Há uma mudança a acontecer dentro das empresas e não tem a ver apenas com tecnologia ou modelos de trabalho. Tem a ver com pessoas. E com aquilo que já não estão dispostas a aceitar.
O mais recente People Engagement Survey, desenvolvido pela Cegoc em parceria com o ISCTE Executive Education, confirma essa viragem: o envolvimento dos colaboradores depende hoje menos de fatores tradicionais e cada vez mais da qualidade da experiência humana dentro das organizações.
Num momento em que a retenção de talento se tornou uma das principais batalhas das empresas, o estudo deixa um sinal claro — quem não investir em bem-estar, cultura e liderança arrisca perder pessoas.

O engagement já não se compra, constrói-se
Durante anos, salário e progressão eram suficientes para garantir estabilidade. Hoje, deixaram de ser. As políticas de bem-estar surgem como o principal fator de envolvimento, seguidas pela compatibilidade entre os valores dos colaboradores e os da organização. Quando esse alinhamento falha, o impacto é imediato. A perceção de falta de dignidade ou de humanização nas relações de trabalho traduz-se em menor envolvimento e maior intenção de saída.
E há um efeito adicional: estes fatores não influenciam apenas a permanência, mas também o esforço. Colaboradores que se sentem alinhados e valorizados estão mais disponíveis para ir além do mínimo exigido. É a identidade da empresa e da pessoa que está em causa.

Isolamento: o problema invisível dentro das empresas
Há outro fenómeno a ganhar peso, menos visível, mas com consequências diretas: o isolamento social. O estudo mostra uma relação clara entre isolamento e desinvestimento no trabalho. Quanto maior a sensação de afastamento, maior a tendência para a negligência.
É aqui que o bem-estar psicológico deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma ferramenta de gestão. Organizações que investem em liderança positiva, coesão de equipa e apoio emocional conseguem reduzir esse risco e reforçar o vínculo com os colaboradores. um fator estrutural.
Inteligência artificial pode aproximar ou afastar
A tecnologia, e em particular a inteligência artificial, surge como um dos pontos de maior tensão. Quando os colaboradores desenvolvem competências digitais, o efeito é positivo: maior envolvimento, maior abertura à mudança, maior confiança no futuro.
Mas o reverso também existe. Quando a tecnologia é percecionada como uma ameaça — ao emprego, à relevância ou à estabilidade — cresce a intenção de saída e diminui o compromisso.
O que faz a diferença não é a tecnologia em si, mas a forma como é introduzida. Liderança, comunicação e formação tornam-se determinantes para evitar que a transformação digital se transforme num fator de rutura.

Trabalho híbrido não é o problema, mas o modelo
Num debate muitas vezes simplificado, os dados mostram uma realidade mais complexa. Os níveis de isolamento são mais elevados entre trabalhadores exclusivamente presenciais do que entre aqueles em regime híbrido. E quem trabalha mais à distância reporta maior bem-estar e maior envolvimento.
A conclusão é desconfortável para muitas organizações, pois o que fragiliza a relação é a falta de qualidade na experiência de trabalho. Quando o escritório não oferece mais do que aquilo que já existe em casa, perde relevância. Ganha valor quando promove interação, colaboração e sentido de pertença.
Diferenças entre setores expõem fragilidades
O estudo identifica também disparidades relevantes. Na hotelaria e turismo, o envolvimento está abaixo da média e a intenção de saída é significativamente mais elevada — um reflexo de condições exigentes e elevada rotatividade.
Já entre setor público e privado, as diferenças são menos marcadas do que seria expectável. Os níveis de satisfação e vinculação são semelhantes, sugerindo que o fator crítico não é o setor, mas a forma como as pessoas são geridas.
O que emerge deste retrato é uma mudança de paradigma. O envolvimento deixou de depender apenas de incentivos e passou a assentar em fatores mais profundos: relações, cultura, sentido e bem-estar.
Num mercado onde o talento é escasso e cada vez mais exigente, as organizações enfrentam uma escolha clara: adaptar-se ou perder pessoas.
Zurich, CA Seguros e AMCO destacam-se no engagement
No People Engagement Summit 2026, que acompanhou a divulgação do estudo, foram também distinguidas as organizações com melhores níveis de envolvimento.
Entre as grandes empresas, a liderança foi assumida pela Zurich Portugal, seguida da InnoWave e da Bondalti.
Nas médias empresas, o primeiro lugar coube à CA Seguros, com a Samsys e a Codewin a completarem o pódio.
Já entre as pequenas, a AMCO Intermediários de Crédito lidera, seguida da Standout Technologies e da B-Training Consulting.
Mais do que prémios, são sinais. Sinais de que, num contexto de mudança acelerada, as organizações que colocam as pessoas no centro são mais atrativas e resilientes. E, cada vez mais, são também as que ficam.


