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Home Diversidade e Inclusão Notícias Os cérebros que faltam às empresas já estão a redesenhar o trabalho

Diversidade e Inclusão

Os cérebros que faltam às empresas já estão a redesenhar o trabalho

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3 Dezembro, 2025 | 5 minutos de leitura

Existem temas que surgem devagar, quase silenciosos, até ao dia em que deixam de ser evitáveis. A neurodiversidade é um deles. Não se trata de mais um capítulo no manual de recursos humanos, nem de uma tendência simpática para preencher relatórios de sustentabilidade. É uma mudança estrutural na forma como olhamos para talento, inovação e […]

Existem temas que surgem devagar, quase silenciosos, até ao dia em que deixam de ser evitáveis. A neurodiversidade é um deles. Não se trata de mais um capítulo no manual de recursos humanos, nem de uma tendência simpática para preencher relatórios de sustentabilidade. É uma mudança estrutural na forma como olhamos para talento, inovação e liderança. E as empresas que não perceberem isto a tempo arriscam-se a perder uma das maiores fontes de criatividade e resiliência disponíveis no mercado.

Um estudo recente da Gi Group Holding voltou a colocar o tema no centro da discussão: organizações que adaptam políticas e espaços de trabalho à neurodiversidade registam níveis superiores de inovação, engagement e retenção de talento.

Pode parecer um detalhe, mais umas salas silenciosas, umas entrevistas menos formais, uns ajustamentos sensoriais. Mas a verdade é outra: estamos a falar de modelos de trabalho capazes de acomodar uma parte significativa da população. A Gallup estima que entre 10% e 20% da população mundial é neurodivergente, um número que dificilmente pode ser ignorado em qualquer estratégia séria de talento.

E se a prevalência é esta, o impacto nas empresas deveria ser ainda maior. A Organização Mundial da Saúde calcula que os transtornos do espectro do autismo afetam cerca de 1 em cada 100 pessoas.

Mas a realidade é que grande parte deste talento continua invisível. Seja nos currículos, nos processos de recrutamento, nos open spaces, no discurso das lideranças. Inexistente nas estatísticas internas porque muitas pessoas preferem não revelar as suas condições para evitar estigma, comentários ou limitações de progressão.

O paradoxo é evidente: nunca se falou tanto de inovação, mas continuamos a excluir (ou a subaproveitar) precisamente os profissionais que, por estrutura cognitiva, podem estar mais predispostos a pensar de forma original, rigorosa, não convencional.

O que ganham as empresas ao incluir este talento?

Não se trata de retórica. Há dados muito concretos. A Ordem dos Psicólogos Portugueses concluiu que equipas que incluem pessoas neurodivergentes podem alcançar até 30% mais produtividade do que equipas compostas apenas por perfis neurotípicos.

Para além da produtividade, há ganhos sustentados em inovação, criatividade e capacidade de resolução de problemas. Várias empresas internacionais — da Microsoft à SAP — têm partilhado publicamente que programas de recrutamento direcionados para profissionais no espectro do autismo resultaram em melhorias mensuráveis ao nível da qualidade de código, eficiência operacional e redução de erros.

E não são apenas as grandes tecnológicas. A inclusão cognitiva está a chegar à indústria, às finanças, ao retalho e à saúde. O denominador comum é sempre o mesmo: quando o ambiente é adaptado, as pessoas entregam melhor. Quando não é, o talento perde-se mais por falta de condições do por incapacidade e incompetência.

O que tem de mudar dentro das empresas

O relatório da Gi Group Holding é claro ao identificar cinco linhas de ação que, mais do que práticas isoladas, representam uma mudança de cultura:

Reconfigurar espaços de trabalho. Não se trata de luxo, mas de necessidade. Iluminação regulável, zonas de silêncio, áreas de recuperação sensorial reduzem sobrecarga e aumentam foco. Flexibilizar horários, processos e formatos. A produtividade não acontece à mesma hora para todas as pessoas e isso é válido para qualquer colaborador, neurodivergente ou não. Formar líderes. Sem liderança informada, não existe inclusão possível. É preciso ensinar gestores a reconhecer sinais, adaptar comunicação e perceber que nem tudo se resolve com reuniões sucessivas ou feedback imediato. Reformular recrutamento. Processos de entrevista convencionais funcionam como filtros enviesados. Entrevistas por competências práticas, roteiros claros e menos improviso revelam talento onde antes só se via «falta de jeito social». Integrar a neurodiversidade na estratégia global de talento. É uma mudança de paradigma. Se não for transversal, dissolver-se-á em boas intenções.

Rita Mexia, responsável pelas áreas de DE&I da Gi Group Holding, resume esta necessidade sem hesitação: «A neurodiversidade não deve ser vista como um desafio, mas como uma oportunidade para inovar na forma como colaboramos e gerimos equipas.»

O futuro do trabalho vai ser mais diverso, quer as empresas queiram ou não

A ascensão da neurodiversidade  é uma inevitabilidade económica, imposta pela própria lógica da inovação. Num mercado saturado, competitivo e carente de talento, as organizações que continuarem a olhar apenas para modelos tradicionais de desempenho vão ficar para trás.

O talento vem em muitas formas. Algumas mais ruidosas, outras mais silenciosas, algumas mais rápidas, outras mais metódicas. O que separa uma empresa mediana de uma empresa visionária não é a quantidade de talento que encontra, mas a capacidade de o reconhecer quando ele não aparece da forma esperada.

A verdadeira liderança, aquela que constrói futuro, começa precisamente na coragem de questionar o que sempre se fez, no compromisso com métodos mais humanos e eficazes, e na clareza de que nenhum negócio pode ser realmente inovador se não for capaz de acolher mentes que pensam de forma diferente.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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