga escala na pandemia, mas resta saber como vai lidar com uma queda da procura global por produtos chineses”, lança a Fidelity para concluir.

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