Papa I(mobile)

Há uns dias, em modo insónia pós-teatro pré-ensaio, caí numa entrevista ao arquiteto Eduardo Souto de Moura com a jornalista Fátima Campos Ferreira, no programa “Primeira Pessoa”, da RTP.

Estático, na minha sala, ouvi o arquiteto galardoado até ao espaço, falar da importância da Casa, de como estamos sempre a revolucioná-la, e, a dada altura, da capela construída para a Bienal de Veneza, numa resposta a um desafio lançado pelo Vaticano as pessoas que arquitetam com origem em vários mundos – não sei se veio alguém de Marte, mas espero veementemente que sim. A correria para entrar na capela feita de pedra Lioz sugeriu às pernas de quem foi os entusiasmos de uma peregrinação.

Neste caso, de peregrinação em descida, até ao silêncio da contemplação. Socorro-me deste exemplo, também por nesta conversa, ter ouvido isto: “Na igreja moderna ninguém sabe onde está.” Souto de Moura falava de corredores e naves e claustros, mas concordo. Talvez nem o sucessor de Pedro o saiba. Não é preciso ter tirado um curso de História para se saber como a Igreja Católica funciona em slow-motion – basta respirar. As mentalidades, são como as placas tectónicas, dão turras umas nas outras e cospem a seu Tempo terramotos, mas não há dúvidas – demoram.

A frase proferida pelo Papa ecoou pelas catedrais – e corações –, como a carta de alforria que muitos homossexuais católicos desejavam há mais anos do que os possíveis. “Os homossexuais merecem amor e fazer parte da Família.” Será que a palavra limpa a culpa, a violência, a sensação de se crescer aberração? Provavelmente, não, mas ajuda na invenção do futuro. Mesmo que filtrada pela Cúria semanas depois, as letras estão cá fora. Os homossexuais merecem. Ou seja, são vistos. Existem. E têm lugar à mesa. Poder-se-á dizer que é curto. Então, e o casamento? Será tudo uma estratégia de marketing para captar novos fiéis? Talvez, mas se há alguma coisa que a pandemia nos ensinou foi isto: um dia de cada vez. Se há mais amor hoje, então o nosso dever é o de fazê-lo crescer.


Por Rui Maria Pêgo, Radialista

[A opinião foi integrada no tema de capa da edição n.º 12 da revista Líder.]

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