Patrícia, por exemplo

Há sempre momentos nos Jogos Olímpicos que nos mostram momentos de superação, coragem e liderança. O salto de Patrícia Mamona, no domingo passado, é sem dúvida um desses momentos; pelo resultado (medalha de prata), pela determinação mas, sobretudo, pelas declarações que, antes e depois, teve oportunidade de fazer.

Patrícia não se acha dotada, em particular, de um dom. E isso é fantástico, porque inclusivo. Não nasceu para o triplo salto, nem para nada muito em especial, e pelo que diz quase toda a gente poderia – não digo chegar ao seu lugar – andar por perto dos seus resultados. Senão naquela disciplina, noutra qualquer.

Patrícia não tem complexos, nem fala da sua cor de pele mais do que o estritamente necessário para explicar determinadas circunstâncias; foi boa aluna, excelente mesmo, e entrou em Medicina, o mais difícil dos cursos; viveu sem os pais um ror de tempo, porque estes, já vindos de Angola, emigraram mais uns anos; não teve a rebeldia das grandes causas – salvo uma vez que fugiu para ir treinar ao clube de Monte Abraão, depois de proibida pela mãe. Esta foi facilmente convencida a deixar a filha treinar, tendo em conta as boas notas que obtinha na escola… e foi a melhor decisão.

Patrícia frequentou a Igreja Evangélica e se a deixou, não deixou Deus, ou essa força que sente a transcendência, o fazer algo que é maior do que ela, quando compete, quando luta por aquele centímetro que ela afirma serem cinco anos de trabalho; quando ouve o Hino Nacional antes de competir.

A atleta afirma-se portuguesa e gosta que os portugueses gostem do que faz. Adora que os outros lhe digam que hão de vir a Portugal.

O que tem ela de especial? O foco.

Patrícia não foi com os pais e ficou em Portugal para treinar; ainda não foi a Angola (salvo quando tinha dois anos e não se lembra), que gostaria de visitar por ser a terra dos pais, porque tem de estar centrada nas competições que aí vêm. Quer ter filhos, mas só depois de deixar de competir (e dá o exemplo de Naide Gomes e de uma tia sua, que tiveram filhos mais tarde). Tem 32 anos, mas ainda espera ir aos próximos Jogos, em Paris. Mantêm-se matriculada no curso e espera terminá-lo.

Patrícia Mamona é uma líder. Não só no desporto em que se sagrou campeã europeia e campeã olímpica, como, aposto, em qualquer atividade que goste de desempenhar e sinta ter uma missão a cumprir. A lição que as suas palavras dão são inequívocas: o foco, a determinação, a gratidão ao país em que nasceu e que a acolheu, o sentido de que aquilo que faz é e significa mais do que ela própria.

Um líder não é alguém com poderes especiais. Pelo contrário, pode e deve ser alguém como nós. A diferença é o querer, o plano, o foco, o sentido do dever.

Patrícia Mamona – leiam as suas entrevistas e declarações – é uma atleta com a cabeça arrumada e os objetivos claramente definidos. As características da liderança.


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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