Os líderes não salvam a humanidade, são os seus guardiões

Voltar à política como quem já lá tenha estado e se ausentou ou então só mesmo fazer um pequeno retrocesso para nesse afastamento se conseguir compreender melhor o que queremos fazer com as nossas vidas políticas, a nossa dimensão pública e de convívio social. A política é, acima de tudo, um modo de viver em conjunto e tudo o que isso implica é de ordem prática com fortes implicações éticas e morais. Isto é, o que se faz da vida das pessoas, dos cidadãos, deve estar fortemente imbuído de um compromisso com a ética e com a moral sob pena de a própria razão de sermos humanos se desmoronar. Importa, por isso, estabelecer fronteiras, baias intransponíveis que resultam das conquistas histórias que a Humanidade foi fazendo. O modo civilizado de vida que fomos conquistando não pode ser comprometido pelo modo, por vezes doentio, com que líderes com meticuloso sentido de oportunidade conduzem os cidadãos para lá dessas fronteiras.

Rutger Bregman, no seu livro Humanidade – Uma História de Esperança, dá-nos muitos exemplos de que talvez nem precisemos de líderes para enfrentar o caos, mostrando que os Homens em circunstâncias caóticas conseguem encontrar soluções organizativas que prescindem de lideranças, e ao contrário das teses de Thomas Hobbes, não se matam e esfolam, mas antes colaboram e prosperam, revelando uma intrínseca propensão para o bem à boa maneira de Jean[1]Jacques Rousseau. Esqueçamos O Deus das Moscas de William Golding e procuremos exemplos como aquele dos seis jovens que, nos anos sessenta, depois de oito dias à deriva no mar, acabam por naufragar e sobreviver numa ilha deserta, completamente inóspita*. Estes exemplos servem para acreditarmos finalmente na Humanidade e na sua genuína capacidade de entendimento.

podemos organizar sem lideranças, acontece que precisamos delas para salvaguardar as tais conquistas civilizacionais que fomos fazendo, isto é, precisamos de lembrar em permanência os direitos e deveres fundamentais que as constituições preconizam e vão atualizando, e, à contrario, não precisamos de líderes que habilidosamente e furando por entre as gotas da chuva das crises (económicas, migratórias, de informação, etc.) se autoproclamem salvadores e donos de uma verdade que corrompe toda a estrutura de valores éticos e morais do mundo livre e civilizado.

E não adianta encontrar condições de vida favoráveis em Marte se para lá levarmos também o erro abissal do ideal do líder salvador. Quem nos salva não são os líderes salvadores, é a nossa intrínseca capacidade de nos organizarmos e sobrevivermos ao caos. Os líderes não salvam a Humanidade, são apenas os guardiões das grandes conquistas humanas. Voltar à política é voltar à ideia de uma liderança guardiã e não salvadora. O Homem salva-se quando pensa, entende e escolhe.

Artigo publicado na edição de outono da revista Líder.

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Por Catarina G. Barosa, Diretora Editorial

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