Os extremistas do Bem

Como qualquer ideologia que imponha o pensamento único e a maneira certa de pensar, o fascismo é uma ideologia abjeta. Deve ser combatido com pluralismo e com inteligência e não com as suas próprias armas, acima de todas a impossibilidade de diálogo. Ora o fascismo e o anti-fascismo parecem ter involuntariamente andado de mãos dadas na sequência da morte George Floyd.

As manifestações a favor de uma causa justa, a da violência policial em geral, e da violência contra minorias raciais em particular, que qualquer sociedade decente tem a obrigação de abolir, serviram para dar boleia a grupos extremistas que se dizem antifascistas. Daí até se fazer a defesa de que um polícia bom “é um polícia morto” ou a recordar fotos de fascistas italianos pendurados pelos pés na sequência de execuções sumárias, foi um pequeno passo. Mais um passo e eis que, num ápice, Churchill, o grande combatente antifascista e inimigo do racismo nazi, é transformado em alvo dos… antifascistas.

Os totalitarismos partilham a intolerância face à diversidade de ideias, a recusa das regras do estado de direito e a vontade de refazer a história, cultivando mitos e apagando personagens incómodas. Para quem não gosta de execuções sumárias nem de limitação do pensamento, estas são ideias perigosas. A História e o tempo discutem-se e assumem-se. Mas não se refazem. Por isso a violência em nome do Bem é um instrumento ao serviço dos intolerantes. O incitamento à violência e ao vandalismo não têm defesa numa sociedade decente.

Para ler
Numa altura em que muito se discute o passado, importa não esquecer, ler, discutir, refletir, corrigir, assumir e andar para a frente, para criar sociedades mais justas, capazes de assumirem as suas glórias e as suas desgraças. Sociedades em que homens como Churchill sejam vistos por inteiro, sem serem reduzidos a caricaturas deles mesmos. Acabado de editar, Combates pela Verdade. Portugal e os Escravos, de João Pedro Marques (Guerra e Paz) é um contributo para o debate. Pode-se concordar ou não concordar, mas é uma voz importante para o diálogo. Devia ser lido principalmente pelos extremistas do Bem, que andam por aí a vandalizar estátuas, um gesto que Vítor Serrão descreveu da maneira certa: “A violência contra as obras de arte é sempre um acto fascista”. Precisamos não apenas de indignação, que se compra barata nas redes sociais, mas de debate – uma ideia que talvez gere, ela própria, indignação, nesta era da indignação.


Para ver

Um dos bons filmes sobre estas matérias é Autobiografia de Nicolai Ceausescu (de Andrei Ujica, 2010). Para quem gosta da ideia de ver ditadores executados de forma sumária, eis um filme a ver ou a rever. A história não é bonita mas é instrutiva.

 

 

 

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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