Já são conhecidos os vencedores dos Prémios Nobel de 2025, numa edição que ficou marcada por incerteza em algumas categorias, até ao anúncio da decisão. Anualmente, estas distinções evidenciam três grandes vetores que definem a atualidade: tecnologia e inovação (Economia, Física, Química), saúde e sistemas de bem-estar (Medicina) e os valores humanos que sustentam a […]
Já são conhecidos os vencedores dos Prémios Nobel de 2025, numa edição que ficou marcada por incerteza em algumas categorias, até ao anúncio da decisão. Anualmente, estas distinções evidenciam três grandes vetores que definem a atualidade: tecnologia e inovação (Economia, Física, Química), saúde e sistemas de bem-estar (Medicina) e os valores humanos que sustentam a sociedade — cultura (Literatura) e democracia (Paz).
Na área de Economia, o prémio foi atribuído a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt, por explicarem como a inovação é o motor essencial do crescimento económico.
Mokyr estudou as condições históricas que tornaram possível a Revolução Industrial e mostrou que o conhecimento e a curiosidade são tão importantes como o capital. Aghion e Howitt desenvolveram o conceito de ‘destruição criativa’, em que novas empresas e tecnologias substituem as antigas, obrigando economias a reinventar-se continuamente.
André Silva, Professor Associado da Nova SBE, explica que o prémio deste ano evidencia «o papel fundamental da inovação tecnológica no crescimento económico.»
E acrescenta: «até há cerca de 300 anos, o rendimento per capita praticamente não crescia — mesmo com avanços como as estradas romanas ou as viagens transatlânticas, a maioria da população vivia perto do nível de subsistência. Tudo começou a mudar a partir de 1700.
Joel Mokyr analisou, com base em dados históricos, os fatores que estiveram na origem da Revolução Industrial. Philippe Aghion e Peter Howitt, por sua vez, mostraram como o processo de inovação — marcado pela substituição de tecnologias antigas por novas — pode gerar crescimento económico sustentável.
Um dos aspetos centrais do trabalho destes investigadores é que a inovação exige mais do que incentivos financeiros: requer pessoas capazes de criar e de aplicar novas tecnologias. Fatores como a mobilidade e a liberdade para as empresas encerrarem ou iniciarem atividade são igualmente essenciais para garantir um crescimento económico dinâmico e duradouro.»
Da Paz à Medicina, pluralidade e futurismo brilham
Ainda se pensou que Trump pudesse ganhar o Prémio Nobel da Paz, após o seu envolvimento no ainda incerto cessar-fogo na Palestina. Mas a vencedora foi María Corina Machado, figura da oposição venezuelana, pela sua luta pacífica e persistente pela democracia, num país marcado por repressão, exílio e silêncio forçado.
Na área da Medicina, foram distinguidos Mary Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi, pelas suas descobertas sobre a tolerância imunitária periférica — o mecanismo que impede o sistema imunitário de atacar as células do próprio organismo.
Estes cientistas identificaram o papel das células T reguladoras, essenciais para evitar doenças autoimunes como artrite reumatoide, diabetes tipo 1 ou esclerose múltipla. O prémio reconhece também uma mudança de paradigma: a medicina do futuro não combate apenas a doença, ensina o corpo a proteger-se de si próprio.
Física e Química: o mundo quântico que deixa de ser invisível e materiais que respiram
John Clarke, Michel Devoret e John Martinis receberam o Nobel da Física por demonstrarem que fenómenos quânticos — como o tunelamento e a quantização de energia — podem ser observados em sistemas quase macroscópicos.
É ciência, mas também é tecnologia, uma vez que estes avanços estão na base dos computadores quânticos, sensores ultrassensíveis, comunicações seguras e novas formas de processar informação. Se até agora a física quântica era invisível ao olho humano, hoje começa a tornar-se ferramenta estratégica para empresas, governos e centros de inovação.
O Nobel da Química distinguiu Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar Yaghi, criadores das estruturas metal-orgânicas (MOFs) — materiais com poros microscópicos que funcionam como esponjas moleculares.
Esses materiais podem capturar CO2, armazenar hidrogénio, filtrar poluentes e até recolher água do ar em desertos. E não é apenas ciência de laboratório, é tecnologia para responder a crises energéticas, climáticas e industriais.
Na literatura vence a linguagem do colapso e da resistência
O escritor húngaro László Krasznahorkai foi galardoado com o Nobel da Literatura. A sua obra é conhecida por frases longas, mundos à beira do colapso e uma pergunta permanente: o que acontece ao ser humano quando tudo à volta se desfaz?
Krasznahorkai escreve sobre caos, mas também sobre a possibilidade de redenção. Num mundo de polarização e incerteza, é um prémio à literatura que incomoda, desafia e resiste.


