Apesar das medalhas acumuladas pelas atletas italianas nos Jogos Olímpicos de Inverno, há um dado que pesa mais do que o ouro, a prata ou o bronze: a ausência quase total de mulheres nos lugares de decisão do desporto.
O contraste, descrito numa recente reportagem da Reuters, expõe aquilo que várias dirigentes já apelidam de ‘ice ceiling’ — um teto de gelo que não se quebra com pódios. Afinal, onde estão as mulheres na liderança desportiva?
Medalhas no gelo, portas fechadas no poder
Nos últimos ciclos olímpicos, as atletas italianas tornaram-se protagonistas em modalidades de inverno, acumulando resultados históricos e maior visibilidade mediática. No entanto, quando se olha para as estruturas de poder — federações, comités técnicos, direções executivas — o cenário muda drasticamente.
Em Itália, a esmagadora maioria das federações desportivas continua a ser presidida por homens. A percentagem de treinadoras em seleções nacionais permanece residual. Apenas cerca de 7 % dos treinadores das seleções nacionais são mulheres, e quase nenhuma mulher lidera os órgãos máximos das federações desportivas italianas. O sucesso competitivo não se traduziu em poder institucional. A lógica meritocrática invocada no desporto parece não se aplicar quando o assunto é liderança.
O paradoxo é evidente: mulheres elevam o nome do país nos Jogos Olímpicos, mas raramente participam nas decisões estratégicas que moldam o futuro do sistema desportivo.
O padrão repete-se além das pistas e arenas
O fenómeno não é exclusivo do desporto. No mundo empresarial europeu, os números mostram avanços na base, mas resistência no topo.
Em França, por exemplo, as empresas do índice CAC 40 atingiram níveis próximos da paridade nos conselhos de administração — resultado de legislação que impôs quotas de género. Contudo, quando se observa quem ocupa os cargos executivos — presidentes, diretoras-gerais, CEO — a presença feminina diminui drasticamente.
O mesmo padrão verifica-se no Reino Unido, nas empresas do FTSE 350: forte representação feminina nos conselhos, mas uma minoria clara na liderança executiva. No Reino Unido, cerca de 40 % dos cargos em conselhos de administração são ocupados por mulheres, mas apenas cerca de 15 % dos cargos executivos e menos de 10 % dos CEOs são mulheres.
A inclusão existe, mas o poder efetivo continua concentrado.
Porque é que o topo continua inacessível?
Especialistas apontam várias razões estruturais:
Redes informais de poder. A liderança, especialmente em setores tradicionais como o desporto ou as finanças, ainda opera através de círculos fechados e relações de longa data, onde as mulheres historicamente tiveram menos acesso.
Estereótipos persistentes. A associação cultural entre liderança e masculinidade continua a influenciar processos de escolha, mesmo de forma inconsciente.
Percursos profissionais condicionados. Muitas mulheres são canalizadas para áreas de apoio ou funções consideradas ‘menos estratégicas’, o que limita o acesso posterior a cargos executivos.
Impacto da maternidade. A falta de estruturas de apoio — horários flexíveis, licenças equilibradas, cultura organizacional inclusiva — contribui para travagens na progressão de carreira.
O risco de uma igualdade apenas simbólica
O caso do desporto italiano mostra que visibilidade não é sinónimo de poder. A celebração das atletas durante os Jogos Olímpicos pode coexistir com a exclusão das mulheres das salas onde se tomam decisões sobre financiamento, formação ou governação.
Sem mudanças estruturais — nos modelos de seleção, nas regras eleitorais das federações, nas culturas organizacionais — o ‘ice ceiling’ pode tornar-se permanente.
As medalhas brilham durante semanas, mas as estruturas de poder moldam décadas. Se o desporto é frequentemente apresentado como espelho da sociedade, então o reflexo clarifica que as mulheres já provaram que conseguem competir e vencer ao mais alto nível. Depois do pódio, falta a presidência da federação, o cargo executivo, a cadeira onde se decide o futuro.


