Paulo Neto Leite: “Esta situação implica uma redução de 96% na atividade”

Num Portugal que desapareceu das ruas e dos céus, os aviões estão em terra, estacionados e as fronteiras encerradas. O silêncio invade os aeroportos e a ele juntam-se 11% dos quadros da Groundforce – são o garante da reduzida operação diária.

Uma queda drástica para a empresa nacional de assistência em terra a passageiros, operações em pista e carga aérea, que em abril registou um decréscimo da atividade em 96%.

Foi um dos primeiros setores a sentir o embate da declaração do Estado de Emergência e, será provavelmente, um dos últimos a recuperar das suas consequências.

Com a Líder, Paulo Neto Leite, CEO da Groundforce, partilha o plano de gestão traçado, as decisões difíceis, as incertezas, o dever de não baixar os braços e serenar as suas pessoas, numa conversa virtual com sabor agridoce.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
É uma crise mundial sem precedentes e que afeta, simultaneamente, a saúde pública e, também, de uma forma muito agressiva, a economia nacional e mundial. Daqui resultam incertezas e desafios aos quais temos de responder, no imediato, de forma a proteger os nossos colaboradores, que são o nosso maior ativo, bem como o nosso negócio. Vivemos num contexto exigente e de decisões complexas onde a capacidade de liderança está colocada à prova, de uma forma nunca antes vista. A resiliência, o foco e o empenho são fundamentais. No entanto, o mais assustador nesta crise é a conjugação de duas perguntas para as quais ninguém tem resposta: quando acaba? e como se irá dar a recuperação?

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
A nossa prioridade, desde o primeiro momento, é garantir a segurança e a proteção dos nossos colaboradores e dos passageiros. Neste sentido implementámos, desde o início do surto COVID-19 (22/01/2020), um conjunto de medidas preventivas suportadas nas recomendações das autoridades nacionais de saúde e dos nossos serviços médicos. Começamos por estabelecer uma comunicação permanente com os trabalhadores para informar, alertar e prepará-los para este contexto. Instalámos e distribuímos dispensadores de gel desinfetante nos locais com maior concentração de trabalhadores, em complemento aos dispensadores disponibilizados pelos aeroportos, bem como suprimimos a picagem de ponto através de sistemas biométricos e o cancelamento de todas as formações externas. Foram identificados os trabalhadores em grupos de risco, nomeadamente grávidas, idosos, doentes crónicos ou portadores de doença oncológica, entre outros, com o consequente afastamento do local de trabalho. Passámos para teletrabalho todos os trabalhadores com funções passíveis de serem desempenhadas nesta modalidade. Encerrámos espaços como o Blue Lounge e a sala de serviço Groundcare. Limitámos o número de trabalhadores nas salas de descanso, nos refeitórios e foi implementada a distância de segurança e de afastamento social nos locais de maior aglomeração. Foi reforçada a limpeza das instalações e a desinfeção dos equipamentos. Foi igualmente reforçada a higienização dos autocarros de transporte de passageiros e de tripulações, e limitado o número de passageiros por autocarro de transporte de passageiros de/para as aeronaves, para 35 passageiros (numa capacidade de 80), bem como limitado o número de trabalhadores a transportar por navette para cinco (numa capacidade de nove).

Qual o impacto real no negócio?
Verifica-se já e vai continuar a confirmar-se um impacto muito significativo deste surto no nosso negócio. Os passageiros deixam de voar; as companhias têm a frota em terra. O setor sofreu uma queda drástica. Fomos fortemente afetados pela paragem de quase toda a frota TAP durante todo o mês de abril, somando o decréscimo abrupto ocorrido em todas as escalas onde exercemos a nossa atividade, diminuição essa verificada também nas outras companhias aéreas a quem prestamos serviços. Dos 19 840 movimentos previstos para o mês de abril,
para os quais a empresa tinha dimensionado a operação em equipamentos e recursos humanos, apenas serão realizados 778. Esta situação implica uma redução de 96% na atividade da Groundforce. Existem vários aeroportos onde a empresa está a operar que não têm previsto qualquer voo. No entanto, por ser parte integrante de um serviço público terá sempre de garantir uma capacidade operacional permanente para qualquer eventualidade.

O que é o mesmo que dizer que o trabalho mantém-se reduzido a 4%. Que medidas foram desenhadas a esse nível?
A nossa prioridade é, desde o primeiro momento, proteger os nossos colaboradores e, por isso, traçámos um plano de contingência e de gestão exigente que visa manter a “família” Groundforce unida e intacta face aos danos e consequências decorridas deste surto. Neste contexto, fomos obrigados a tomar várias medidas extraordinárias previstas para estas situações. É uma decisão difícil, mas necessária para a manutenção da empresa e que garante a proteção dos nossos trabalhadores. Do nosso quadro total de 2832 trabalhadores, 324 (11,4% do total) ficarão a garantir as operações diárias, na Engenharia de Equipamentos e nas Operações em cada escala, sem redução no seu salário. Temos que reconhecer o esforço de todos os que continuarão a dar o seu melhor pela reduzida operação que teremos. 2425 trabalhadores (85,6% do total) ficarão em Suspensão Temporária da Prestação de Trabalho ao abrigo do lay-off simplificado e receberão todos, sem exceção 2/3 das remunerações fixas mensais. Um grupo de 55 trabalhadores (1,9% do total) pertencentes a áreas de suporte e chefias operacionais, ficarão em 15% de redução do período normal de trabalho. Um grupo mais pequeno de 14 trabalhadores (0,5% do total), das áreas de suporte, ficará em redução do período normal de trabalho, variável em função das necessidades operacionais e receberão 2/3 das remunerações fixas mensais. Os diretores da empresa ficarão em 20% de redução do período normal de trabalho e os administradores executivos, voluntariamente, propuseram uma redução de 30% da sua remuneração.
Uma situação verdadeiramente complexa. O setor da aviação é um dos mais afetados pelos efeitos económicos da pandemia. Foi um dos primeiros a sentir o impacto da declaração do estado de pandemia e, provavelmente, um dos últimos a recuperar das suas consequências. Considerando que aos 2832 trabalhadores, se juntam as respetivas famílias, é sem dúvida uma situação muito complexa. A nossa ação passa por equilibrar a adoção de medidas entre o que é permitido pela lei e as reais necessidades da empresa.

Entrevista TitiAna Amorim Barroso

[A conversa completa pode ser lida aqui, na nossa revista digital]

[Nota: A entrevista foi realizada antes do desconfinamento. A 30 de abril a Groundforce Portugal comunicou o prolongamento do período de layoff por mais 30 dias, até 1 de junho, por considerar que não estão ainda garantidas as condições para o regresso à operação.]

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